Fábio Barbosa, o presidente do Banco Real ABN Amro, não gosta de ser chamado de banqueiro verde. Mas o apelido, além de elogioso, é inevitável. Quem caminha da porta do edifício-sede do banco, na Avenida Paulista, até seu escritório começa logo a entender por que. A bela fachada já tem o verde, cor do banco, em destaque. Lá dentro, cada corredor percorrido até sua sala é decorado com um belo arranjo floral, e cada mesa de trabalho parece abrigar pelo menos um vasinho. Não é à toa. Esta é a instituição que se orgulha de escantear clientes irresponsáveis no trato dos recursos naturais e que empresta dinheiro barato, do Banco Mundial, para projetos ecologicamente corretos. Mas Barbosa, escolhido pela DINHEIRO Empreendedor do Ano na área de Finanças, tem seus motivos para resistir à alcunha. ?Não estou para defender o meio ambiente?, diz. ?O que eu quero é estimular o desenvolvimento sustentado das empresas com quem nos relacionamos, porque isso é bom para os negócios?, explica. Foi com idéias como esta que Barbosa construiu uma imagem única para o ABN Amro, descolando-o da percepção geral de que bancos, no Brasil, são impiedosas máquinas de fazer dinheiro e, o que é mais importante, transformou este prestígio em resultados. Dos sete principais bancos que operam no País, o ABN foi o que mais aumentou seu lucro neste ano, segundo os balanços apresentados até setembro. Seu resultado líquido, de R$ 664 milhões nos primeiros nove meses de 2004, é 31,7% maior que o observado em igual período de 2003. Nem Itaú nem Bradesco, nem os gigantes estatais, ninguém melhorou tanto seu desempenho quanto o banco de Barbosa neste ano.

O ?caso zero? desta fase ativista do ABN foi registrado em 2002. Na ocasião, o banco trabalhava com uma empresa que pescava camarão de forma predatória em uma região de mangue no Nordeste e seus diretores sentiam-se desconfortáveis com a situação. ?Em vez de suspender o financiamento, decidimos contratar o Christopher Wells, um oceanógrafo especialista em risco socioambiental, para ajudar nosso cliente a tornar sua atividade sustentável?, lembra Barbosa. Bem-sucedida, a experiência foi rapidamente replicada em casos semelhantes. ?Fomos aprendendo durante o processo?, conta Maria Luiza de Oliveira Pinto, a Malu, diretora responsável pela área de Desenvolvimento Sustentável do banco. Luiza e seus parceiros da ONG Amigos da Terra já treinaram 1.600 pessoas ligadas ao ABN nesta disciplina. É o maior grupo de profissionais de finanças que já passou por um programa do gênero em todo o mundo. Graças a isso, três mil empresas (clientes e potenciais clientes) já foram avaliadas sob o aspecto socioambiental ? que passou a ser um dos critérios da análise de crédito no banco.

A teoria por trás da prática é conhecida em ?consultês? como Triple P: People, Planet, Profit (Pessoas, Planeta, Lucro). A regra é clara. A empresa corta madeira ilegalmente, emprega mão-de-obra infantil? Não serve. ?A sociedade não aceita?, diz Barbosa. No início, quando se decidiu adotar o ?triplo P?, havia o temor de restringir demais a carteira de clientes do banco. Barbosa bancou o projeto, com um argumento que resume a filosofia atual do ABN: ?O banco tem que dar certo fazendo a coisa certa, do jeito certo?. E quem pensa que esse tipo de preocupação é imposição dos holandeses que controlam o ABN está enganado. ?Isso surgiu da minha vida, da minha maneira de ver o mundo e da maneira do banco ver o mundo?, explica Barbosa. ?É uma cultura genuinamente brasileira, adotada com apoio da matriz.? Prova: neste ano, uma delegação holandesa esteve na sede brasileira em busca de dicas para a montagem de um departamento de sustentabilidade no QG mundial do grupo.

O comportamento responsável diante da sociedade é cobrado em todos os elos da cadeia de que faz parte o banco. Dos fornecedores, por exemplo. Também aqui o ?caso piloto? é de 2002, quando o banco decidiu que assumiria responsabilidade pela conduta dos motoboys a seu serviço. Para isso, parafraseando Ione Antunes, dona da empresa de entregas rápidas Help Express, era preciso ter motoqueiros civilizados em vez de ?cachorros-loucos?. A pedido do banco, a Help Express ? que já pagava salários e concedia benefícios acima da média do mercado ? impôs um código de ética aos funcionários em que, por exemplo, fechar outros motoristas é considerado falta grave. Desde então, o número de acidentes caiu a quase zero.

Há no mercado quem diga que Fábio Barbosa não tem perfil de banqueiro. De fato, ele é mais um executivo de grandes corporações do que um financista clássico. Sua carreira começa por 12 anos de Nestlé, com passagens pela filial nos Estados Unidos e na matriz suíça, antes da entrada no Citibank, onde passou outros sete anos, e da passagem pelo banco japonês LTB. Hoje, Barbosa soma nove anos de Banco Real, o suficiente para imprimir sua marca na organização. ?Eu sempre fui do tipo que faz as coisas certinhas?, revela ele. ?Não sabia se isso me levaria longe ou não.? No Brasil, nota o executivo, há uma cultura de que ?se deu certo, alguma sujeira fez?. ?Eu nunca fiz. O jogo é duro, mas é na bola e não na canela?, garante.

O ano de 2004 marca a consolidação da fase verde do Real ABN, coroada com o fechamento, em outubro, de uma parceria com a IFC (International Finance Corporation), braço do Banco Mundial para operações com o setor privado. A associação resultou no lançamento de uma linha de crédito de US$ 51 milhões para programas socio-ambientais e de melhoria da governança corporativa de empresas. ?Nos deram um empréstimo que nunca haviam dado a nenhum banco do mundo?, comemora Barbosa. Os recursos da IFC vão dobrar a carteira de empréstimos do banco em produtos socioambientais, que era de US$ 67 milhões. O banco planeja fechar este ano com US$ 100 milhões nesta rubrica e acelerar em 2005. Se precisarem de um slogan que defina este próximo período, os publicitários da instituição podem buscar inspiração em um dos bordões preferidos de Barbosa: ?Um banco melhor, um mercado melhor, um país melhor?.