O primeiro orçamento dos Jogos Pan-Americanos do Rio foi estimado em R$ 388 milhões. Oficializada a candidatura, essa quantia subiu para R$ 562 milhões, e logo depois saltou para R$ 776 milhões. A dança dos números não parou por aí. Em janeiro passado, o comitê organizador (CO-Rio) corrigiu os valores para R$ 942 milhões. E em fevereiro, numa nova reviravolta, anunciou-se que o custo final do evento será de R$ 3,58 bilhões, podendo alcançar R$ 4 bilhões. Portanto, antes mesmo do início da competição no dia 13 de julho, o Brasil bateu um recorde mundial: em menos de três anos, conseguiu multiplicar por dez os custos de um evento poliesportivo internacional. Mais impressionante do que a vertigem das cifras é a tranqüilidade com que os responsáveis pelo Pan justificam o aumento dos gastos. Embora reconheça que a sangria orçamentária provoca desgaste junto à opinião pública, o ministro dos Esportes, Orlando Silva, explica que vários itens de custo ? o principal deles, a segurança ? foram ?subestimados? e atribui o fato à ?inconsistência do planejamento inicial?. No mesmo tom, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, sustenta que ?no momento da execução surgiram vários imprevistos que implicaram aumento dos recursos?. A versão oficial é endossada pelo Tribunal de Contas da União. Em seu relatório de acompanhamento trimestral das obras do Pan, o ministro Marcos Vilaça afirma que ?a evolução dos gastos revela, principalmente, a incapacidade dos agentes envolvidos de prever, antecipadamente e de forma realista, os dispêndios necessários à realização de empreendimento desta envergadura?. Vilaça, porém, mostra-se impiedoso com os organizadores: ?Infelizmente, a falta de planejamento parece ser a grande constante em todas as ações relativas aos Jogos Pan-Americanos.?

Até o momento, o TCU não chegou a detectar irregularidades de maior gravidade e muito menos indícios de má-fé. Mas, com o objetivo de evitar novas surpresas, o ministro Marcos Vilaça passou a exigir, a partir de março, relatórios quinzenais sobre o andamento e o custo das obras. E advertiu que, desde outubro de 2005, havia alertado para a necessidade de adoção urgente de medidas corretivas. ?O cenário que se delineia (de atraso nas obras e explosão dos gastos) faz-me pensar se não estivemos pregando no deserto?, ironizou Vilaça, com a verve de quem também é presidente da Academia Brasileira de Letras. A corrida de última hora, acusa ele, fez surgir ?uma babel de convênios, licitações e contratações?. Orlando Silva e Nuzman acataram o puxão de orelha e já deram explicações ao ministro do TCU. Em relação à preocupação de Vilaça com o ritmo das obras, o ministro do Esporte mantém absoluta confiança no cumprimento do cronograma e Nuzman aposta igualmente que tudo estará pronto no devido tempo. Quanto ao estouro do orçamento, Orlando Silva e o presidente do COB também estão bastante afinados. Argumentam que, ao contrário do que fez Santo Domingo em 2003, o Rio de Janeiro não está se preparando apenas para o Pan, mas, sim, para se candidatar aos Jogos Olímpicos de 2016. ?O Brasil não é Santo Domingo, temos o sonho de sediar uma Olimpíada?, compara Silva. ?A tecnologia do Pan é uma antecipação do que será apresentado nas Olimpíadas de Pequim no ano que vem, e é superior à utilizada em Atenas em 2004?, garante Nuzman.

A associação do Pan com uma candidatura do Brasil aos Jogos Olímpicos não é arriscada? O País não corre o perigo de jogar dinheiro fora? O ministro dos Esportes confia que não. Para ele, ao investir numa estrutura esportiva sofisticada, o Brasil se qualifica para sediar eventos internacionais de primeiro nível. ?Não podemos passar de novo a vergonha de ver chuva na quadra como aconteceu durante o Campeonato Mundial de Basquete, no Ibirapuera?, diz Silva. Ele também destaca o legado permanente para a cidade do Rio de Janeiro, não só em relação à infra-estrutura esportiva, mas principalmente em termos de segurança pública. ?A idéia inicial era de utilizar o aparato existente e investir apenas R$ 12 milhões. Agora, serão investidos R$ 385 milhões, com modernização das forças de segurança, em termos de armas, transportes e sistemas de radiocomunicação?, informa o ministro. ?O Rio sai ganhando com o Pan e o Brasil como um todo se beneficia com a promoção de sua imagem?, completa. Com base nesse argumento, o governo espera que os contribuintes tenham boa vontade com o elástico orçamento do Pan.

R$ 388 milhões foi valor do primeiro orçamento para a realização dos jogos no Rio de Janeiro

 

R$ 3,58 bilhões é o custo do evento, segundo estimativa de fevereiro. No total, a cifra pode ir a R$ 4 bi