03/05/2000 - 7:00
Quinta-feira santa, 20 de abril. O economista Francisco Lafaiete de Pádua Lopes, ex-presidente do Banco Central, sobe lentamente os degraus que levam à pequena Igreja do Divino, na cidade de Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Metido em calça de tergal, em mangas de camisa clara, ele caminha solitário e reflexivo para se juntar a uma pequena multidão que aguarda o início da missa do lava-pés. O templo não tem capacidade para abrigar os cerca de 100 fiéis e a celebração acontece em um pequeno pátio anexo. Em lugar dos bancos de madeira, são utilizadas cadeiras de ferro pintadas de branco. Em vez de genuflexórios almofadados, o cimento frio e áspero que cobre o chão. As paredes não são decoradas com murais de motivos religiosos, mas com orações escritas a mão em cartazes de cartolina. Nada disso, porém, inibe Chico Lopes. Rosto contrito, mãos entrelaçadas junto à boca, olhos cerrados, ele ajoelha-se e reza fervorosamente. Ali, Chico é um pessoa anônima, tão desconhecido como a senhora de braços abertos e vestido simples ajoelhada a seu lado. Trata-se apenas de mais um entre os milhões de cristãos brasileiros que aproveitam o feriado religioso para orar e pedir perdão por seus pecados.
A cena desperta a atenção pelo que ela tem de comum e pelo contraste que representa na vida de Chico Lopes. Comum porque ir à missa é atualmente um compromisso literalmente religioso de Lopes aos domingos ou em qualquer dia santo. O contraste nasce da comparação com o que ocorria há exatamente um ano, quando ele estava longe de ser apenas um entre os fiéis de uma humilde igreja católica de uma cidade do Interior. Na ocasião, acusado de favorecer dois bancos durante a crise cambial de janeiro de 1999, esse mineiro de 54 anos era talvez a figura pública mais comentada do País, o mais assíduo freqüentador das manchetes dos jornais e dos noticiários de tevê, um dos rostos mais conhecidos na interminável maré brasileira de escândalos políticos.
Assim que sua imagem saiu do foco da imprensa e dos políticos, Chico Lopes partiu para um exílio voluntário. Não mudou de casa, cidade ou país, mas foi ?em direção a si próprio?, como diz um de seus amigos, ou ?passou a recolher os cacos de sua alma depois do massacre público do qual foi vítima?, como prefere seu advogado, Luís Guilherme Vieira. Lopes afastou-se da maioria de seus amigos, deixou de freqüentar locais públicos e refugiou-se em casa. Desde então, sua principal companhia é a mulher Araci Pugliese, a Ciça, a filha do primeiro casamento Estefânia, e os dois enteados, Bruno e Sérgio.
Abatido, quase dez quilos mais magro, Chico passou dias e dias escondido em casa. Seu refúgio preferido, porém, foi o sítio de sua propriedade, localizado no bairro de Carangola, em Petrópolis. Somente após seu depoimento na CPI, em agosto do ano passado, ele começou a reconstruir sua rotina. Entre abril e o final do ano passado, leu continuamente a Bíblia. Preferia o Antigo ao Novo Testamento, particularmente o Livro de Jó, no qual há a parábola do ?homem justo e temente a Deus? que perde a família e a riqueza, mas mantém a fé em Deus. Como recompensa, recebe tudo de volta. Essas leituras também o levaram de volta às missas. A Igreja do Divino é sua predileta. O padre Antônio Carlos Cardoso o vê por lá há cerca de um ano, mas nunca trocou uma palavra sequer com o economista.
Os livros foram assíduos companheiros nesse período. Além da Bíblia, habituou-se a ler biografias de grandes personagens da História. Recentemente leu avidamente o Papa de Hitler ? a história secreta de Pio XII, do jornalista inglês John Cornwell. O período sabático também o levou de volta aos estudos daquele que continua sendo o assunto que mais lhe interessa, a Macroeconomia. Não se trata apenas de diletantismo, mas sim a preparação para um projeto ao qual pretende se dedicar no futuro: o retorno à cátedra. É um assunto que Lopes trata com reservas, porque vê uma série de dificuldades para voltar à atividade de professor. ?Mas ele gostaria de retomar suas origens profissionais, unir as duas pontas de sua vida?, diz um amigo, utilizando uma frase de Machado de Assis.
