26/10/2001 - 8:00
A história é rocambolesca e começa em junho deste ano. Roberto Colaninno, então presidente da Telecom Italia, passa a ser investigado pela polícia italiana. O motivo é uma operação financeira nebulosa: a compra de ações da Seat Pagine Gialle, uma empresa de páginas amarelas, pela operadora de telefonia italiana. Tudo seria normal, não fosse o fato de Colaninno ser um dos principais acionistas da Seat. Ou seja: com dinheiro de acionistas minoritários, a Telecom Italia comprava uma empresa que pertencia a seu presidente, num negócio de US$ 116 milhões. Foram desmandos como esse que contribuíram para a sua queda em agosto, após a compra da operadora pela Pirelli.
Mas o que antes era apenas um entre muitos escândalos financeiros na Itália ganhou agora proporções muito mais sombrias. Descobriu-se que um dos principais procuradores no processo, Francesco Saluzzo, atuou na verdade como um espião de Colaninno. Na investigação, foi quebrado o sigilo telefônico e surgiram várias ligações de Saluzzo para o celular do ex-capo da Telecom Italia. ?Tudo está tranqüilo?, teria dito em uma das conversas. A história veio à tona com a confissão feita por Vittorio Nola, ex-responsável pela segurança da operadora. Nola foi demitido após Enrico Bondi, presidente da empresa indicado pela Pirelli, ter descoberto um grampo em seu próprio gabinete.
Saluzzo, que tinha a fama de ser um dos procuradores mais honestos da Itália justamente pelo combate implacável à corrupção, agora responde por um processo do Conselho Superior de Magistrados. Deve perder o cargo. Em entrevista ao jornal italiano La Repubblica, ele mostrou-se deprimido e disse que a acusação é um insulto a sua inteligência. ?Como podem acreditar que eu tenha feito aqueles telefonemas e deixado um rastro tão evidente??, indagou. Mas sua situação é complicadíssima. Ele é amigo do ex-presidente da Seat, Salvatore Sardo.
A Telecom Italia também possui grandes negócios no Brasil. Além de sócia da Brasil Telecom, operadora em que disputa o controle com o Opportunity, a empresa tem concessões para atuar na telefonia celular em todo o território nacional. As investigações contra Colaninno envolvem até mesmo a falsificação de balanços. Pelos documentos já obtidos pela polícia italiana, será difícil fazer com que, desta vez, tudo termine em pizza.