11/04/2001 - 7:00
Na ponta do lápis, entrar para a Alca não é um bom negócio para o Brasil. Estudo encomendado pelo Ministério do Desenvolvimento coloca no papel o impacto da criação da Área de Livre Comércio das Américas na economia brasileira, e a principal conclusão é a de que, diante de uma alternativa de acordo bilateral com a União Européia, essa pode ser a melhor alternativa. O relatório obtido por DINHEIRO foi elaborado a partir de simulações feitas por um modelo conhecido como GTAP (Global Trade Analysis Project), pela Fundação Getúlio Vargas. Trata-se de um conjunto sofisticadíssimo de fórmulas econômicas e estatísticas que simula os impactos na economia das liberações tarifárias. Os quatro volumes do estudo estão entre os documentos que servirão de base para o governo no encontro da Cúpula das Américas, dias 21 e 22 em Quebec, no Canadá.
O estudo, coordenado pela professora da FGV Lia Valls, descreve as conseqüências da liberalização da tarifas nos PIBs (Produto Interno Bruto) setoriais, exportações, importações e emprego em 30 segmentos econômicos no Brasil, Argentina, Uruguai, União Européia e América do Norte. São simulações que apontam cenários virtuais feitas a partir de informações reais. É possível, no entanto, ter uma boa idéia do que seria o futuro do Brasil com a Alca.
Segundo o relatório, a liberalização com a Alca é menos vantajosa para o Brasil em relação a um acordo semelhante com a União Européia. Se a Alca fosse implantada, haveria um crescimento do PIB de apenas 0,3% e uma queda de 0,16% nos termos de troca do Brasil com os países envolvidos no acordo. No caso da União Européia, a variação do PIB seria de 1,06% e os termos de troca da economia brasileira com os europeus seria de 0,24%. ?Haveria uma maior ganho de renda na hipótese do acordo com a União Européia?, diz o estudo.
As análises sobre a Alca mostram que o Brasil é o maior perdedor entre os países estudados quando são analisados os PIBs setoriais, os chamados produtos domésticos. Para se ter uma idéia, dos 30 segmentos econômicos estudados, 17 apresentariam queda do produto doméstico no caso brasileiro. Na Argentina e no Uruguai, 15 segmentos apresentariam retração, na União Européia seriam 16 e na América do Norte, 13. Aqui, a maior queda, de 3,89%, seria do segmento de equipamentos eletrônicos, seguido das máquinas e equipamentos (3,2%), equipamentos de transporte (1,98%), trigo (1,97%) e plantas de fibra (1,94%). Em contrapartida, os segmentos que mais ganhariam com a implantação da Alca no Brasil seriam os produtos de couro, com crescimento do PIB setorial de 10,8%, cana-de-açúcar e beterraba (3%), açúcar (1,46%) e vestuário (0,68%). Os produtos com maior nível tecnológico teriam mais problemas com o acordo, segundo o estudo. Por essa razão, o relatório sugere uma redução tarifária mais lenta: ?Seria no conjunto destas indústrias que propostas de desagravo tarifário mais lentos deveriam ser analisadas.?
No caso das exportações, os maiores ganhadores seriam os produtos de couro, com crescimento de 50,6% do volume de vendas para o exterior. Em seguida, viriam vestuário (50%), bebidas e tabaco (25,2%), cana-de-açúcar (14%) e veículos a motor (13,1%). Quem perderia com Alca seriam as empresas que comercializam arroz processado (1,32%), produtos alimentícios (1,53%) e produtos de carne (excetuando a carne bovina e de cabra), com queda de 1,1%.
Também há perdedores e ganhadores no mercado de trabalho com a criação da Alca. As simulações a partir de indicadores de emprego mostram que a área agrícola teria um aumento na quantidade de mão-de-obra de 0,14% e uma queda de 0,9% no setor industrial. O crescimento da oferta de empregos para trabalhadores qualificados deverá ser feito pelos segmentos de couro, com aumento 10,7% das vagas, açúcar de beterraba (3,1%) e cana-de-açúcar (1,3%). Quem deverá fechar postos são os setores de equipamentos eletrônicos (4,07%), equipamentos de transportes (2,2%) e veículos a motor (1,2%).
Os dados da FGV complementam outro estudo, também encomendado pelo Ministério do Desenvolvimento, coordenado pela Confederação Nacional da Indústria. Segundo o relatório, o setor químico, por exemplo, não teria condições de competir em um mercado livre com países como os Estados Unidos. ?A análise do setor químico brasileiro nas últimas duas décadas parece demonstrar que os investimentos no setor foram inadequados?, diz o relatório. Se depender desses estudos, o governo terá muito o que pensar antes de sentar à mesa em Quebec.