Quando assumiu o microfone, na noite de segunda-feira 12, o empresário Carlos Alzugaray, diretor-executivo da Editora Três, estava um pouco ansioso, com alguma razão. Diante dele, havia uma platéia de mil pessoas, reunida para a entrega do prêmio anual aos brasileiros que mais se destacaram em suas áreas de atuação. Atrás dele, havia uma negociação de quatro anos, conduzida pessoalmente por ele, que, depois de muitas idas e vindas, havia finalmente sido concluída, e deveria ser tornada pública naquele instante. Era um grande momento para o jovem empresário de 36 anos: o final bem-sucedido de sua primeira grande negociação internacional. ?Gostaria de tomar emprestado o prestígio dos senhores para anunciar que a Editora Três acaba de concluir e assinar o maior e mais importante acordo de conteúdo já feito pela mídia impressa do Brasil?, disse ele. ?A partir de primeiro de janeiro de 2006, as três revistas semanais da Editora Três passarão a publicar com exclusividade o conteúdo da mais importante editora de revistas do planeta, a Time Inc.? Depois do ruído de espanto e das palmas que explodiram na audiência, Caco, como é conhecido o filho de Domingo Alzugaray, fundador da Editora Três, explicou que a revista IstoÉ vai publicar oito páginas por semana da revista Time, que DINHEIRO vai trazer a mesma quantidade de material da conceituada Fortune e, finalmente, que a semanal IstoÉ Gente terá à sua disposição o conteúdo de People, a mais conhecida revista de celebridades do planeta. ?Esse acordo envolve três das maiores revistas do mundo e três das principais revistas do Brasil?, diz Caco. ?Pela sua amplitude, ele é inédito no Brasil e constitui novidade mesmo para a Time Inc., que atua no mundo inteiro.?
A história desse acordo começa a ser contada em abril de 2001, na cidade de Buenos Aires, durante o Congresso Mundial da FIPP, a Federação Internacional dos Editores de Revistas. Caco Alzugaray estava lá como representante da Três e diretor da Aner, a Associação Nacional dos Editores de Revistas, e foi procurado por dois representantes da Time Inc.. Os executivos americanos estavam buscando parceiros na América Latina e identificaram nos donos da marca IstoÉ o perfil de uma empresa com quem gostariam de se associar. ?Foi uma conversa de meia hora, bem objetiva?, lembra Caco. O empresário brasileiro disse que havia grande sinergia entre alguns títulos da Time e os títulos semanais da Três. Já os americanos frisaram seu interesse em colocar um pé no mercado brasileiro. A conversa rendeu frutos imediatos. Nos meses seguintes, por telefone e por email, o jovem Alzugaray tratou os detalhes básicos do acordo. Um encontro em Nova York, sede da Time, e outro em São Paulo, sede da Três, pareciam ter selado a combinação. Então veio a calmaria. A megaestrutura da corporação americana, com seu metabolismo e ritmo próprios, passou um longo período digerindo os termos do acordo. Em 2003, quando a idéia parecia arquivada em Nova York, Caco voltou a encontrar os executivos da Time, desta vez em Paris, durante outro congresso da FIPP. O empresário brasileiro estava lá como presidente da Aner e os americanos, sob nova direção internacional, o procuraram e sublinharam novamente seu interesse na parceria com a Três. A máquina voltou a andar. Mas foi só no final de 2004, quando se aproximava um novo encontro da FIPP, desta vez em Nova York, que os americanos pediram uma reunião de alto escalão. Ela foi marcada para o hotel Waldorf Astoria, onde se realizaria o encontro internacional dos editores. A ela compareceram Caco Alzugaray e James Jacovides, vice-presidente da Time na área internacional. Os dois chegaram a um acordo básico ? e os advogados de lá e de cá passaram sete meses aparando as arestas. Por que a demora? ?Porque não é um acordo padrão?, explica Caco. ?É a primeira vez que a Time Inc. faz um negócio desse tipo na América Latina, envolvendo seus principais títulos.? Do outro lado o entusiasmo também é grande. ?Estamos muito felizes por essa parceria com a Editora Três?, afirma Jacovides. ?Esperamos expandir o relacionamento e alcançar ainda mais leitores em uma das economias mais importantes da América Latina?.
