Ele, definitivamente, não se parece em nada com o presidente de uma grande multinacional, com mais de 20 mil empregados e um faturamento anual de R$ 4,3 bilhões. Em primeiro lugar, pela idade. Afinal, são apenas 34 anos, com jeitão de 33. Em segundo, pelo estilo despojado. Ternos, só mesmo em casamentos. E, finalmente, pela renúncia quase absoluta ao poder. O personagem em questão é o engenheiro Marcelo Bahia Odebrecht, que desde janeiro do ano passado preside a construtora que leva o nome do seu avô. Na sua bem-humorada definição, o presidente da Construtora Norberto Odebrecht manda tanto quanto a rainha da Inglaterra. Na empreiteira, o chefe não acompanha detalhes do dia-a-dia, não se envolve com fornecedores, nem perde tempo discutindo licitações e valores das obras. Faz o quê, então? ?Nossa capacidade de crescer é proporcional ao nosso talento em formar empresários?, disse Marcelo à DINHEIRO. A receita é baseada numa fórmula que parece simples. Trata-se de identificar e motivar os empreendedores que irão trabalhar pelo conjunto da organização. Hoje, há mais de 100 ?empresários-parceiros Odebrecht? espalhados pelo mundo. São executivos que administram seus projetos como se tocassem uma empresa independente. Eles têm autonomia para decidir e, na maioria das vezes, sequer consultam Marcelo sobre o que devem ou não fazer. Foi assim, delegando poderes, que a construtora alcançou um feito inédito. No ano passado, faturou
US$ 1 bilhão no exterior e firmou-se como a principal multinacional brasileira no ramo de exportação de serviços. Neste ano, além de consolidar a marca bilionária, já tem em carteira contratos de
US$ 2,5 bilhões. São tantos projetos internacionais, que as receitas fora do País representam 71% do total.

O sucesso global da construtora, que nasceu há 59 anos em Salvador, na Bahia, é singular porque a Odebrecht vem conseguindo manter-se como a única empreiteira brasileira com uma presença de peso ? e constante ? no exterior. Um estudo da consultoria LCA, do economista Luciano Coutinho, aponta que o mercado de obras de engenharia contratadas internacionalmente soma US$ 106 bilhões, dos quais 10% na América Latina. Ainda assim, a Odebrecht foi apontada pela Engineering News Record como a primeira do mundo em hidrelétricas e a segunda em projetos de saneamento. A empreiteira é, de longe, a maior entre as latino-americanas. Além disso, avançou em mercados tão díspares quanto Angola, Portugal, Peru e Estados Unidos. Na África, enfrentou uma guerra civil, mas já exportou mais de US$ 2 bilhões. No mercado norte-americano, acumula vendas de US$ 1,2 bilhão em 12 anos. Em Miami, pode-se notar a presença Odebrecht já no aeroporto, no metrô central de superfície, na arena do time de basquete do Miami Heat e, muito em breve, na nova Opera House da cidade.

Hoje, uma das principais apostas da Odebrecht é a Venezuela. A empresa venceu licitações das principais obras do país, como a nova ponte sobre o rio Orinoco e o metrô de Caracas. Ao todo, os projetos têm valores próximos a US$ 1 bilhão. ?Há uma aproximação geopolítica entre Brasil e Venezuela e isso abre grandes oportunidades?, revela o diretor internacional André Amaro da Silveira. Nem mesmo o turbilhão político da Venezuela, com seus golpes e contragolpes, assusta a construtora. Isso porque os contratos têm recursos assegurados, seja por parte da Corporación Andina de Fomento, instituição multilateral dos países andinos, seja por parte do BNDES ? fato que gera uma certa polêmica no Brasil. O senador Tasso Jereissati (PSDB/CE) já avisou que pretende convocar o
presidente do banco, Carlos Lessa, para que ele explique no Congresso como funcionam os empréstimos. O senador Jefferson Péres (PDT/AM) também prepara um projeto de lei limitando os financiamentos externos
de modo a que os recursos sejam usados em obras no Brasil.

