03/12/2003 - 8:00
Muita coisa já passou diante dos olhos do empresário Jan Wiegerinck nos últimos 40 anos. Desde que em 1963 fundou a Gelre, empresa de recrutamento de trabalhadores temporários, esse holandês de 76 anos conheceu vinte ministros do Trabalho, lidou com dez moedas diferentes e trabalhou sob a égide de diversas leis salariais. Mas nenhum número é tão grandioso quanto o de trabalhadores que cruzaram as portas da sede da Gelre, um antigo edifício na rua 24 de Maio, centro velho da cidade de São Paulo. Nesses 40 anos, ele já contratou três milhões de pessoas, o que o coloca como o maior empregador do País. Hoje, cerca de 30 mil funcionários têm sua carteira de trabalho assinada pela Gelre, pouco menos do que uma Sadia, pouco mais do que uma Volkswagen. Essa multidão não bate cartão na Gelre. Eles são alocados em empresas como Carrefour, Xerox, Philips e Unilever. Ficam lá no mínimo três meses e, no máximo, seis meses, de acordo com a lei que regula a atividade dos temporários. Recebem todos os direitos trabalhistas, como fundo de garantia, 13º salário, férias proporcionais. Em geral, são convocados para projetos específicos com duração limitada ou para atuar em momentos de pico de mercado. Quatro em cada dez acabam incorporados ao quadro de pessoal do cliente, o que significa o fim do desemprego para muita gente.
Uma rápida olhada nas filas de candidatos formadas no prédio da 24 de Maio revela um bocado do quadro do desemprego no Brasil. Há mais adolescentes da periferia do que jovens de classe média. Mais sujeitos de meia-idade do que jovens profissionais recém-saídos da faculdade. Mais negros do que brancos, como alerta o próprio Wiegerinck. ?Somos uma porta de oportunidades para os marginalizados do mercado de trabalho?, diz ele. ?Sempre procuro combater o preconceito junto aos clientes.? Há quatro anos, por exemplo, ele insistiu com um deles para dar uma oportunidade para uma secretária de 62 anos, bilíngüe. Sua permanência seria de apenas alguns meses. Está lá até hoje.
O desemprego mostra sua cara diariamente na Gelre. Wiegerinck já chegou a empregar 35 mil pessoas. ?As empresas evitam contratar temporários porque há gente sobrando?, conta ele. ?Nunca vi tanto desemprego como hoje.? E Wiegerinck já viu muita coisa. No início, os profissionais mais requisitados eram datilógrafas e telefonistas. ?Os testes mais freqüentes eram os de número de toques por minuto numa máquina de escrever?, recorda ele. Também sumiram anúncios que hoje seriam considerados ?politicamente incorretos?, como ?Admitem-se moças e rapazes de boa aparência?.
Bomba-relógio. Em contrapartida, a Gelre passou a enfrentar um concorrente agressivo: a informalidade. ?É um câncer que atinge
todo o mercado de trabalho?, diz Wiegerinck. A raiz do problema, segundo ele, está na ?obsessão pela legalidade?. ?São leis e mais leis?, diz. Ele investe contra as que regulam o trabalho dos estagiários. ?Deveriam chamá-los de ?escraviários?, tal a exploração?, afirma. Outro alvo são as cooperativas, que reúnem sete milhões de trabalhadores. ?Eles não recolhem INSS, mas um dia se aposentarão?, diz. ?Quem vai pagar a conta? Meus, seus, nossos netos. É uma bomba-relógio.? A saída, defende, seria a redução dos encargos trabalhistas. ?Isso diminuirá a informalidade.?
As palavras de Wiegerinck são agudas, mas não condizem com sua imagem de bom e sábio velhinho, reforçada pela cabeleira branca e as inseparáveis gravatas-borboletas, que lhe dão um ar de maître. ?São um instrumento de marketing. Graças a elas, ninguém esquece de mim?, brinca. Wiegerinck as usa desde que desembarcou no Brasil em 1955. Trabalhou no Banco Holandês Unido, a subsidiária do ABN na ocasião, até se arriscar na carreira solo. Do período holandês não resta sequer o mais leve sotaque ? apenas o nome de sua empresa, Gelre, emprestado da região onde nasceu há 76 anos.