O objeto desse acordo são algumas das marcas de revistas mais importantes do planeta, senão as mais importantes. O adjetivo ?lendária? mal define a importância da revista Time para a história do jornalismo mundial. Criada em 1923 por Henry Luce e Briton Hadden, ela começou como um resumo das notícias semanais mas evoluiu rapidamente para tornar-se um paradigma de revista. Time inventou o estilo hoje universal que reúne reportagens em profundidade, texto impecável e opinião bem fundamentada. Na clássica moldura vermelha da capa de Time estiveram as histórias mais importantes do século 20 e as fisionomias que marcaram esses mais de 80 anos. O sucesso de Time levou ao lançamento em 1929 da revista Fortune, a bíblia do mundo dos negócios americano. Hoje, sob direção da executiva Ann Moore, a Time Inc. publica 154 revistas, que são lidas por 173 milhões de pessoas. E a própria Time Inc., embora gigantesca, não é mais do que um braço de uma corporação ainda maior, a Time-Warner, um polvo que reúne ícones do capitalismo global como HBO, America Online e Warner Bros. A esse conglomerado pertence também a marca People, a revista de maior sucesso da história, lida, segundo se estima, por metade da população americana. Criada em 1974, People é a revista mais lucrativa dos Estados Unidos. ?Essas são marcas de grande prestígio mundial, que agregam valor os nossos títulos?, diz Domingo Alzugaray, editor e diretor responsável da Três. Ele observa que esse acordo, importante em si mesmo, ganha mais relevo no atual momento do mercado editorial brasileiro, em que muito pouco tem acontecido. ?A Editora Três é um avião pronto para voar mais alto?, diz o fundador da empresa. ?Precisamos do combustível do crescimento.?
Criada em 1972, a Três é maior editora de semanais do Brasil. Marcadas pela independência e pela combatividade, suas revistas são também uma referência de qualidade no mercado editorial brasileiro. IstoÉ, criada em 1976, é uma das publicações mais premiadas do País. Tem uma tiragem de 450 mil exemplares por semana e repercute fundo na opinião pública e nos centros do poder. DINHEIRO, revista de negócios e de economia, foi lançada em 1997. Detém o recorde de publicação semanal que em menos tempo se pagou no mercado brasileiro. Foi um sucesso instantâneo, baseado na combinação inovadora de notícias quentes, paginação arrojada e histórias exclusivas. Com tiragem semanal de 120 mil exemplares, DINHEIRO é hoje a referência obrigatória dos homens de negócios do País. Ao receber o material da revista Fortune, DINHEIRO poderá oferecer aos seus leitores as melhores histórias de negócios publicadas nos Estados Unidos. Para a revista IstoÉ Gente, a caçula da Editora Três, caberá a reprodução das famosas reportagens da revista People. Depois de elevar o padrão de qualidade da imprensa de celebridades no Brasil, com reportagens incisivas e bem apuradas, Gente ganhará acesso aos textos mais bem informados e picantes da imprensa americana. ?Sem alterar um milímetro da nossa linha editorial, vamos dar aos leitores de nossas revistas o que há de melhor no jornalismo mundial?, diz Caco Alzugaray. Ganham os leitores, afinal. 