Como fruto desses estudos, Lopes voltou a escrever. Os textos não são publicados na imprensa como antigamente. Servem mais para sistematizar suas idéias e raciocínios. Alguns deles vão parar nos boletins publicados mensalmente por sua empresa de consultoria econômica, a Macrométrica.
Ao longo do segundo semestre de 1999, Lopes recuperou paulatinamente sua auto-estima. O sinal mais visível dessa reviravolta foi a volta ao batente. Em outubro, retomou suas atividades na Macrométrica e estabeleceu uma rotina diária, marcada pela discrição e parcimônia. Lopes mora em um confortável (mas não sofisticado) apartamento de mais de 200 metros quadrados. Avaliado em cerca de R$ 250 mil, o imóvel ocupa um dos 11 andares de um antigo edifício na rua Sá Ferreira, em Copacabana, bairro de classe média do Rio de Janeiro. A tranqüilidade da região volta e meia é quebrada pelos tiroteios na favela no morro do Pavão, o que, segundo corretores, desvaloriza os imóveis do local ? os moradores sempre lembram que ali, anos atrás, o ator Cazarré morreu com uma bala perdida, enquanto dormia em seu apartamento.
Por volta das 7 horas Lopes já está de pé, lê pelo menos dois jornais (um do Rio de Janeiro, outro de São Paulo) enquanto toma café da manhã, em geral acompanhado por Ciça. Sai de casa pouco antes das nove horas em direção à Macrométrica, localizada no quinto andar de um edifício comercial no centro do Rio de Janeiro, chamado Inconfidentes. Lopes utiliza um Fiat Tempra 16 válvulas ano 1996, sempre dirigido por um motorista ? um dos poucos luxos a que se permite. O automóvel ostenta há meses um pequeno amassado na parte traseira cujo conserto é sempre adiado.
Ao desembarcar do carro, Lopes poderia ser confundido com um funcionário de qualquer escritório da região. O terno e a gravata parecem ter sido abolidos de seu guarda-roupa. Vestido com calças sociais escuras, camisas de mangas compridas claras, um pouco maiores do que seu corpo exigiria, ele sempre carrega uma velha pasta de couro e caminha lentamente para o interior do edifício. Cumprimenta o porteiro, o zelador e outros funcionários. O jeitão calmo é uma de suas marcas registradas desde sempre. Lopes é incapaz de levantar a voz ou adotar uma postura agressiva por mais que a situação lhe seja tensa ou desagradável. Ele mesmo atribui esse traço de personalidade à sua admiração pelos princípios da cultura oriental.
Lopes decorou seu pequeno escritório à sua imagem e semelhança. Decoradas com móveis simples, as salas são separadas por divisórias de fórmica. Nas paredes, há apenas uma gravura emoldurada e um calendário metalizado com a figura (é óbvio!) de Jesus Cristo. O ambiente de trabalho pode ser despojado de riqueza, mas os negócios vão bem, obrigado. Aparentemente, toda as acusações a Lopes não afetaram as operações da Macrométrica. Criada em 1984, a empresa tem atualmente cerca de 200 clientes, entre os quais alguns órgãos públicos, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Embrapa e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para o portfólio de clientes são oferecidos dois produtos básicos. Um deles é o Boletim Macrométrica, uma brochura publicada mensalmente com análises de conjuntura, cenários econômicos etc. Outro é o MacroDados, um enorme banco de dados com séries históricas de milhares de indicadores. A assinatura mensal de cada uma das publicações custa R$ 300,00, ou ?aproximadamente o mesmo que se gastaria com um estagiário de Economia?, como afirma a própria Macrométrica. Para os clientes que optem pelas duas, há um desconto de R$ 50,00. É só fazer as contas para se ter uma idéia do faturamento da empresa de Lopes. Essa não é a principal fonte de receita da Macrométrica. Boa parte do dinheiro vem de palestras e apresentações de seus consultores em grandes e médias empresas.
