Qualquer análise que se faça sobre a economia brasileira terá que considerar um elemento novo, depois da última quarta-feira 22. O que se demonstrou é que o Banco Central, pilotado por Henrique Meirelles, é de fato independente na condução da política monetária. No primeiro encontro desde que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República, o Comitê de Política Monetária não titubeou em aumentar os juros básicos, por unanimidade. A taxa anual subiu de 25% para 25,5%, contrariando uma das principais bandeiras do PT, que, durante a campanha, pregava a ruptura em relação à política econômica da dupla Pedro Malan e Armínio Fraga. Uma boa fatia do partido reclamou, mas Lula carimbou a autonomia do presidente do BC, Henrique Meirelles. Manteve-se em respeitoso silêncio
quanto à iniciativa.

Embora independente, nada garante que a decisão do BC tenha sido a mais correta do ponto de vista técnico. Prova disso é a divergência de opiniões entre os agentes econômicos. No mundo financeiro, que usualmente lucra com juros maiores, Meirelles colheu aplausos. ?Na luta contra a inflação, era preciso marcar um gol logo nos primeiros minutos?, disse Paulo Leme, economista do Goldman Sachs. Mas a avaliação ficou longe de ser unânime. ?Foram infantis?, disse Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central. Na sua análise, o BC tentou ganhar credibilidade, mas uma alta de 0,5% não muda em nada as expectativas em relação à inflação. Além disso, o BC ficou preso à mesma lógica perversa de antes. Às vésperas das reuniões do Copom, o mercado puxa a cotação do dólar, alimenta pressões inflacionárias e leva o BC a reagir com mais aperto monetário.

No mundo empresarial, naturalmente, o sentimento foi de frustração. ?Teremos mais dificuldades na atividade produtiva?, disse o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto. ?Tomara que isso não vire rotina?, carimbou João Felício, presidente da Central Única dos Trabalhadores. O fato é que o aumento dos juros poderia ter sido ainda mais forte se, um dia antes, Meirelles não tivesse mudado as metas de inflação. O alvo do BC para 2003, antes fixado em 6,5%, pulou para 8,5%. Na verdade, ao buscar um número mais realista, Meirelles tentou afastar o fantasma de uma recessão. ?Se tentássemos convergir muito rápido a inflação existente com as metas anteriores, teríamos perda expressiva do Produto Interno Bruto?, observou. Com o novo número, ele e Palocci cravaram uma estimativa para o crescimento em 2003. Apostam em 2,8%. É um número que só será alcançado se, nas próximas reuniões do Copom, Meirelles estiver disposto a começar a podar as taxas de juros.