18/05/2005 - 7:00
A Vale do Rio Doce e as siderúrgicas brasileiras vivem em queda de braço permanente. Aquela é fornecedora destas. É coisa de gente grande. De um lado, a Vale, dona do monopólio na extração de minério de ferro no País. De outro, gigantes como Gerdau, Usiminas e CSN. Nos últimos tempos, porém, ?queda de braço? virou uma expressão amena diante da fúria estabelecida entre os dois lados. O que existe mesmo é uma guerra aberta, cuja principal batalha terá como palco o Cade. As siderúrgicas querem uma decisão do órgão anti-truste para dois assuntos: o monopólio da Vale na produção de ferro e sua hegemonia na ferrovia MRS, principal corredor de transporte do minério para as siderúrgicas. A Secretaria de Defesa Econômica já deu parecer favorável ao pessoal do aço. A briga é do setor inteiro, mas todos se referem a ela como a disputa entre Vale e Benjamin Steinbruch, controlador da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN. Steinbruch garante que não gosta desse papel. ?A polarização é coisa da Vale?, diz Steinbruch. ?Na verdade, é uma guerra dos pequenos contra o grande. É a reação de todo mundo que foi oprimido esse tempo todo. É a reação dos pequenos e médios mineradores de Minas Gerais que nunca tiveram chance de vender sua produção.?
Eis Benjamin Steinbruch em plena forma. A polarização, nesse caso, é inevitável. Há uma pesada herança no relacionamento entre ele e a Vale. Quando a companhia foi privatizada, Steinbruch liderou um consórcio considerado ?zebra? na licitação. Saiu vitorioso e ganhou a inimizade do favorito, Antônio Ermírio de Morais. Em 2000, após longo embate com os sócios (Bradespar e Previ), Steinbruch vendeu sua participação na mineradora. No acordo, está a gênese da atual disputa. A Vale ficou com o direito de preferência para a compra do excedente de produção da mina Casa de Pedra, pertencente à CSN. ?Com o acordo, a Vale sabe de todas as condições de venda do minério para outras siderúrgicas, uma informação estratégica?, diz Marcos Lutz, diretor da CSN.
Mas a CSN não assinou o acordo? ?Assinamos, mas a realidade de mercado era totalmente diferente?, argumenta ele. Diferente porque na ocasião havia cinco outras mineradoras no mercado, que, ao longo desse período, foram todas adquiridas pela Vale. Antes a Vale produzia 110 milhões de toneladas de minério, contra 70 milhões dos concorrentes. Hoje, todo esse volume sai das minas da companhia. ?A preferência de compra do excedente só reforça o monopólio.? Os advogados da Vale alegam que o Brasil precisa de uma empresa global num setor dominado por titãs, como as australianas Rio Tinto e BHP. Há um ingrediente mais incômodo, diz Lutz. Com a compra das concorrentes, a Vale também abocanhou quase 40% na MRS ? outro assunto à espera do julgamento do Cade. Disso depende um gigantesco projeto da CSN: a ampliação da produção de Casa de Pedra de 16 milhões de toneladas para 40 milhões de toneladas, um investimento de US$ 800 milhões. ?Com a atual posição acionária na MRS, a Vale não quer aprovar nada, só quer vetar?, diz Lutz. ?Ela não deveria ficar com mais de 20% do capital.?
Essa disputa, é claro, chegou à Esplanada dos Ministérios. A Vale tem o apoio de José Dirceu. Graças a ele o presidente da companhia Roger Agnelli teve encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A CSN, por sua vez, conta com a simpatia de Antônio Palocci. O conflito entre Steinbruch e a Vale já provocou prejuízos para a CSN. ?Em 2004, deixamos de produzir 150 mil toneladas de placas de aço porque a Vale não nos vendeu pelotas de ferro. ?Neste ano, foram 70 mil toneladas?, diz Steinbruch. ?Isso se chama monopólio.? ![]()
Em 2004 150 mil toneladas de placas de aço deixaram de ser produzidas pela CSN porque a Vale se negou a fornecer pelotas de ferro