Um dos maiores negócios do Brasil está prestes a zarpar. Na primeira semana de 2006, Sérgio Machado, presidente da Transpetro, uma subsidiária da Petrobras, irá abrir os envelopes dos oito consórcios empresariais que concorrem a um prêmio bilionário. Neles, estão as propostas financeiras de uma licitação para compra de 26 grandes navios, que custarão pelo menos US$ 1,2 bilhão. É o passo final de um processo que irá ressuscitar a indústria naval no Brasil, um setor que, nos últimos anos, agonizava. Estava perto da morte. Basta dizer que o último grande navio produzido no Brasil, o Livramento, foi entregue em 1996, quase dez anos atrás. Agora, 26 grandes embarcações serão construídas de uma só vez e outros 16 petroleiros virão numa segunda etapa. A pergunta básica: como fazer com que um setor tão defasado tecnologicamente, o dos estaleiros nacionais, produza navios de modo competitivo? Sérgio Machado, que é também senador (PMDB-CE), parece ter encontrado a resposta. ?A palavra chave do contrato é produtividade?, diz Machado. ?Para reativar a indústria naval brasileira de forma eficiente, era preciso criar escala de produção?.

Machado tem uma pilha de números para justificar uma encomenda tão pesada. O primeiro diz respeito ao tamanho do mercado global. No mundo, a indústria naval movimenta US$ 78 bilhões por ano e o Brasil, que nos anos 70 já foi o segundo maior produtor mundial de embarcações, está praticamente fora do jogo. Os grandes estaleiros mundiais, como os coreanos Hyundai, Samsung e Daewoo, têm encomendas para os próximos quatro anos. E um detalhe: na década de 70, os coreanos sequer participavam desse mercado. Há ainda um outro fator relacionado ao balanço de pagamentos. Em 2005, o Brasil fechará suas contas com um rombo de US$ 10 bilhões na conta dos fretes internacionais ? hoje, só 3% do transporte das mercadorias importadas e exportadas é feito com navios de bandeira nacional. A própria Transpetro gasta US$ 1,2 bilhão com o transporte do petróleo ? dos 120 petroleiros usados atualmente, apenas 47 são nacionais. Se tudo isso não bastasse, os exportadores e importadores brasileiros pagam uma taxa que, todos os anos, acumula cerca de R$ 1 bilhão no chamado Fundo da Marinha Mercante. Esse dinheiro, que deveria ser usado na construção de navios, vem sendo represado há vários anos. ?Essa é a situação dos sonhos de qualquer empresário, pois existe mercado e existe dinheiro?, diz Machado.

Se é assim, por que há tantos anos a indústria naval ficou parada no Brasil? Havia um círculo vicioso. De um lado, o governo não contratava. De outro, os empresários não investiam e vários estaleiros tradicionais, como Mauá e Caneca, entraram em crise. Enquanto os navios produzidos mundo afora já estão na quinta geração tecnológica, sendo todos com casco duplo, o Brasil não passou da segunda geração. Por isso, a solução encontrada pela Transpetro para garantir uma encomenda dentro dos padrões mundiais de qualidade foi praticamente recriar a indústria. Em vez dos velhos estaleiros cariocas, novos grupos se formaram. Num dos consórcios, as construtoras Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez uniram-se à japonesa Mitsui. A Queiroz Galvão se juntou à Samsung. E outros grupos nacionais entraram na licitação associados a empresas como as coreanas Daewoo e Hyundai, bem como com a chinesa Maric. Segundo as regras do edital, haverá, no mínimo, três vencedores e todos terão um lote razoável de navios para construir, o que visa a garantir a produtividade e uma venda de acordo com preços internacionais.

Há ainda outro detalhe positivo nessa história. Por ano, os estaleiros globais produzem cerca de 1,1 mil navios. Essas empresas, porém, estão abarrotadas de encomendas ? são mais de 4 mil. Por isso, é bem provável que a indústria nacional que está sendo ressuscitada por Sérgio Machado logo comece a exportar. A Venezuela, por exemplo, já anunciou que pretende comprar outros 42 petroleiros fabricados no País. ?A encomenda da Transpetro é louvável não só para fechar o ralo dos fretes, mas também em função do impacto tecnológico?, diz o economista Antônio Corrêa de Lacerda, especialista em temas internacionais. ?Custa a acreditar que demorou tanto para acontecer?. Cada navio inclui nada menos que duas mil peças. E, de acordo com o edital, 65% delas terão de ser fabricadas no Brasil.