26/03/2010 - 6:00
Se Jeff Bezos, o fundador da Amazon, revolucionou a indústria editorial com a criação do Kindle, famoso leitor de livros digitais, um outro americano chamado Anthony E. Zuiker quer reinventá-la. ?O futuro dos negócios na área de entretenimento está na convergência de diferentes mídias?, afirmou Zuiker, em entrevista exclusiva à DINHEIRO, de seu escritório em Los Angeles, nos EUA.

Anthony Zuiker: “O futuro dos negócios na área de entretenimento está na convergência de diferentes mídias”
Não o conhece? Ele é o criador de CSI: Crime Scene Investigation, uma das mais bem-sucedidas séries de tevê de todos os tempos ? com uma receita estimada em mais de US$ 6 bilhões. Desde 2000, quando foi lançada, a série original CSI ? Las Vegas e seus dois filhotes, CSI ? Miami, de 2002, e CSI ? NY, de 2004, se tornaram sucesso de público, além de uma mina de ouro para a emissora de televisão CBS (leia quadro). E, depois de marcar seu nome na história da tevê mundial, ele quer repetir essa conquista no mundo dos livros.
A ferramenta que faltava para isso será lançada no próximo dia 4 de abril, quando cerca de 150 mil iPads, o tablet da Apple, chegarão ao mercado em uma febre que pode alcançar cinco milhões de unidades vendidas até 2010. ?Estamos preparando uma revolução no mercado editorial para a geração YouTube?, diz Zuiker. E essa revolução atende pelo nome Grau 26 ? A origem, um livro que mescla literatura, vídeos e rede social. ?Zuiker vai expandir o número de leitores de uma forma jamais vista antes?, afirmou Brian Tart, presidente da editora Dutton responsavel pela publicação do livro.
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Lançado, no fim de 2009, nos Estados Unidos e em outros países, o livro consumiu investimento relativamente baixo para a dimensão do projeto. Zuiker desembolsou US$ 2 milhões e, até agora, cerca de 200 mil exemplares foram vendidos, num faturamento estimado em US$ 4 milhões. É pouco diante de toda a equipe que trabalhou no projeto. Marc Ecko, o homem por trás da grife de moda jovem que leva seu nome, foi escolhido como diretor criativo.

200 mil exemplares do livro foram vendidos desde o lançamento no fim de 2009, em oito países, incluindo o Brasil
Já para fazer a rede social, ele chamou a Eqal., empresa especializada neste segmento que tem diversos casos de sucesso nesta área como a websérie Lonelygirl15, sobre uma adolescente solitária que teve mais de 150 milhões de visualizações no YouTube. Marc Andreessen, criador do Netscape, o primeiro navegador da internet, também contribuiu com o projeto como conselheiro de Zuiker, fornecendo dicas para a rede social, voltada não só para o público do livro, mas para fãs de suspense e terror em geral. Tudo isso para contar a história do serial killer mais perigoso que já existiu. Um assassino que não se encaixa em nenhum dos 25 graus de psicopatia estipulados pela polícia. Para ele, portanto, será necessário criar mais um grau: o 26.
Vendido no Brasil pela editora Record por R$ 39,90 cada livro, ele proporciona uma maior interação. A brincadeira funciona assim: a cada capítulo o leitor encontra, no pé da página, uma senha especial para assistir a um filme de três minutos ligado à história principal no site Grau26.com.br. Além disso, na rede social dentro do site, os leitores podem conversar com Zuiker e os demais envolvidos na produção da obra, bem como outros leitores e até contribuir para a trama dos próximos livros.
Grau 26 é a primeira parte de uma trilogia a ser completada com mais dois livros a serem lançados no final deste ano e em 2011, nos EUA. O presidente da editora Record, Sérgio Machado, aplaude a novidade: ?A iniciativa é muito interessante e só tem nomes de peso envolvidos na sua concepção, a começar pelo próprio Zuiker. Isso despertou o nosso interesse para participar?,afirmou Machado.
Para Zuiker, a era digital permite reinventar os livros, tornando-os verdadeiras plataformas multimídia. Não por acaso, ele defende que a melhor forma de ler Grau 26 é pelo aplicativo para iPhone e iPod touch (disponível apenas em inglês). Trata-se de um mercado com um enorme potencial. Afinal, hoje já existem 50 milhões de aparelhos vendidos em todo o mundo.

?E com eles você não precisa largar o livro e entrar na internet para ver os vídeos ou interagir na rede social. Basta um clique. Está tudo integrado e é assim que imagino deva ser um livro no futuro.? A tela pequena de 3,5 polegadas, entretanto, ainda não é a ideal. É aí que entram aparelhos como o novo iPad, também da Apple, e sua tela de 9,7 polegadas.
?O iPad é sem dúvida uma plataforma bastante sedutora para o que estamos propondo. Apesar de ser pouco mais que um iPod touch gigante, ele é um aparelho que permite a convergência de várias mídias, o que por si só já revela seu grande potencial e é bastante interessante?, ponderou Zuiker. Nada disso, no entanto, irá decretar, segundo ele, o fim dos livros tradicionais como os conhecemos.

Ao menos não no curto e médio prazo. Pode soar ambicioso, mas Zuiker parece o homem certo para uma empreitada dessa magnitude devido à sua biografia: de carregador de malas no hotel Mirage, em Las Vegas, a um dos produtores mais poderosos da televisão norte-americana. Sua história de ascensão pessoal, aliás, vai dar origem a um livro a ser lançado nos EUA até o final deste ano. O título: Sr. CSI.
De carregador de malas em Las Vegas, Zuiker se transformou em um dos homens mais poderosos da Tevê americana
Zuiker é um sujeito bonachão, simpático e dono de uma conversa agradável. É arriscado deduzir, portanto, que ele teve uma infância complicada. Uma criança que ficava a maior parte do tempo sozinha enquanto sua mãe, divorciada desde que ele tinha seis meses, trabalhava em negócios escusos, de acordo com o que ele conta hoje em dia. Com cerca de dois metros de altura e pesando quase 200 quilos, ele frequentemente ostenta um cavanhaque e cobre sua careca com uma boina ou um chapéu Panamá.
Durante a adolescência e na época da faculdade ganhava algum dinheiro escrevendo cartas e trabalhos universitários para outros alunos. Depois, ficou um tempo trabalhando em Las Vegas, inclusive como carregador de malas no hotel Mirage, em Las Vegas, até se mudar para Los Angeles. Lá, comprou alguns guias de roteiro e conseguiu um emprego como roteirista na Columbia Pictures até finalmente conhecer, em 1999, Jerry Bruckheimer, o homem que mudaria sua vida.
O produtor de Top gun, Tira da pesada, Armageddon e, mais recentemente, da série Piratas do Caribe, queria produzir um novo programa para a tevê. Da parceria entre os dois, nasceu a franquia CSI. A ideia de CSI, aliás, surgiu quando Zuiker assistia junto com sua mulher um programa no Discovery sobre um assassinato resolvido por especialistas forenses.
A série acompanha as aventuras de uma equipe de peritos para solucionar intrincados crimes. Nos primeiros cinco anos, CSI ? Las Vegas praticamente reinou na audiência e no final da sua quinta temporada bateu recordes em um episódio duplo dirigido por Quentin Tarantino, de Pulp fiction? e Bastardos inglórios. ?As pessoas que assistem CSI na internet, seja no Brasil ou em qualquer outro país, demonstram que as coisas mudaram e cabe a nós encontrar um modelo que sustente esse negócio nos próximos anos?, afirma.