As companhias  |  | EDITORA TRÊS A empresa criada por Domingo Alzugaray em 1972 lançou alguns dos títulos mais influentes da imprensa brasileira. Suas três semanais disputam o topo do mercado editorial e são referência obrigatória em suas áreas de cobertura. ? com faturamento anual de R$ 250 milhões, a empresa é, nas palavras de seu fundador, ?um avião pronto para decolar?. Se a economia crescer, dobra de tamanho. ? Sua gráfica produz 40 milhões de exemplares por ano, mas tem capacidade para 100 milhões. A empresa tem 1300 funcionários. Time Inc. Aos 82 anos, a maior editora de revistas do mundo tem 154 títulos e recolhe quase 25% de toda a verba publicitária da mídia impressa americana. Marcas como Time, Fortune e People estão entre as mais valiosas do planeta. ? Este ano a empresa vai faturar cerca de US$ 6,5 bilhões, dos quais US$ 1,2 bilhão serão transformados em lucros. A meta é crescer pelo menos 10% ao ano. ? Em 2004 a empresa lançou 4 novos títulos. Este ano foram dois. A descoberta de novos nichos e novos leitores revitalizou a indústria editorial americana. |  |
|
 |
| |
Fome de crescer na Três  |  | Publicar 40 milhões de revistas por ano no Brasil não é pouco. Faturar R$ 250 milhões também não. Mesmo assim, o empresário Domingo Alzugaray está insatisfeito. Ele quer mais. Aos 73 anos, cheio de planos, o fundador da Editora Três se inquieta com o ritmo do mercado brasileiro. Gostaria de lançar novos títulos todo ano, como faz a Time Inc. Gostaria de ocupar a gráfica da empresa, que tem capacidade para rodar mais quatro revistas semanais. Gostaria, enfim, de crescer como se crescia na criação da empresa, em 1972. Naquele período de expansão da economia, um empresário necessitava de ousadia, bons projetos e o chamado capital inicial. O resto era trabalho. Hoje falta o essencial: crescimento econômico. É por isso, diz ele, que novos projetos, como essa inédita parceria de conteúdo entre a Time Inc. e a Editora Três, são importantes. Eles agitam o mercado, demonstram iniciativa, sugerem que os empreendedores brasileiros procuram caminhos. ?As empresas estrangeiras percebem claramente o potencial do mercado brasileiro?, diz Alzugaray. ?Nós brasileiros temos de perceber também.? O presidente da Três fala de cátedra. Ele chegou ao Brasil na década de 50, vindo da Argentina, para tocar um trabalho de seis meses. Apaixonou-se pelo país e nunca mais voltou. Trabalhou por 15 anos na Editora Abril, tornou-se diretor, largou o emprego e lançou-se à aventura de fazer sua empresa, com enorme sucesso. Agora quer continuar lançando revistas e crescendo ? exatamente como faz a presidente da Time Inc.. |  |
|
 |
| |
Avalanche de títulos na Time |  | Aos 55 anos, Ann Moore é uma das mulheres mais poderosas dos Estados Unidos. Preside a Time Inc. desde 2002. Na condição de presidente da maior editora de revistas do planeta, roça cotovelos com celebridades e poderosos do mundo todo. Mas na sua sala, no 34º andar do prédio Time-Life, no Rockfeller Center ? o mesmo onde trabalhava o fundador da empresa, Henry Luce ? a preocupação dessa especialista em finanças corporativas é uma só. Crescimento. ?Nosso principal objetivo é crescer?, diz ela. ?Vamos encorajar o lançamento de novas revistas e considerar a possibilidade de novas aquisições.? Em 2005 a Time Inc. fez várias aquisições importantes, entre elas a editora de revistas Expansión, do México. Mas o segredo do sucesso parece estar nos lançamentos. No ano passado a empresa colocou cinco novos títulos no mercado. Este ano foram dois. Nos 10 anos anteriores a 2004 a empresa havia lançado apenas seis revistas. Um dos motivos da febre de lançamentos foi a percepção de que 5 dos 10 títulos mais lucrativos da empresa foram lançamentos recentes. Isso significa que o mercado consumidor de revistas está mudando rapidamente e é preciso correr atrás das novas tendências. É isso que Anne Moore faz. Com seus 154 títulos, a gigante Time Inc. já produz lucro operacional de US$ 1 bilhão por ano, sobre um faturamento de US$ 6 bilhões. E sua presidente quer crescer 10% este ano. ?Dez anos atrás as pessoas achavam que a mídia impressa estava morta?, diz o analista Tom Wolzien. ?Mas a empresa descobriu nichos, lançou novas revistas. Isso é trabalho de Ann.? |  |
|
 |
| |
 |
 |
174 milhões de adultos ao redor do mundo lêem todos os meses as revistas publicadas pela Time Inc. 40 milhões é o número de exemplares de revistas semanais impressos por ano pela Editora Três |
 |