05/10/2005 - 7:00

Bill Gates: Mudanças internas e apostas em novas áreas, como o Xbox
O aniversário de 30 anos da maior empresa do mundo de programas de computador, a Microsoft, só não passou em branco na sexta-feira, dia 23, porque o fantasma que há anos assombra Bill Gates, o fundador, está mais perto de se materializar. A cada dia aumentam as chances de surgir uma nova companhia tão forte e hegemônica quanto a criada por Gates e seu amigo de infância Paul Allen, em setembro de 1975. Em três décadas, a Microsoft saiu de um faturamento anual de US$ 16 mil para os atuais US$ 40 bilhões. Também foi uma das responsáveis por uma das maiores revoluções da indústria de tecnologia com a massificação de um software em centenas de milhões de computadores, o Windows. Esse passado é glorioso. O que preocupa agora é como resistir a uma era na qual a capacidade de inovação está fora dos portões da empresa e nas mãos dos concorrentes.
?Longevidade não significa nada no mundo da tecnologia?, costuma repetir Gates, mirando-se um pouco no exemplo da IBM, que nos anos 80 quase foi à lona por uma sucessão de erros estratégicos. Há quem compare a Microsoft de hoje com a IBM daquela época. Mas há diferenças. Do ponto de vista financeiro, a Microsoft tem fôlego de sobra. O seu valor de mercado está em US$ 277 bilhões, no caixa há
US$ 37 bilhões em dinheiro e a lucratividade permanece nos 30%. Só no ano passado, os acionistas receberam US$ 32 bilhões em dividendos. Gates tem 9,42% da companhia que lhe garante uma fortuna de US$ 51 bilhões e o posto de homem mais rico do planeta. A preocupação é com a sua capacidade de continuar gerando esses números nos próximos anos. Entre 2000 e 2005, as vendas da empresa cresceram 73% e os lucros somente 30%. Na área de novos investimentos, as perdas contabilizaram US$ 7 bilhões nos últimos cinco anos. Na maior aposta no mundo do entretenimento, o videogame Xbox, foram consumidos US$ 4 bilhões. ?Estamos em busca de novos caminhos?, afirma Gates. Ele e o presidente mundial, Steve Ballmer, que tem 3,7% da companhia e uma fortuna de US$ 11 bilhões, iniciaram um período de profunda reestruturação no negócio. Nas últimas semanas, a dupla anunciou uma série de medidas administrativas e acordos operacionais. As sete divisões de negócio que existiam na companhia foram reduzidas a três com um responsável por cada área. Uma dessas partes da empresa cuidará exclusivamente dos negócios relacionados ao Windows, a segunda se dedicará à administração dos programas da linha Office (Word e PowerPoint) e a terceira assumirá o comando das ações da unidade de entretenimento e dispositivos, como o videogame Xbox. Nesse último campo está uma das maiores apostas de Bill Gates. Ele acredita que seu videogame conseguirá superar em pouco tempo o concorrente PlayStation da japonesa Sony.

Antigo rivais: Gates (no centro) colocou de lado a histórica briga com a fabricante de computadores de mão Palm. Junto ao presidente da operadora Verizon Denny Strigl (à esq.) e do principal executivo da Palm, Ed Colligan, o presidente da Microsoft aprese
O sistema operacional Windows, programa que faz os computadores funcionarem, continua sendo a prioridade, mas há outras apostas. A Microsoft atua hoje no mercado de antívirus para PCs, buscas na internet, telefonia celular e pela rede, videogames, bancos de dados corporativos e em programas de gestão empresarial para pequenas e médias companhias. Até um acordo com a rival Palm, que faz softwares para computadores de mão, foi fechado na semana passada. Nesse negócio, Gates e os novos parceiros, entes eles os presidentes da operadora de telefonia Verizon, Denny Strigl, e da Palm, Ed Colligan, apresentaram um celular que usará como programa principal uma versão do Windows para este objetivo. O monopólio e o poderio da Microsoft está ameaçado. Em épocas passadas, os adversários eram comprados ou varridos para debaixo do tapete, como aconteceu com o navegador Netscape, que virou uma lembrança após entrar em choque com o Explorer da Microsoft, que ganhou uma nova versão na semana passada. Numa atitude histórica, a Microsoft apresentou seu navegador para a comunidade internacional de hackers, os piratas digitais, que antes eram inimigos viscerais da companhia. Os hackers estão sendo tratados pela Microsoft como integrantes da ?comunidade de pesquisa em segurança?. O inimigo do momento é uma empresa que nada cobra dos seus clientes e possui um modelo de negócio antagônico ao adotado por Gates. Seu nome: Google. Sua principal característica: inovação, agilidade a acesso livre a quaisquer informações catalogadas na busca pela rede e aos serviços prestados aos usuários de internet. ?A grande diferença dos dois modelos é bem clara?, afirma Marcus Regueira, diretor do banco de investimentos FIR Capital que vendeu, em julho, a empresa mineira Akwan para o Google. ?Quem paga a conta da Microsoft é o consumidor final. No caso do Google, as empresas bancam o custo de publicidade para acessar milhões de pessoas em todo o mundo.? Há quem aposte no Google como sendo a Microsoft do século 21 e acredite que ao entrar em áreas onde a empresa de Gates domina, como programas de comunicação instantânea, de email pela internet e até um futuro sistema operacional que funcionará pela rede, o Google estará na dianteira.
Esse não é o único problema da Microsoft. Há na pauta da companhia o futuro do Windows, que vai entrar na sua sexta versão desde o seu lançamento em 1990. O novo programa batizado de Windows Vista é o projeto de software mais complexo em andamento no planeta. Ele será uma espécie de faz tudo para os donos dos computadores. Colocará os PCs em funcionamento, permitirá buscas na internet, terá um antivírus próprio e outros recursos de entretenimento. Nada se parece com o primeiro sistema operacional criado na década de 80, o MS-DOS, que foi parar nos computadores que a IBM queria vender em massa. Esse programa transformou Gates e Allen em milionários. O Windows os alçou ao patamar de bilionários. O Windows Vista pode ser o início da reinvenção da Microsoft. A promessa é colocá-lo no mercado antes do final de 2006, mas houve atrasos na agenda. Em 2001, a Microsoft anunciou que o sucessor do Windows XP chegaria em 2003. Depois corrigiu para 2005 e agora fala no próximo ano. Os analistas acreditam que no melhor cenário o produto sairá dos laboratórios da companhia só no início de 2007. Há mais de 4 mil programadores trabalhando várias horas por dia para colocar o Vista de pé. Caso o programa fosse feito a partir do zero, o investimento necessário seria de cerca de US$ 40 bilhões. ?O desafio de fazer algo com essa magnitude não tem paralelo na história da indústria mundial de tecnologia?, diz o professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Pernambuco, Silvio Meira.

