Tecnologia de ponta, terceirização, administração enxuta, lançamento de ações em Wall Street. Tal receituário, típico de uma moderna companhia, começa a virar moda no setor de saúde ? historicamente avesso às práticas do capitalismo moderno. Em Belo Horizonte, por exemplo, o Hospital Vera Cruz profissionalizou seu departamento administrativo e contratou até um executivo da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) para cuidar das finanças. O resultado foi uma redução significativa de custos e um crescimento de 12,5% no faturamento, que atingiu R$ 25 milhões em 2000. Na mesma linha, segue o São Luiz, de São Paulo. Tem negociado associações com grupos financeiros locais e empresas de administração do exterior. Até mesmo hospitais públicos enveredaram por novas técnicas de administração, como o Instituto do Coração (Incor). A corrida pela produtividade não é ao acaso. Estimativas apontam que o número de usuários de seguros e planos de saúde deverá dobrar em quatro anos, saltando de 40 milhões para 80 milhões de pessoas. A receita passará dos R$ 7 bilhões para R$ 9 bilhões, o que trará benefícios diretos ao setor hospitalar. Na média, 80% da receita dos hospitais vêm dos convênios médicos.

A norte-americana Quorum, dona de um faturamento de US$ 1,8 bilhão ao ano, desembarca por aqui de olho nesse filão. ?Vamos vender nosso conceito de administração terceirizada?, afirma George Pikielny, diretor-geral da empresa. O grupo acaba de firmar parceria com o Vera Cruz e pretende fechar contratos com 25 instituições brasileiras em cinco anos. Duas já estão no seu portfólio: o Boa Viagem Medial Center, de Recife, e Hospital da Bahia, de Salvador. A fórmula da terceirização é simples: uma equipe externa passa a gerir toda a área administrativa do hospital. Adota medidas como, por exemplo, a redução de gastos com remédios. Isto é possível porque os administradores prestam serviços para vários hospitais e, com isso, conseguem poder de barganha junto aos atacadistas e laboratórios. ?Além disso, melhorar o nível do gerenciamento também é fundamental?, ressalta Alexandre Fialho, presidente do Vera Cruz.

Mas a tarefa não é tão simples. Garantir lucros nunca foi a meta do Incor, em São Paulo. Para seus administradores, o maior complexo hospitalar da América Latina tem mesmo uma função social. Boa parte do orçamento de R$ 178 milhões vem dos cofres do Estado. Ainda assim, o Instituto partiu para novas técnicas administrativas, dignas dos maiores investidores de Wall Street. ?Fechamos um contrato com a empresa de tecnologia de ponta iCell, nos Estados Unidos, para ceder a patente da LDE, uma partícula artificial usada no combate ao câncer?, explica José Ramires, presidente do Conselho do Incor. A parceria deu direito a 40% das ações da iCell, que abrirá seu capital dentro de dois anos.

Até mesmo hospitais que servem de modelo para o setor não param de inovar. O Albert Einstein criou em 2000 o Centro de Gestão da Saúde. Nele, um grupo de 20 profissionais estuda formas de ?gerenciar? as doenças. Eles usam informações estatísticas de sintomas comuns de determinadas enfermidades para evitar gastos desnecessários com várias etapas do tratamento. ?É assim que vamos crescer?, explica José Henrique Germann Ferreira, superintendente da instituição. A modernização de gestão tem ajudado o Einstein a aumentar o faturamento em 10% ao ano. Em 2001, a receita deve atingir R$ 330 milhões. Tanto o Einstein como o São Luiz trabalham para a criação de filiais na capital paulista. ?Negociamos com fundos de pensão e investidores para obter a verba?, explica André Staffa, diretor financeiro do São Luiz. Há ainda quem lance mão de soluções inovadoras. O superintendente Edison Tayar, do Sírio Libanês, apostou no estreitamento da relação com médicos responsáveis pelo encaminhamento dos pacientes ao hospital. Ele oferece condições para que os profissionais não-contratados utilizem a infra-estrutura do Sírio. ?Com isso, o fluxo de clientes é garantido?.

No Laboratório Fleury, o maior da iniciativa privada do País, a arma para reduzir custos e gerar mais receita é a alta tecnologia. A empresa não poupou recursos para montar o seu novo centro de análises e administração em São Paulo. Cerca de US$ 65 milhões, boa parte proveniente do Banco Mundial, Deustche Bank e BNDES, foram gastos para a construção do complexo de 13 mil metros quadrados de área construída. O Fleury não hesitou em encomendar um robô do Japão, que carrega 500 ampolas pelos corredores do centro e até pede licença para pedestres desatentos. Para o superintendente do laboratório, Ewaldo Russo, a empreitada toda valeu a pena. ?Vamos reduzir nossos custos entre 5% e 10% neste ano e elevar a receita para R$ 215 milhões. Será um aumento de 13% sobre o ano passado.? Com toda essa mobilização na saúde, a expectativa agora é que ela resulte em qualidade e preço para o consumidor.