O economista Eleazar de Carvalho Filho herdou quase nada do talento musical do pai, Eleazar de Carvalho, um dos mais consagrados maestros brasileiros. ?Só aprendi a tocar piano, depois de velho?, diz ele. A paixão pela música, porém, está nos genes. Profundo conhecedor de música clássica, fã de compositores como Stravinsky e Mahler, ele se define como ?um ouvinte crítico?. Há, porém, uma outra habilidade paterna que Eleazar terá de demonstrar para ser bem-sucedido na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Ao assumir a posição no próximo dia 7 de janeiro, em Brasília, Carvalho terá de reger e conciliar diversas prioridades e interesses para que os recursos do banco sejam distribuídos harmonicamente. Entre outras coisas, Eleazar precisa atender à necessidade de o País exportar mais, apoiar a expansão (urgente)do setor elétrico, incentivar pequenas e médias empresas e, sempre que julgue necessário, dar um empurrão na reestruturação deste ou daquele setor.

Para isso, Eleazar tem um orçamento anual de R$ 26 bilhões. É muito, não é? Em termos. O banco comandado por Eleazar é uma das poucas (senão a única) fontes de dinheiro barato para financiamentos das empresas em um país cuja economia é a oitava maior do mundo. Enfim, é necessário muito mais capital do que isso para saciar a fome das companhias por financiamentos. Eleazar acredita que a saída é acertar vários desses alvos com apenas um tiro. Recentemente o banco liberou uma verba de US$ 7 milhões para a Caterpillar. O dinheiro será usado para capacitar 10 de seus fornecedores para atuar no mercado externo, ?Dessa forma, incentivamos pequenas e médias
empresas e estimulamos a exportação?, diz ele.

De quebra, em todos os casos, ele deverá estimular, mais e mais, os empresários brasileiros a olhar com mais carinho o mercado de capitais, uma prática que alguém chamou de governança corporativa. É um nome feio mas recheado de boas intenções. Segundo ele, as empresas devem ser mais transparentes em suas informações e tratar bem os acionistas minoritários, para que as bolsas de valores atraiam os pequenos investidores, assim como ocorre nos Estados Unidos. ?Mais do que garantir recursos para as companhias, queremos mostrar que o mercado de capitais é a melhor fonte de financiamento que pode existir?, diz Eleazar. Cuidadoso nas palavras, ele prefere dizer que o banco ?sente-se estimulado e sensibilizado? com projetos de empresas que tenham (ou estejam dispostas a ter) um pé nos pregões. Traduzindo: as companhias de capital aberto têm mais chances de ver seus pedidos de financiamento receberem sinal verde. O BNDES acabou de fechar um acordo com os Supermercados Sendas, dono de 80 lojas e faturamento de R$ 2,5 bilhões, para a subscrição de debêntures conversíveis. É uma operação de R$ 120 milhões. Para conseguir o aval do banco, o empresário Artur Sendas se comprometeu, no prazo de cinco anos, a abrir o capital de seu negócio no Novo Mercado da Bovespa. Se não o fizer, poderá ser punido, ou como prefere o político Eleazar, ?sofrer com o desestímulo para novos desembolsos?.

O incentivo ao mercado de capitais parece ser o principal ponto da plataforma de Eleazar. Trata-se de uma crença pessoal. Foi ele que idealizou e montou o programa que permitiu que os trabalhadores usassem parte do dinheiro do FGTS para investirem em fundos de ações da Petrobras ? um sucesso de público e crítica. Tentou algo semelhante para a privatização de Furnas, mas a idéia ainda não saiu do papel. Há diversos outros casos em gestação. ?Tenho a convicção que a democratização do capital é uma saída para as empresas brasileiras?, diz ele. Talvez essa crença seja fruto de sua formação acadêmica, inteiramente realizada nos Estados Unidos. Formado em Economia pela New York University e com mestrado em Relações Internacionais na John Hopkins University, Eleazar, hoje com 44 anos, viveu seis anos em território americano. Ao voltar, em 1981, trabalhou em indústrias como a Alcoa e em bancos, a exemplo do Garantia e no UBS Warburg. Ocupava a presidência deste último, quando Francisco Gros o convidou para assumir uma das diretorias do BNDES em abril de 2000. Com projetos como o dos fundos de ação da Petrobras, ele tornou-se uma espécie de solista da orquestra. Agora, foi chamado a regê-la.