22/10/2008 - 8:00
A HISTÓRIA DEMONSTRA QUE GRANDES CRISES têm o poder de transformar a trajetória de líderes, para o bem ou para o mal. Alguns revelam-se despreparados para enfrentar a realidade, como o presidente americano George W. Bush diante dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Outros ficam mais fortes quando se defrontam com dificuldades. É o caso de Winston Churchill, primeiroministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial e principal articulador da vitória dos aliados contra os nazistas. A atual ruína da ordem financeira mundial parece ter encontrado seu salvador, alguém absolutamente inesperado: o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown. Há algumas semanas, Brown era considerado um cadáver político. Criticado por opositores e pelos próprios colegas do Partido Trabalhista, que ensaiavam uma rebelião para tirá-lo do poder, Brown era até então o premiê britânico com o índice de popularidade mais baixo em 50 anos. Hoje é visto como uma espécie de herói da resistência.
O que mudou? Ao contrário de seus pares europeus e do presidente Bush, Brown reagiu à crise com uma rapidez espantosa. Sua fórmula: utilizar fundos do Tesouro britânico para nacionalizar parcialmente instituições financeiras à beira da falência. Ele foi o primeiro a comprar diretamente participação nos bancos. Na semana passada, o governo anunciou que será acionista majoritário do Royal Bank of Scotland e que irá adquirir 40% do banco resultado da fusão entre o HBOS e o Lloyds TSB, num gasto total de 37 bilhões de libras. Isso sem contar outros 400 bilhões de libras liberadas há dez dias. Detalhe: o primeiro desembolso de seu governo aconteceu apenas cinco dias depois do anúncio do plano, agilidade que fez outros governantes parecerem mastodontes em estado de letargia. De imediato, a iniciativa acalmou os mercados (leia reportagem à pág. 34) e alçou Brown à condição de principal líder da atualidade.
Nos Estados Unidos, a reação foi muito diferente. O secretário do Tesouro, Henry Paulson, decidiu apenas comprar os títulos podres que estão nas carteiras das instituições, no polêmico plano de US$ 700 bilhões, algo muito diferente do investimento direto realizado por Brown. Num artigo publicado no jornal The New York Times, o Nobel de Economia Paul Krugman afirmou que a resposta inicial de Paulson foi distorcida pela ideologia. “Ele trabalha para uma administração cuja filosofia pode ser resumida como privado bom, público ruim”, escreveu Krugman. Isso explicaria a demora de Bush em perceber a necessidade de uma ação rápida e de evitar um plano que parecia uma estatização próxima dos ideais socialistas. Já o premiê britânico, na análise do ganhador do Nobel, “foi direto ao cerne do problema, numa combinação de clareza e de espírito de decisão que não foi acompanhada por nenhum outro governo ocidental”. Brown estava certo, reconheceram outros governantes. Depois dele, o próprio Paulson resolveu usar parte dos recursos de seu plano de US$ 700 bilhões para adquirir ações dos bancos em dificuldade. O pacote britânico acabou sendo o precursor de uma onda de resgates anunciados por outros países, como Alemanha, Espanha e França.
Brown nunca esteve tão radiante. Sujeito apagado, sem carisma e mergulhado num eterno estado de “torpor melancólico”, numa definição precisa do jornal Financial Times, nos últimos dias tem sido uma pessoa diferente. Sutilmente, teve a ousadia de se comparar a Churchill. “O mundo precisa da mesma coragem e visão que Churchill teve há 60 anos”, afirmou. Só faltou dizer que, na crise atual, essa coragem e visão partiram dele. A favor de Brown pesa o fato de conhecer profundamente o sistema financeiro. Como ministro das Finanças de Tony Blair, deixou um legado de prosperidade e estabilidade econômica. Agora Brown deseja nada menos do que mudar o mundo. Na quarta-feira 15, apresentou a líderes da União Européia um documento que propõe a criação de um novo Bretton Woods, acordo costurado em 1944 por 45 países que resultou no surgimento do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. “Talvez seja necessária uma nova forma de capitalismo”, disse o primeiro-ministro, que espera ser o herói dessa suposta transformação.