As temperaturas abaixo de zero que castigam os Estados Unidos neste inverno são uma boa metáfora do gelo que as empresas emergentes têm dado na Bolsa de Nova York. A tendência é global e foi detectada em pesquisa
do diário The Wall Street Journal. Da Índia ao México, com destaque para o Brasil, somam-se os casos de companhias assustadas com os custos atuais de um lançamento de ações no mercado americano. Muitas acabam contentando-se com o mercado doméstico. Outras buscam alternativas. Em 2005, apenas 13 empresas estrangeiras emitiram papéis (os chamados ADRs) na Bolsa de Nova York. Em compensação, 48 recorreram aos pregões de Londres e Luxemburgo ? entre elas as brasileiras Cyrela, Submarino e ALL. Juntas, essas duas bolsas responderam por 90% dos recursos captados fora de casa por companhias estrangeiras. Para firmas do Brasil, o inverno nova-iorquino já dura um ano e quatro meses. O último registro em Wall Street foi obtido pela CPFL, em setembro de 2004. Naquele ano, além dela, apenas a Gol emitiu ADRs. Em 2005, o número de lançamentos caiu a zero.

Por trás dessa fuga de Nova York, há uma lei chamada Sarbanes-Oxley, que endureceu as já rígidas regras de contabilidade americanas em resposta aos escândalos da Enron e da WorldCom. São 1.107 artigos. Entre eles, o que torna obrigatória a criação de um comitê interno de auditoria. E a temida ?Seção 404?, que exige uma detalhada certificação dos controles da companhia contra fraudes e erros contábeis. ?É um trabalho exaustivo documentar processos, testar controles e buscar vulnerabilidades?, atesta Sidney Ito, sócio da KPMG. Entre horas de trabalho, contratação de advogados, investimentos em tecnologia e consultoria, o custo de adequação à famigerada 404 varia de 0,5% a 5% do faturamento da empresa. Ou seja, para um grupo de R$ 1 bilhão, só essa despesa pode chegar a R$ 5 milhões. Detalhe: a punição por certificação fraudulenta ou negligente varia de US$ 1 milhão a US$ 5 milhões de multa e de 10 a 20 anos de cadeia para a diretoria. Ivan Clark, sócio da PricewaterhouseCoopers, calcula que os gastos com o setor de Relações com Investidores das empresas aumentam, em média, 50% quando estão em Nova York.

Com custos e riscos nesses patamares ? só a anuidade do pregão nova-iorquino é hoje de US$ 38 mil ?, o lançamento de ADRs tornou-se uma opção restrita a megaoperações. ?Para ofertas de menos de US$ 500 milhões, Nova York simplesmente não vale mais a pena?, avalia José Olympio Pereira, diretor do Credit Suisse. O fato de que nenhuma das 17 empresas brasileiras que abriram capital nos últimos dois anos atingiu esse piso ajuda a entender o porquê do gelo em Wall Street. ?Ao mesmo tempo, as coisas no Brasil ficaram mais interessantes?, acrescenta Alan Gandelman, da corretora Ágora Senior. O movimento da Bovespa chegou ao nível de US$ 1 bilhão ao dia ? contra US$ 150 milhões há três anos. Paralelamente, as regras do Novo Mercado aumentaram as garantias para os minoritários. Com isso, a bolsa brasileira perdeu o estigma de antro de especuladores e passou a ser freqüentada por respeitáveis investidores estrangeiros. Nos últimos 18 meses, eles compraram 70% das ações emitidas. Resumo da ópera: não é mais necessário lançar ADRs para ter acesso ao capital internacional. ?O tamanho do lançamento da Localiza (US$ 109 milhões) realmente não justificaria uma oferta em Nova York?, confirma o presidente da companhia, Salim Mattar. ?Vendemos 80% de nossos papéis a estrangeiros sem sair da Bovespa.?

Mesmo companhias maiores têm evitado os frios ares nova-iorquinos. A São Paulo Alpargatas, que chegou a registrar seus papéis na bolsa americana, anunciou sua desistência em agosto do ano passado. Em comunicado ao mercado, alegou que o volume que negociava lá era muito pequeno para justificar os custos. O Banco do Brasil, por sua vez, cogitou o lançamento de ADRs em 2002. Alertado, porém, pela experiência do Unibanco ? que pouco antes emitira ações em Nova York e vira a demanda por seus papéis despencar no Brasil ?, o BB desistiu. Ainda há interesse por um registro em bolsa internacional. Mas seu foco agora é Madri. ?O Latibex (índice para ações latino-americanas) é uma vitrine?, nota Marco Geovanne, diretor do BB e do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores.

A próxima fronteira a desbravar é a Bolsa de Londres, maior do mundo para empresas estrangeiras. ?O custo lá é no mínimo 40% menor que em Nova York?, calcula Clark, da Price, que também preside a Câmara Britânica de São Paulo. No mês que vem, um comitê de empresários e autoridades do Brasil fará uma visita oficial ao pregão inglês. A idéia é disputar espaço em plena city londrina com as melhores empresas chinesas e indianas.