Quando o presidente mundial da Nokia, Jorma Ollila, disse, há um ano, que algo de novo aconteceria em sua corporação, o mercado deu de ombros: ?Deve ser mais um telefone celular ancorado numa agressiva estratégia de marketing para que a número um do mundo mantenha a posição?. Foi mais que isso. Na semana passada, a mudança prevista por Ollila surgiu na forma de um pequeno aparelho, com design similar ao de uma concha, que levará a Nokia a uma nova dimensão na disputa pelo mercado de tecnologia. N-gage é o nome do brinquedo. Um console sem fio para jogos eletrônicos, que opera em alta velocidade, no padrão 3-D, com tela de altíssima resolução. Pode servir ainda como rádio FM. Ou MP3. E funcionar como computador de mão (PDAs). O aparelho consumiu 11 meses de pesquisas e investimentos de US$ 220 milhões. Com ele, a Nokia, tradicional rival de empresas como Motorola, Ericsson e Siemens, agora estréia num mercado de US$ 30 bilhões dominado por gigantes como Nintendo e Sony. Com uma diferença em relação aos novos concorrentes: o N-Gage também é telefone celular.

A novidade foi apresentada ao mercado com uma ampla campanha promocional. Na Europa, consumidores de 55 cidades foram surpreendidos com megafestas de rua que incluíam disk-jockeys, dançarinos e bandas de rock, além de competições entre amantes dos jogos eletrônicos. Nos EUA, a empresa fechou acordo com a rede de lojas Electronic Boutique para vender o N-Gage a partir do primeiro minuto do dia 8. Filas imensas foram vistas na porta das lojas em Nova York e Los Angeles. No Brasil, o evento de apresentação foi mais modesto, na sede da empresa em São Paulo. Mas causou o mesmo frisson entre gamemaníacos e curiosos. ?Estamos criando um novo mercado. O N-Gage é diferente de tudo o que existe?, comemora Jan Petter, diretor de novos negócios da Nokia do Brasil. Por aqui, o equipamento chega ao varejo na primeira quinzena de novembro. Preço: R$ 1,7 mil, bem acima do que se pode pagar no exterior
(US$ 300). Isso sem contar o preço do cartucho de jogos, estimado em R$ 200 cada. Cartucho é a maneira mais simples de definir o Multimedia Memory Card (MMC), um chip instalado na parte traseira do aparelho, próximo à bateria.

Hoje há dez jogos disponíveis nos kits da Nokia, com destaque para o Tomb Raider, Sonic e Vitua Tennis. Para criar um portfólio diversificado de games, a companhia finlandesa fechou acordos com diferentes fabricantes: Ideaworks, Sega, THQ, Taito, Activision, Gameloft. Mas é possível também baixar qualquer outro game via internet. Então, por que comprá-los? Quem explica é César Keller, diretor de marketing da Nokia: ?Nada se compara a qualidade de imagem dos jogos em cartuchos. E para os gamemaníacos, a imagem é fundamental?. Mesmo assim, a Nokia não quer surpresas. Criou o site N-Gage Arena, de onde será possível baixar jogos. Também adquiriu a Sega.com, divisão de jogos da internet da fabricante japonesa. A Sega foi pioneira no desenvolvimento de games on-line móveis para múltiplos jogadores. É um sistema que está disponível no N-Gage, por meio da tecnologia bluetooth. Traduzindo: hoje, dois ou mais jogadores, a uma distância limitada a 10 metros, podem competir entre si. Em 2004, garantem executivos da Nokia, pessoas de diferentes cidades ou países vão jogar juntas. ?Você terá a chance de desafiar um competidor no Japão?, diz o diretor Petter.

Mais que acelarar o processo de convergência de tecnologias digitais, a busca da Nokia por outros mercados foi motivada pela queda em suas receitas. Embora seja a primeira do ranking, com 39% do mercado global de telefonia, a Nokia viu seus lucros encolherem nos últimos anos. Um estudo da Merrill Lynch revela que apesar das estimativas da empresa de aumentar em 12% o volume de vendas de telefones celulares este ano ? algo como 170 milhões de unidades ? as receitas deverão diminuir 1,4% em relação a 2002, atingindo US$ 26,3 bilhões. Isto porque os preços dos aparelhos estão caindo ano a ano. Ainda segundo a Merrill Lynch, as perdas na divisão de equipamentos para telefonia móvel deverão reduzir em 1,6% o lucro total da companhia em 2003, para US$ 3,8 bilhões. A Nokia espera vender nove milhões de unidades do N-Gage nos próximos dois anos, o que trará aos seus cofres algo como US$ 1,2 bilhão no período. Resta saber se os finlandeses realmente terão fôlego para brigar com os dois maiores do mercado. A Nintendo, desde 1989, já vendeu 157 milhões de Game Boys. O mais recente da safra, o Game Boy Advance, vem conquistando admiradores no mundo todo. ?O N-Gage não vai nos afetar?, disse o porta-voz da Nintendo, Ken Toyoda, em nota oficial. A Sony também pretende lançar o PlayStation portátil no Japão no ano que vem. E promete não deixar espaço para a Nokia. O jogo é pesado.