Abre-alas. Para a Odebrecht, trata-se de um falso dilema. ?As operações do BNDES financiam muito mais a economia interna do que a construtora em si?, diz Paulo Lacerda de Melo, vice-presidente da empreiteira. Um exemplo: mais de 1,6 mil empresas já exportaram produtos ou serviços na esteira dos contratos internacionais da companhia. ?A Odebrecht alavanca a economia como um todo?, garante José Augusto Marques, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Base. ?Quando constrói uma hidrelétrica, leva pelo menos outras 60 empresas.? Uma delas é a filial brasileira da Voith Siemens, que produz equipamentos pesados, como turbinas e geradores. ?A Odebrecht é uma espécie de abre-alas do País nos mercados internacionais e nós estamos juntos na Venezuela?, diz Sérgio Parada, vice-presidente da Voith. ?Atuar com eles reduz os nossos riscos.?

Em mais de 90% dos casos, quem pega carona nos contratos internacionais são pequenas e médias empresas que, sem a Odebrecht, teriam acesso muito mais tortuoso ao mercado externo. A empresa de consultoria Figueiredo Ferraz, por exemplo, trabalha há 11 anos com a construtora e já exportou mais de US$ 15 milhões. Projetou os metrôs de Lisboa e Caracas. ?Com eles, conseguimos vencer disputas pesadas com empreiteiras italianas e francesas?, diz João del Nero, presidente da empresa. Recentemente, Marcelo Odebrecht descobriu até um fato prosaico. Foi informado de que a empreiteira é responsável pela maior parte da exportação brasileira de botas. São exportações que só acontecem porque elas são usadas por operários nas obras.

Na visão do presidente Marcelo, a internacionalização da Odebrecht só vem prosperando porque a construtora confia nos ?empreendedores? que tem em cada país ? e que estão próximos dos clientes. Essa filosofia de gestão, internamente chamada de ?delegação planejada?, é uma herança deixada pelo avô. O modelo nasceu em 1944 quando, vítima de paratifo, Norberto ficou quase 40 dias de cama. Percebeu, ali, que a empresa dependia quase que exclusivamente das suas decisões. A doença lhe deu então o estalo necessário para compartilhar o poder, com uma única ressalva. Cabia, e ainda cabe ao presidente, nomear e demitir, de acordo com os resultados apresentados por cada um dos executivos. É assim que se exerce o poder no clã Odebrecht, desde a era Norberto, passando pelo filho Emílio até chegar ao neto Marcelo, que entrou na construtora no início dos anos 90. O atual presidente fez estágios no Peru, trabalhou nos Estados Unidos e passou pela Inglaterra ao longo de sua trajetória na construtora. Antes de chegar ao topo, ajudou a estruturar a Braskem, o braço petroquímico da Odebrecht. ?Os laços de sangue não contam tanto?, diz Marcelo. ?O que importa é que, aqui dentro, nós conseguimos forjar uma cultura e criar uma família odebrechtiana?. O próximo alvo de sua conquista global é o Iraque. A Odebrecht, que já realizou obras até para o exército dos Estados Unidos, aposta que poderá ser uma ponte entre iraquianos e americanos. ?Inspiramos confiança?, diz Marcelo.

Ao longo dos 25 anos em que esteve no exterior, a construtora sofreu poucos reveses. Perdeu dinheiro na Alemanha e na Inglaterra. O problema central foi a dificuldade de transportar a cultura da empresa àqueles países, onde havia grande reserva de mercado. Hoje, dos 7,5 mil funcionários no exterior, quase todos são locais, mas estão acostumados ao jeito de atuar da construtora baiana. ?Temos equatorianos que levam nossa cultura ao México, angolanos que a ensinam no Peru e assim por diante?, diz o diretor de recursos humanos Carlos Hupsel de Azevedo. No ano passado, o lucro da construtora chegou a R$ 518 milhões. Os bons resultados indicam que o poder da dinastia ainda irá se perpetuar por muitos anos. Até porque a tradição vem desde 1549. Marcelo Bahia Odebrecht é descendente direto de Francisco Pereira Coutinho, o primeiro donatário da capitania hereditária baiana. Coutinho, naquele tempo, era chamado de Visconde da Bahia. Com o passar dos anos, o que era para ser título de nobreza acabou virando sobrenome.