As metáforas ajudam a explicar o mundo. Se Indiana Jones, o professor e arqueólogo criado por Harrison Ford no cinema fosse um economista, ele seria Steven Levitt. Aos 39 anos, incomodado com gravatas, este tímido professor da Universidade de Chicago tornou-se personagem pop de um universo acostumado a gente muito chata. No ano passado, ele recebeu a medalha John Clark, entregue a cada dois anos ao melhor especialista do ramo com menos de 40 anos de idade. A premiação chamou a atenção do jornalista Stephen Dubner, do The New York Times. Da parceria resultou uma ampla reportagem e, recentemente, o livro ?Freakonomics ? O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta? (Editora Campus/Elsevier). Freak, em inglês, pode ser traduzido como raro, inesperado, excêntrico. As idéias de Levitt são tudo isso e mais um pouco. Viram do avesso conceitos e preconceitos. Ele brinca com números para demonstrar que a economia não precisa ser aborrecida ? e que os luminares escondidos por trás do linguajar difícil prestam um desserviço, tornam impenetrável o que poderia ser simples. Corrompem o idioma para esconder números tortos. Freakonomics dá para entender da primeira à última de suas 254 páginas, embora cada linha exija dupla leitura, por surpreendentes. Diz o autor: ?Se a moralidade representa o modo como gostaríamos que o mundo funcionasse, a economia representa o modo como ele realmente funciona?.

O volume é um compêndio de malabarismos com cifras. Não há uma tese central a amarrá-lo. É um jogo da amarelinha que leva a um céu luminoso. Faz pensar o tempo todo, ao misturar matemática e o mundo real. Levitt mostra, em um dos capítulos, numa definição politicamente incorreta, que a queda da criminalidade nos EUA coincidiu com a liberação do aborto. O motivo? Nasceram menos americanos destinados à bandidagem. Entre 1988 e 1997, os crimes violentos nos estados que primeiro legalizaram o aborto caíram 13% se comparados aos demais. Diante do barulho provocado por essa tese, Levitt apressou-se em informar que suas descobertas ?não deveriam ser erroneamente interpretadas como um aval do aborto nem como um pedido de intervenção por parte do Estado nas decisões femininas quanto à fertilidade?. O economista comprova por ?a? mais ?b?, em outra passagem explosiva, que professores e lutadores de sumô, apresentados a prêmios em dinheiro, trapaceiam de modo parecido, ao menos entre os americanos. Os primeiros forjam notas, os outros entregam lutas. Afeito a provocações, Levitt enfileira outras questões delicadas: ?o que é mais perigoso, uma arma ou uma piscina??. A resposta: a piscina. Com base em estatísticas, ele demonstra que a probabilidade de morte por afogamento doméstico nos EUA é de 1 em 11 mil, contra morte por arma de fogo de 1 em 1 milhão. Esse raciocínio, transposto ao Brasil, é mais complexo: há, em média, por aqui, 29 homicídios armados a cada mil mortes, diante de 0,008983 afogamentos fatais por grupo de mil falecimentos. É uma cifra que pressupõe outro olhar ao trabalho iconoclasta de Levitt, mas que de modo algum invalida seus raciocínios fascinantes.

?Políticos mentem mais que economistas?

Em entrevista a DINHEIRO, por email, Steven Levitt trata de alguns de seus temas prediletos, como a corrupção, a relação entre candidatos e empresários e a atávica mania dos lutadores de sumô em combinar o resultado das disputas. Acompanhe:

DINHEIRO – O senhor brinca com os números para demonstrar a dificuldade do ser humano em escapar à corrupção. Somos todos corruptos?
LEVITT ?
A maioria das pessoas é honesta, mas ao receber incentivos errados, algumas vezes, muitos trapaceiam. Em meus estudos, apenas 5% dos professores escolares aderem a embustes, enquanto a maioria dos lutadores de sumô está envolvido com trapaças. É natural, os lutadores de sumô têm muito mais a ganhar com a fraude do que os professores.

A gorjeta que damos ao garçom no restaurante ou ao funcionário do hotel cinco estrelas ajuda a alimentar a malha de corrupção?
Oferecemos gorjetas porque elas nos fazem sentir bem. Faço isso não para esperar um serviço melhor da próxima vez, mas porque seria uma má pessoa se tratasse o garçom sem cortesia, a ponto de constrangê-lo.

É possível fazer uma campanha eleitoral sem irregularidades nas prestações de contas?
Nos Estados Unidos, grande parte das eleições é limpa. Há atenção redobrada da oposição e os eleitores irritam-se quando o dinheiro é manipulado de forma desonesta.

O contato do político com um empresário, na fase de campanha, resultará inevitavelmente numa relação corrupta? Em outras palavras: ?pago hoje para ter benefícios amanhã??.
A maioria dos empresários contribui com políticos porque pensa receber algo em troca, no futuro. Isso é corrupção? Não tenho certeza. Nos Estados Unidos, ao menos, as contribuições são relativamente pequenas diante do tamanho da máquina do Estado. O gasto com todas as campanhas somadas é quase o mesmo desembolsado com a fabricação de chicletes.

Quem mente mais, os políticos ou os economistas?
Os políticos, eu acho. Eles têm mais instâncias para mentir e suas reputações dependem da reeleição, e não da correção. Já para os economistas, ser correto ajuda muito.

A queda do Muro de Berlim, o desmantelamento do bloco soviético, os problemas em Cuba. Esses eventos anunciam o fim do comunismo enquanto idéia? Algum dia viveremos em igualdade econômica e social?
Provavelmente nunca. Sem incentivos fortes, as pessoas não trabalham pesado. Se todo mundo é igual, independentemente do quanto trabalha, então o trabalho duro pode significar muito pouco. Creio que a igualdade de oportunidades é o máximo que podemos almejar. A pessoa talentosa e dedicada teria uma razoável chance de ser bem sucedida, apesar das circunstâncias de seu nascimento.

?É a economia, estúpido?, cravou um antigo assessor de Bill Clinton. Tudo é economia?
É inquestionável que a riqueza importa, e a fonte de toda riqueza é o crescimento econômico. Mas as pessoas se motivam por outras coisas além do dinheiro. Nos preocupamos com o que os amigos pensam de nós, e como nos sentimos diante de nossa postura. Em uma sociedade bem sucedida, trabalhamos para incentivar as pessoas a se preocuparem umas com as outras.

 
Aborto X Crimes

 

É a idéia mais polêmica de Levitt. Com a liberação do aborto nos Estados Unidos, a taxa de criminalidade desmoronou, porque nasceram menos americanos propensos à bandidagem. Entre 1988 e 1997, os crimes violentos nos estados que primeiro legalizaram o aborto caíram 13% se comparados aos demais. Entre 1994 e 1997, seus índices de homicídio caíram 23% mais que os dos outros estados.

 
Tiros X Afogamentos

A uma indagação insolente ? ?o que é mais perigoso, uma arma ou uma piscina? -, o economista entrega uma resposta bombástica: a piscina. Com base em estatísticas, ele demonstra que a probabilidade de morte por afogamento nos Estados Unidos é de 1 em 11 mil, contra morte por arma de fogo de 1 em 1 milhão, o equivalente a cem vezes mais.

 

Lutadores de sumô X Professores

Professores e lutadores de sumô se comportam de modo parecido ao receber recompensa pelo trabalho. Os professores adulteram notas em provas para melhorar a avaliação de suas universidades. A turma do sumô entrega lutas.