Com um aparato de quatro batedores em motos, oito carros, cinco furgões e quase 30 seguranças, o mais poderoso falcão do governo americano pousou em Brasília na tarde da terça-feira 22. Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa de um país que se considera em guerra e tem exércitos em ação nos quatro cantos do mundo, veio ao encontro do presidente Lula e do ministro José Alencar com dois recados bastante diretos de seu chefe George W. Bush. Primeiro: os Estados Unidos têm uma crescente preocupação com a influência da Venezuela do presidente Hugo Chavez na América do Sul, e esperam que o Brasil saiba exercer sua liderança regional para fazer frente a planos que eles classificam de expansionistas. ?É claro que estou preocupado?, afirmou Rumsfeld na manhã da quarta-feira 23, diante de uma pergunta sobre as sucessivas compras de armamentos pelo governo Chávez. ?A compra desses armamentos não entra na minha cabeça?. Do último pacote de aquisições bélicas da Venezuela, que incluiu 50 caças Sukói e 100 mil fuzis AK-47 de fabricação russa, também fizeram parte 24 aviões de treinamento militar Super Tucanos, da Embraer.

O segundo recado foi igualmente direto. Os Estados Unidos esperam que seus amigos brasileiros não criem problemas em organismos internacionais a cada vez que os americanos aprofundarem sua política de combate ao terrorismo pela via das armas. Rumsfeld veio pedir que o Brasil apoie a reivindicação americana de ter obter imunidade para seus militares frente a eventuais julgamentos no Tribunal Penal Internacional. Logo após uma audiência de 45 minutos com o vice-presidente e ministro da Defesa Alencar, Rumsfeld parecia otimista com as primeiras impressões de sua visita. ?O Brasil sabe fazer um bom mix de segurança e desenvolvimento econômico?, disse. Em seguida, foi ao Palácio do Planalto para ser recebido pelo presidente Lula. Na primeira escala de sua viagem à América do Sul, na Argentina, o secretário de Defesa não foi recebido na Casa Rosada pelo presidente Nestor Kirchner.

As preocupações americanas com Chávez também foram manifestadas ao presidente. ?Eles estão pressionando a Venezuela a partir do Brasil porque não gostam do Chávez e de sua relação com Cuba?, avalia o historiador Luiz Moniz Bandeira. ?Como não podem tentar outro golpe, querem cooptar o Brasil a assumir o papel de possível interventor?. O brasilianista Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins, esclarece: ?Rumsfeld quer que o Brasil pare de vender armas à Venezuela?.

Em seus encontros em Brasília, Rumsfeld também manifestou preocupação com a região da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Segundo os americanos, ali haveria um foco de confabulações terroristas. O secretário de Defesa cobrou do Brasil uma cooperação entre as Forças Armadas e a polícia para enfrentar problemas de segurança nas fronteiras. Esse pedido já havia sido feito sem sucesso durante a conferência de ministros da Defesa, realizada em Quito, no Equador, em novembro. Um diplomata do Itamaraty confirmou que, ao recolocar o assunto na pauta das conversas em Brasília, Rumsfeld sabia que receberia uma negativa brasileira. Na passagem pelo Brasil, Rumsfeld não poupou elogios à condução da missão de paz liderada pelo País no Haiti. Pediu a José Alencar que o País prorrogue a permanência no país ? a missão acaba em 1o de junho ? mas Alencar recusou. Disse que as tropas brasileiras só ficarão no Haiti se os Estados Unidos liberarem os US$ 2 bilhões prometidos ao governo haitiano para a estruturação do novo governo. O mesmo impasse se repetiu quando o assunto resvalou para a concessão de imunidade a oficiais americanos acusados de crimes de guerra. Os Estados Unidos não reconhecem a autoridade do Tribunal Penal Internacional e querem apoio de Brasil e Argentina. Não deu.

OS NÚMEROS NA MALA DE RUMSFELD
Secretário dos EUA pautou sua viagem com estatísticas

Venezuela
100 mil fuzis AK-47 e 50 caças Sukói foram comprados por Chávez

Haiti
US$ 2 bilhões é a promessa de ajuda dos EUA para reorganizar o país

Fronteiras
10 mil árabes vivem no entroncamento Brasil-Argentina-Paraguai

Comida
R$ 600 foi a conta do secretário em churrascaria de Brasília