24/07/2002 - 7:00
A Aracruz Celulose apresentou lucros este ano? Depende. Para os investidores americanos, a empresa esbanja ganhos de R$ 126 milhões no balanço financeiro do segundo trimestre. Para os brasileiros, no entanto, o prejuízo foi alto. No mesmo período, a companhia perdeu R$ 126 milhões. Na Bolsa de Madri, ela volta a mostrar números positivos. Tamanha distorção não é mais um caso de balanços financeiros borrados pela fraude que virou uma espécie de maldição em Wall Street. A diferença assustadora é resultado justamente das legislações dos mercados de capitais de cada um dos países. Ou seja, na Bolsa de Nova York, a Aracruz apresenta as demonstrações financeiras segundo o modelo de práticas contábeis chamado US GAAP (princípios gerais aceitos pelas normas norte-americanas), que é completamente diferente da legislação societária brasileira e que tem poucas semelhanças com o IAS (Norma Internacional de Contabilidade) utilizada nos pregões europeus.
A empresa não é a única a demonstrar resultados distintos.
Por isso, na hora de investir jamais se deslumbre com os números apresentados no Exterior. ?Os critérios para lançamentos
de despesas, ágios, variação cambial, financiamentos e as
normas sempre vão causar algum tipo de diferença nos balanços utilizados em cada uma das bolsas de valores?, afirma Diego Fresco, responsável pela área de capital market da PricewaterhouseCoopers. Antes de escolher uma ação listada em vários pregões, você
precisa se informar sobre a legislação de contabilidade específica
do País e comparar todas as prestações de contas internacionais para chegar a uma conclusão mais próxima da real situação financeira da companhia.
No caso da Aracruz, por exemplo, foi a diferença nas normas para lançar as suas dívidas que possibilitaram a proeza de apresentar lucro e prejuízo ao mesmo tempo. Os investidores brasileiros precisam se acostumar com essas confusões em função da crescente presença das empresas nacionais nos pregões internacionais. A Telemar, por exemplo, fez o caminho inverso
ao da Aracruz. Para os investidores da Bovespa, a operadora de telefonia apresentou um balanço com lucro de R$ 140 milhões em 2001. No mesmo período, em Nova York, a Telemar registrava um resultado negativo de R$ 90 milhões. Nem sempre os números são tão contraditórios. O grupo Ultra, por exemplo, conseguiu um balanço similar nos dois pregões (Bovespa e Nova York), mas
por mera coincidência. ?O impacto das diferenças nos balanços
pode aparecer de forma mais amena, porém sempre vai existir?, explica Genuíno Christino, da KPMG Auditores Independentes. De acordo com a legislação brasileira, o Ultra obteve um ganho líquido de R$ 132,2 milhões no ano passado e chegou em Nova York com um lucro de R$ 123 milhões.
Padrão europeu. Na comparação com o padrão europeu também há outros exemplos de distorções. Na Bolsa de Madri, a Companhia Vale do Rio Doce lucrou R$ 800 milhões no primeiro trimestre deste ano. No Brasil, o ganho líquido da mineradora ficou em R$ 700 milhões. Os motivos para os descompassos são diversos e técnicos, resultados de complexos cálculos contábeis que passam despercebidos aos olhos dos investidores. Mas, no entanto, aparecem de forma clara quando vários balanços divulgados pela mesma empresa são comparados.
Como saber qual é o balanço mais confiável? ?As normas nacionais precisam de uma reformulação. As americanas caíram no ceticismo e o modelo europeu ainda é pouco utilizado. O jeito é confrontar os dados e buscar uma análise mais apurada dos fundamentos econômicos da empresa?, diz o advogado Fábio Guimarães Leite, do escritório Demarest&Almeida.
Em causa própria
Stock option vira arma de fraude de executivos
Bolsa de NY: executivos na berlinda depois de inflar ações em benefício próprio
Meses atrás, um consultor de empresas sueco conversava com um grupo de jornalistas brasileiros numa tarde fria e ensolarada no elegante café da NK, uma loja de departamento no centro de Estocolmo. Sem disfarçar a indignação, ele condenava uma notícia recentemente publicada nos jornais de todo o mundo: o superexecutivo Percy Barnevick, manda-chuva no grupo Investor, havia se aposentado e embolsado uma fortuna de milhões de dólares em função da venda das ações que possuía no conglomerado. ?É imoral?, bravejava o consultor. ?Na prática ele determina o próprio salário.? Seus interlocutores o ouviram sem convicção. A crítica tinha um tom moralista, algo anacrônico em tempos de globalização e meritocracia. Afinal, esse sistema de remuneração fora um dos motores na espetacular arrancada das empresas americanas ao longo da década de 90.
Nos últimos dias, as palavras iradas do consultor ganharam aura de profecia, incensada pela inédita onda de fraudes contábeis das corporações norte-americanas. De uma hora para outra, o stock option tornou-se um esquema suspeito, sujeito a manipulações até então insuspeitas. Seu funcionamento era simples: o executivo recebia uma certa quantidade de ações, mas só poderia vendê-las depois de um período pré-determinado. Nesse meio tempo, a empresa teria um desempenho positivo, os papéis se valorizariam e ele embolsaria um bom dinheiro. Enfim: ele só ganharia se a empresa ganhasse, num círculo virtuoso que criaria a vitamina com a qual o próprio sistema se alimentaria. Todos ganhavam aparentemente e, por conta disso, os controles correram soltos.
Colocar as fraudes apenas na conta do stock option é certamente ?leviano?, como diz Cláudio Costa, consultor sênior da Hay, consultoria em remuneração. Mas foi um fator importante.
CEOs e executivos graduados tinham poder de inflar receitas, alavancar resultados, transformar prejuízo em lucro e, dessa forma, engordar o valor das ações que se tornariam a fonte de suas fortunas pessoais. Nos Estados Unidos, o stock option se tornou uma febre corporativa. No país, os incentivos de longo prazo correspondiam a quase 70% da remuneração total de presidentes
e diretores, contra 47% de seus colegas britânicos, segundo a Hay. ?Na hora de fechar o balanço da empresa, o executivo sabia que os números determinariam o valor das ações e, por tabela, de seu salário?, diz um consultor. ?Será que isso nunca pesou no fechamento do balanço??
Os escândalos financeiros contribuirão para mudanças no stock option. O modelo europeu pode dar uma boa contribuição. Lá os critérios para a compensação não se limitam ao lucro, e envolvem indicadores, como produtividade e participação de mercado. Isso restringe os ganhos, mas garante uma remuneração baseada em situações mais consistentes. Isso certamente aplacará a ira do consultor sueco em suas conversas no café de Estocolmo ? e trará transparência à realidade das empresas.