Apesar dos bons ventos que correm nos negócios, há um assunto na Macrométrica, sobre o qual Chico Lopes pouco fala. Sérgio Bragança, seu sócio desde o nascimento da empresa, não aparece há meses no escritório. Há duas versões para seu desaparecimento. Uma delas diz que a sociedade entre eles foi desfeita, vítima do desgaste provocado pelo caso Marka/FonteCindam. Outra afirma que os dois combinaram o afastamento temporário até que a poeira em torno do assunto baixe inteiramente.
Lopes consome a maior parte de sua jornada de trabalho na supervisão dessas atividades ? em outra parte, ele acompanha os processos que correm na Justiça contra ele. No final do dia, ao ultrapassar a porta do edifício Inconfidentes, seu motorista está parando o Tempra em frente, numa sincronia quase perfeita. De lá, parte para casa, onde janta com a família e lança-se novamente à leitura e aos CDs de jazz, seu estilo preferido de música.
Quase todas sextas-feiras à noite, Lopes e Ciça partem para o sítio em Petrópolis. Pouco sai de casa, a não ser para ir à missa na Igreja do Divino. Às vezes, caminha pelos arredores de sua propriedade. Nessas ocasiões, tem a companhia de dois cães. Seu passatempo preferido, porém, é sentar-se à beira da piscina para ler ou tocar algum dos diversos instrumentos de sopro que aprecia. O tipo de música? Jazz, é claro. Continua sendo um exímio jogador de sinuca, mas cada vez demonstra menos suas habilidades devido ao isolamento.
Lopes superou a depressão de um ano atrás, mas não se livrou do peso de sua própria história. Três momentos o marcaram particularmente. O pior deles ocorreu no dia 19 de abril de 1999. Naquele dia, um boato correu as redações de jornais e revistas de todo o País: Chico Lopes havia se suicidado. Logo o boato chegou aos ouvidos de Ciça. Lopes estava em Brasília e preparava-se para depor na CPI, quando recebeu um telefonema da mulher, desesperada em busca de notícias. Ele a tranqüilizou e, em seguida, foi ao quarto de hotel onde o advogado Vieira estava hospedado e contou-lhe o ocorrido. Imediatamente, caiu numa violenta crise de choro. O depoimento foi adiado.
Outras duas passagens marcantes foram a prisão na sessão da CPI e a invasão de seu apartamento pela Polícia Federal, quando foi encontrado um bilhete de seu sócio Sérgio Bragança referindo-se a um depósito de US$ 1,6 milhão em uma conta de Lopes no exterior. Em um depoimento à Polícia Federal meses atrás, o ex-ministro da Casa Civil Clóvis Carvalho declarou que essa dinheirama tinha sua origem na herança do pai de Chico Lopes, Lucas Lopes.
Hoje, Chico Lopes considera-se vítima de sua própria ingenuidade. ?Quando ele percebeu, estava no meio de um jogo maior do que ele poderia suportar?, diz uma pessoa de seu círculo de relacionamento. Lopes pouco fala daquele período e, coerente com seu estilo discreto, procura não atacar os adversários ou antigos aliados. Mágoas, ele guarda muitas. De Pedro Malan, por exemplo. Hoje, considera que o ministro o usou em sua guerra para derrubar Gustavo Franco da presidência do Banco Central. Malan nunca reagia, por exemplo, quando Fernando Henrique Cardoso chamava Lopes para reuniões sem a presença de Franco. ?Ele (Malan) deu corda para que Franco fosse enforcado?, diz um amigo próximo. Fernando Henrique também não é poupado. Lopes acha que o presidente poderia ter se empenhado mais em sua defesa. Suas manifestações públicas de apoio não se concretizaram em ações concretas para evitar que o então amigo Lopes se tornasse a personificação dos males do sistema financeiro brasileiro ? uma marca que, independente dos resultados nos tribunais, ele carregará para sempre.
Colaborou Simone Goldberg