O general: Veterano na empresa, Steve Ballmer reduziu de sete para três o número de divisões de negócio da companhia, da qual tem 3,7% das ações
A Microsoft precisa de algo tão poderoso? Bill Gates acredita que sim porque esta seria a arma para enfrentar os inimigos e capaz de garantir a transição segura do atual modelo, no qual os usuários pagam para ter o Windows em seus PCs, para uma nova realidade onde tudo será feito pela internet. A tensão é tão grande que surgem a cada dia histórias sobre problemas na cúpula da companhia. Em julho de 2004, como relatou na semana passada o The Wall Street Journal, Jim Allchin, o homem responsável pelo Windows, entrou na sala de Bill Gates e disse que precisava mudar todo o projeto da nova versão porque o modelo que tinha utilizado para as cinco versões anteriores não se aplicava ao novo mundo. Depois de uma série de ajustes internos, o Windows Vista teve uma versão de testes lançada no início deste mês para 600 mil pessoas no mundo. A situação é mais complicada porque peças-chave da engrenagem da Microsoft, como engenheiros e gerentes de projetos, estão partindo. Ou para abrir negócios próprios, ou porque se cansaram do que consideram uma apatia da Microsoft ou estão conseguindo vagas na concorrência. Numa dessas migrações, o engenheiro Kai-Fu Lee foi parar no Google. A reação da Microsoft foi desmedida. Acusou o ex-empregado de levar consigo segredos para a concorência e só calou após uma decisão da Justiça dos EUA. No passado, trabalhar na Microsoft era símbolo de prestígio. Hoje, continua sendo uma empresa interessante, mas que não desperta mais o desejo dos pequenos gênios que saem das faculdades em todo o mundo. Há alguns motivos, mas o mais forte está relacionado com a política de distribuição de ações entre os funcionários, que durante anos criou pequenas fortunas internas. Esse programa foi suspenso em setembro de 2003.
Essa é a encruzilhada da Microsoft. O Windows está presente em 822 milhões de PCs no mundo e possui um legado de usuários com uma indústria que depende do software. ?É arriscado virar as costas para um passado dessa importância?, afirma Sergio Rodrigues, ex-presidente da Oracle no Brasil e atual da empresa indiana TCS. Rodrigues diz que há duas qualidades na Microsoft: o seu relacionamento com os distribuidores e a capacidade de treinar profissionais dentro do seu modelo de negócio. Países como o Brasil são fundamentais para a atual estratégia da Microsoft. Aqui ainda há uma demanda crescente por computadores. A base instalada é de 22 milhões de máquinas nos domicílios. No final do ano passado, a Microsoft fez um acordo com os fabricantes da Índia, Malásia, Indonésia e Brasil para comercializar uma versão mais barata e menos robusta do Windows. Batizada de Starter Edition, o programa vendeu até hoje 100 mil cópias e teve no Brasil o seu maior êxito. Sozinhas as empresas locais entregaram 80% desse volume para compradores que pagaram R$ 1.399 por esses computadores. ?Nunca vendi tantos PCs de uma única vez?, afirma Helio Rotenberg, diretor da Positivo Informática. A resposta que Gates busca é se o futuro da sua empresa continuará dentro dos PCs. ![]()
US$ 37 bilhões É quanto a Microsoft tem em seu caixa para investimentos |
As visões de Bill Gates
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