A maior tragédia da história americana instalou George W. Bush no centro da mais desafiante encruzilhada já enfrentada pela presidência dos Estados Unidos. Toda vez que a instituição foi testada, os resultados foram eloqüentes. Com Pearl Harbor em chamas em dezembro de 1941, Franklin Roosevelt conduziu o país à Segunda Guerra Mundial, revidou a ousadia japonesa 45 meses depois com as bombas que estraçalharam Hiroxima e Nagasaqui e emergiu como líder da nova ordem mundial. Acossado por mísseis russos plantados em Cuba, John Kennedy mostrou suas armas na crise política mais tensa dos anos 60, fez o inimigo recuar e marcou sua biografia como campeão do mundo livre. Em 1979, provocado pelo seqüestro de funcionários da embaixada americana em Teerã, que iria durar 444 dias, Jimmy Carter sucumbiu aos ardis dos adversários e hoje é lembrado como um homem que fracassou. Em qual companhia Bush será visto à luz da história?

Os americanos estão divididos sobre a resposta certa. ?O presidente tem uma grande oportunidade política?, reconheceu à DINHEIRO o ex-chefe do Conselho de Segurança dos EUA, William Perry. ?O país reagiu com calma, está unido em torno dele e à espera de uma reação efetiva. Bush será capaz de atender esse desejo.? A mesma certeza não é compartilhada pelo pesquisador americano Thomas Skidmore. ?Não é todo dia que temos um Roosevelt na presidência?, diz ele. ?Bush não tem instinto para comandar o povo e nem mesmo desperta confiança. Todos sabíamos que ele não tem experiência em política externa.? Em Washington, entre os dois extremos, o diretor do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, Miguel Diaz, acredita que o presidente está fazendo a coisa certa. ?Ele está estudando as possibilidades e averiguando informações. É o que pode ser feito neste primeiro momento.?

Bush certamente não tem a melhor história pessoal para enfrentar o momento. Mimado pela família, foi ajudado a fazer fortuna por meio da compra e venda de um time de beisebol e, também, a largar o vício do alcoolismo. Não é famoso pela coragem. Entre ir ao Vietnã e servir na Força Aérea do Texas, optou pela segunda alternativa. Seus primeiros nove meses no cargo marcaram uma escalada de conflitos com a comunidade internacional. Com Bush, os EUA rasgaram o protocolo de Kyoto para limitação de poluição ambiental, foram excluídos da comissão de direitos humanos da ONU e abandonaram a conferência contra o racismo em Durban, na África do Sul. Sem motivo claro, ele ordenou em suas primeiras semanas no cargo um ataque ao Iraque e, mais tarde, envolveu o país numa crise com a China, resolvida com um pedido de desculpas dos americanos por invasão do espaço aéreo da potência comunista. Mesmo sem ter completado um ano na Casa Branca, o presidente já se concedeu o direito de gozar férias em seu rancho texano, onde se sente confortável metido em botas de caubói.

Bush, até aqui, tem controlado a raiva que sente por dentro. Na quinta-feira, 13, diante de jornalistas na Casa Branca, lágrimas foram vistas em sua face. Em lugar de açodamento, sentimento. Enquanto a máquina militar americana vai sendo colocada em movimento, ele se mostrou solidário às vítimas e preocupado com a reação econômica do país.

Que ninguém se engane. É este homem com suas contradições o presidente dos EUA, cargo que dá a ele a prerrogativa de apertar o botão do caos nuclear. Para tanto, não precisa ouvir conselhos ou pedir licença a ninguém. Simplesmente pode chamar o ajudante de ordens que carrega a maleta com os códigos que liberam os milhares de mísseis e suas ogivas nucleares e usar o indicador. ?Eu tenho um trabalho a fazer e vou fazê-lo?, disse Bush na entrevista em que chegou a chorar. ?Houve uma ameaça ao nosso modo de vida e à nossa própria existência como sociedade livre?, definiu o ex-chanceler Henry Kissinger sobre a gravidade do momento. Está na mente de Bush discernir como acabar com o pesadelo americano.