29/12/2010 - 7:24
Sessenta e nove dias depois de ficarem presos em uma mina no norte do Chile, 33 mineiros foram resgatados em uma operação espetacular e impecável, que se transformou num dos melhores fatos de 2010, senão o mais a melhor história do ano. Depois de mais de dois meses de sua libertação, quase todos eles estão prontos para retornar ao trabalho.
No dia 5 de agosto, na hora do almoço, ocorreu o desmoronamento que os sepultou a 700 metros de profundidade na antiga mina San José, no deserto do Atacama.
Começava, assim, uma das melhores histórias de 2010, que fez o Chile passar por emoções extremas, da angústia dos primeiros 17 dias em que não houve contato até a grande emoção do final do resgate, no dia 13 de outubro.
O ano de 2010 foi marcado pela tragédia no Chile, começando com um terremoto devastador e posterior maremoto, que deixaram mais de 500 mortos, finalizando com a morte de 81 presos no incêndio de uma prisão de Santiago. Por este motivo, o resgate dos mineiros representou a nota de esperança do ano.
Após o desmoronamento, os mineiros foram para um abrigo de segurança, onde encontraram apenas algumas latas de atum e um pouco de leite. Sem alternativa, quase no escuro, com um sufocante calor e alimentos escassos, a morte começou a rondá-los.
“Primeiro ouvimos o som quando as rochas caíram, depois veio como um vento e levantou muita poeira. Pensei que não iríamos sair mais”, relatou Jimmy Sánchez, de 19 anos, o mais jovem do grupo, à última edição do semanário The Clinic.
“Ver os copos preenchidos apenas pela metade com atum é para enlouquecer alguém. Ficamos muito mal. O encarceramento desespera”, acrescentou.
Nos arredores da mina, seus familiares se reuniam, perguntando-se se estavam bem e se tinham ar, luz ou comida, na precariedade do deserto chileno.
Ciente do acidente, o presidente Sebastián Piñera cancelou uma visita à Colômbia e voltou ao Chile. Antes, enviou à mina seu – então – desconhecido ministro da Mineração, Laurence Golborne.
Um novo desmoronamento dois dias depois fez fracassar a tentativa de um resgate direto, obrigando as autoridades a criar um novo plano: começar com orifícios de 12 cm de diâmetro, assumindo que a libertação não levaria dias ou semanas, mas meses.
A ideia era alimentá-los por essa pequena cavidade enquanto um túnel suficientemente amplo era escavado para retirá-los. Houve várias tentativas frustradas até que, após 17 dias, quando as esperanças diminuíam, eles foram localizados. Pelo pequeno orifício, os mineiros presos enviaram uma mensagem: “Estamos bem no refúgio, os 33”.
A história tomou, então, ares épicos. No fundo de uma mina, 33 homens sobreviviam em um ambiente escuro, com calor e umidade, enquanto do lado de fora suas famílias se instalavam, primeiro com algumas poucas barracas, e depois criando um pequeno povoado batizado de “Acampamento Esperança”, enquanto milhares de jornalistas chegavam.
Sessenta e nove dias depois foi realizada a inédita operação de resgate, que terminou após 22 horas, quando, um a um, os mineiros emergiram em uma pequena jaula de metal conhecida como “cápsula Fênix”.
Milhares de pessoas seguiram pela televisão a transmissão do resgate, que se converteu em um fenômeno midiático comparável com a cobertura da final da Copa do Mundo da África do Sul.
Os mineiros e suas famílias – convertidos em celebridades – ficaram sob tratamento médico para se recuperar, sobretudo no aspecto psicológico.
Nesta semana, 14 deles receberam alta, confirmou o psicólogo responsável pelo grupo, Alberto Iturra, à AFP.
“Agora têm que voltar à realidade”, disse Iturra, sem detalhar porque os outros prosseguem em tratamento.
Enquanto se recuperavam, todos estavam sob licença médica, e por isso recebiam seus salários. Por isso, agora muitos pensam o que farão com suas vidas, enquanto outros dão palestras, como Mario Sepúlveda, Omar Reygadas ou Raúl Bustos.
Alguns preferiram se afastar da exposição pública e a maioria não concede entrevistas sem pagamento prévio.
“Eles estão passando bem e se portaram extraordinariamente bem” em suas atividades públicas, acrescentou o psicólogo.
Nem tudo, no entanto, foi felicidade: apenas alguns dias após o resgate, alguns sofreram quadros de angústia e outros que tinham problemas com o álcool excederam, questão que ainda não podem controlar.
“Os que gostam de beber seguem tomando o mesmo que antes. Tiveram suas disputas e diferenças de opinião, mas não mais que outros grupos. Há alguns que estão, inclusive, invejosos da fama de outros”, acrescentou.
pa/ma