A Vale do Rio Doce e as siderúrgicas brasileiras vivem em queda de braço permanente. Aquela é fornecedora destas. É coisa de gente grande. De um lado, a Vale, dona do monopólio na extração de minério de ferro no País. De outro, gigantes como Gerdau, Usiminas e CSN. Nos últimos tempos, porém, ?queda de braço? virou uma expressão amena diante da fúria estabelecida entre os dois lados. O que existe mesmo é uma guerra aberta, cuja principal batalha terá como palco o Cade. As siderúrgicas querem uma decisão do órgão anti-truste para dois assuntos: o monopólio da Vale na produção de ferro e sua hegemonia na ferrovia MRS, principal corredor de transporte do minério para as siderúrgicas. A Secretaria de Defesa Econômica já deu parecer favorável ao pessoal do aço. A briga é do setor inteiro, mas todos se referem a ela como a disputa entre Vale e Benjamin Steinbruch, controlador da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN. Steinbruch garante que não gosta desse papel. ?A polarização é coisa da Vale?, diz Steinbruch. ?Na verdade, é uma guerra dos pequenos contra o grande. É a reação de todo mundo que foi oprimido esse tempo todo. É a reação dos pequenos e médios mineradores de Minas Gerais que nunca tiveram chance de vender sua produção.?

Eis Benjamin Steinbruch em plena forma. A polarização, nesse caso, é inevitável. Há uma pesada herança no relacionamento entre ele e a Vale. Quando a companhia foi privatizada, Steinbruch liderou um consórcio considerado ?zebra? na licitação. Saiu vitorioso e ganhou a inimizade do favorito, Antônio Ermírio de Morais. Em 2000, após longo embate com os sócios (Bradespar e Previ), Steinbruch vendeu sua participação na mineradora. No acordo, está a gênese da atual disputa. A Vale ficou com o direito de preferência para a compra do excedente de produção da mina Casa de Pedra, pertencente à CSN. ?Com o acordo, a Vale sabe de todas as condições de venda do minério para outras siderúrgicas, uma informação estratégica?, diz Marcos Lutz, diretor da CSN.

Mas a CSN não assinou o acordo? ?Assinamos, mas a realidade de mercado era totalmente diferente?, argumenta ele. Diferente porque na ocasião havia cinco outras mineradoras no mercado, que, ao longo desse período, foram todas adquiridas pela Vale. Antes a Vale produzia 110 milhões de toneladas de minério, contra 70 milhões dos concorrentes. Hoje, todo esse volume sai das minas da companhia. ?A preferência de compra do excedente só reforça o monopólio.? Os advogados da Vale alegam que o Brasil precisa de uma empresa global num setor dominado por titãs, como as australianas Rio Tinto e BHP. Há um ingrediente mais incômodo, diz Lutz. Com a compra das concorrentes, a Vale também abocanhou quase 40% na MRS ? outro assunto à espera do julgamento do Cade. Disso depende um gigantesco projeto da CSN: a ampliação da produção de Casa de Pedra de 16 milhões de toneladas para 40 milhões de toneladas, um investimento de US$ 800 milhões. ?Com a atual posição acionária na MRS, a Vale não quer aprovar nada, só quer vetar?, diz Lutz. ?Ela não deveria ficar com mais de 20% do capital.?

Essa disputa, é claro, chegou à Esplanada dos Ministérios. A Vale tem o apoio de José Dirceu. Graças a ele o presidente da companhia Roger Agnelli teve encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A CSN, por sua vez, conta com a simpatia de Antônio Palocci. O conflito entre Steinbruch e a Vale já provocou prejuízos para a CSN. ?Em 2004, deixamos de produzir 150 mil toneladas de placas de aço porque a Vale não nos vendeu pelotas de ferro. ?Neste ano, foram 70 mil toneladas?, diz Steinbruch. ?Isso se chama monopólio.?

Em 2004 150 mil toneladas de placas de aço deixaram de ser produzidas pela CSN porque a Vale se negou a fornecer pelotas de ferro