Dentro de dez dias uma placa será colocada à frente do Palácio da Alvorada. Nela estarão os logotipos das 23 empresas que vão investir R$ 16 milhões na reforma da residência oficial do presidente da República. Na noite da terça-feira 19, em torno de um jantar com peixe grelhado com aspargos, filé ao molho funghi e vinho à vontade, o próprio Lula recebeu em primeira mão dos empresários o plano de comunicação para a obra. O grupo afinou o discurso que passará à população com o anúncio oficial de início das obras, previsto para esta semana.

O material entregue ao presidente trata especificamente de alguns termos que passarão a ser usados. A palavra reforma está abolida. Só será utilizado o termo ?restauração?. Outra diretriz quer dirimir qualquer insinuação de que as empresas pedirão benefícios fiscais ? como abatimento no Imposto de Renda ? ao governo. ?Nós queremos apenas entregar esse presente à população brasileira?, disse um
dos empresários durante o jantar. Juntas, as empresas que se movimentam em torno da restauração faturaram mais de R$ 160 bilhões no ano passado e têm diferentes interesses e pendências na área governamental (leia quadro abaixo). O valor da obra é ninharia para o pool ligado à Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base, a Abdib, e que ganhou reforço com a adesão de empreiteiras como a OAS, Odebrecht e Camargo Correa, e mais os grupos Gerdau e Pão de Açúcar. ?Queremos trabalhar exatamente dentro do orçamento inicial?, avisa Paulo Godoy, presidente da Abdib.

Estranhamente, o assunto é tratado como segredo de Estado pelas empresas. Contatadas pela DINHEIRO, Gerdau, Vale do Rio Doce e AmBev recusaram-se a comentar o patrocínio. ?Só o Palácio do Planalto pode responder pela obra?, afirmou a assessoria da Gerdau. Em compensação, todo o trâmite da doação está sendo coordenado de forma que não possa gerar futuras dores de cabeça aos habitantes do Palácio. A Abdib recolherá o dinheiro, que será entregue à Fundação Ricardo Franco, ligada ao Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro. Ela será a coordenadora da obra, encarregada de contratar empreiteiras e realizar os pagamentos. Até a semana passada, porém, a Fundação não havia sido contatada oficialmente para fazer o serviço. Assessores da Presidência garantem que isso não havia acontecido apenas por uma falha de comunicação, que será resolvida. Para eles, não haverá necessidade de abertura de licitação, em razão de o dinheiro ser proveniente de doações.

Alguns setores da oposição vêem a restauração com naturalidade. ?É claro que seria melhor se fosse feita com recursos públicos?, disse o deputado José Carlos Aleluia, líder do PFL. ?Mas se houver transparência, não vejo problemas.? A obra só não começou ainda porque a transferência dos móveis e objetos do Alvorada para outras instalações ainda está em andamento. Os livros vão para a biblioteca do Arquivo Nacional, em Brasília, e as obras de arte para o cofre do Banco Central. Os móveis ficarão sob os auspícios da Imprensa Nacional. Em 1999, o então presidente Fernando Henrique arquivou um projeto de reforma que sairia por R$ 7,3 milhões ? menos da metade do valor atual. Planejava-se gastar R$ 50 mil só no banheiro. Um elevador para levar alimentos ao andar de cima custaria R$ 300 mil. Fernando Henrique teve de trocar de quarto três vezes, por conta de pequenos consertos, e até o encanamento de um dos banheiros deu vazamento na biblioteca, criando uma goteira em cima da mesa do presidente. Coisas que ficarão na poeira da história.