O ditado que fala que uma mão lava a outra nunca se aplicou tão bem ao mundo dos negócios quanto no caso da montadora DaimlerChrysler. Desde 1998, quando a alemã Daimler-Benz comprou a americana Chrysler e mudou de nome, a Mercedes-Benz fez o que pôde para salvar a nova irmã da crise financeira: enxugou os ganhos, cortou gastos com fornecedores e materiais, mandou alguns de seus melhores engenheiros e executivos para os Estados Unidos e, assim, abdicou de sua maior virtude, a alta qualidade de seus veículos. Agora, a situação se inverteu. Quem precisa de uma mãozinha é a Mercedes, que reportou um prejuízo de US$ 1,1 bilhão no primeiro semestre. E a solução, quem diria, pode ser justamente a venda da Chrysler.

Quem terá a difícil tarefa de encontrar uma alternativa menos traumática é Dieter Zetsche, atual presidente da montadora americana, que assumirá o comando da DaimlerChrysler em janeiro de 2006. Ele substituirá Jürgen E. Schrempp, executivo que comandou a compra da Chrysler, por US$ 36 bilhões, em 1998. Schrempp alegava que o casamento entre ?massa? (Chrysler) e ?classe? (Mercedes) fazia sentido. Juntas, as duas poderiam competir globalmente, já que teriam dinheiro e know-how para produzir carros de alta tecnologia e baixo custo, especialmente para as classes médias emergentes no mundo. Foi daí que nasceu a divisão Smart (mini-carros) da Mercedes, que, desde sua criação, trouxe um prejuízo de US$ 3,6 bilhões. Até agora, a justificativa de Schrempp não se mostrou verdadeira. E o imprevisível aconteceu: sete anos depois, a irmã pobre, Chrysler, está mais saudável que a irmã rica, Mercedes, e respondeu por US$ 963 milhões dos US$ 2 bilhões de lucro da DaimlerChrysler no primeiro semestre deste ano. Analistas do setor dizem que Zetsche tem duas opções: executar a estratégia do antecessor com mais competência e provar que a união vale a pena ou comandar as duas empresas separadamente, preparando o terreno para uma possível venda da Chrysler. A separação poderia levar o valor das ações da ?solteira? Daimler às alturas e seu valor de mercado chegaria a até US$ 96 bilhões ? quase o dobro do valor da DaimlerChrysler atualmente, de US$ 51 bilhões.

Seja qual for sua decisão, o novo CEO deve correr, em alta velocidade, atrás do prejuízo de sua jóia da coroa, a Mercedes-Benz. Uma das medidas a serem tomadas é recuperar o prestígio da marca, perdido depois de anos de lançamentos de produtos sem foco, que foram do mini-carro Smart e o pop-chic Classe A a uma super limousine Maybach, de US$ 450 mil. Assim, a Mercedes abriu mão de sua posição de fabricante de carros de luxo para tentar abranger outras classes de consumidores. A estratégia não funcionou: a participação de mercado na Europa e nos EUA caiu e os aficionados da marca perderam a confiança nos veículos. Não ajudou também o fato de que a montadora alemã fez, em março, o maior recall da sua história: chamou para manutenção 1,3 milhão de carros com problemas na bomba de combustível. Outra providência urgente seria cortar os altos custos de produção e aumentar a produtividade. Como se faz isso? Comprando uma baita briga com sindicatos no mundo inteiro com a oferta que nenhum trabalhador quer ouvir: trabalhe mais e ganhe menos. E Schrempp não facilitou essa tarefa. Fechou um acordo com os 160 mil funcionários da Mercedes garantindo seus salários e empregos até 2012. O possível divórcio não afetaria os negócios da Chrysler no Brasil: desde 2001, quando a montadora parou de fabricar a picape Dodge Dakota em Campo Largo (PR), os produtos Chrysler vendidos por aqui são todos importados. Quanto à Mercedes, os 1,1 mil funcionários da fábrica de Juiz de Fora (MG) têm emprego garantido na companhia até fevereiro. A Daimler tem penado para arrumar uma solução para a fábrica, especialmente agora, com o fim da produção do Classe A. Como medida paliativa, continua produzindo o luxuoso modelo Classe C, para exportação. Lá fora, a esperança é a recuperação do Classe E, sedã de luxo cujo preço começa nos US$ 50 mil. O sr. Zetsche tem, como se vê, algumas alternativas de produtos para recuperar a ?classe? da Mercedes-Benz e, quem sabe, salvar o casamento de que foi testemunha sete anos atrás.

US$ 1,1 bilhão foi o prejuízo da Mercedes-Benz no primeiro semestre de 2005