MURILLO CONSTANTINO/ag. istoé

Caro torcedor, caro empresário, avalie com atenção as seguintes informações:

Em 2007, o Brasil vendeu 1.085 jogadores de futebol para outros países, 27% a mais do que no ano anterior. É como se os 40 clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro comercializassem a totalidade de seus elencos

O campeão em transferências foi o Grêmio Esportivo Anápolis, expoente da segunda divisão do Campeonato Goiano e que tem como ponto alto no currículo uma participação na Série C do Campeonato Brasileiro, quando terminou na 53a. colocação. Em 2007, o clube vendeu 17 atletas, todos para o futebol português

O clube que mais absorveu boleiros brasileiros foi a Associação Naval 1o de Maio, de Portugal, seguido pelo Sportivo 2 de Mayo, do Paraguai – duas agremiações desconhecidas em seus próprios países

Mais de 22% dos jogadores em atividade nas três principais divisões do futebol português são brasileiros

Hoje, apenas 2,5% dos jogadores brasileiros ganham mais de cinco salários mínimos

Os dados acima foram extraídos de um alentado estudo produzido pela 2B Gestão e Desportos, empresa de gestão esportiva, recém-criada em São Paulo. Os pais do empreendimento unem experiências e formações diferentes e complementares. Um deles, César Sampaio, foi um dos mais habilidosos volantes do futebol brasileiro nas últimas décadas. Vice-campeão mundial pela Seleção Brasileira, na Copa do Mundo de 1998, na França, Sampaio participou da administração de clubes como o Rio Claro e o Guaratinguetá, ambos de São Paulo e o Pelotas, do Rio Grande do Sul. Um de seus sócios, Renato Romani, trabalhava no Grupo Fleury, de Medicina Diagnóstica, e possui conhecimento na gestão e no planejamento de saúde. O terceiro sócio é André Barros, que há anos atua no setor de marketing esportivo. O trio se dedicará à formação de jovens jogadores e à assessoria na gestão de clubes de futebol. “É lugar-comum falar que o futebol deve ser visto como negócio”, diz Romani. “Mas até hoje os instrumentos mais modernos de gestão não são aplicados nos clubes. Eles sequer conhecem o mercado em que atuam.”

Dessa lacuna surgiu o estudo Futebol Negócio, desenvolvido pela 2B. Encontra-se ali um retrato sem retoques da exportação de jogadores de futebol brasileiros – uma realidade distante do glamour e da pompa que envolve a negociação de craques como Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Robinho.

Trata-se, em sua maior parte, de um mercado oculto, sem a luz dos holofotes da imprensa ou da atenção dos canais de tevê e das estações de rádio que acompanham cotidianamente a maior paixão brasileira. Nele, as transações sequer chegam à centena de milhares de dólares. Muitas vezes, a contratação não envolve valores, além dos salários pagos aos jogadores. Seus protagonistas são jovens de menos de 20 anos, mal saídos do amadorismo que, do dia para a noite, vão parar em gramados do Vietnã, da Líbia ou de Honduras.

Mesmo assim, é um mercado milionário. A 2B calcula que essas transferências movimentam algo próximo de US$ 230 milhões por ano.

Essa dinheirama atrai investidores e todas as possíveis variáveis de negócios. Só isso explica que entre os clubes que mais exportam atletas estejam nomes desconhecidos como o Grêmio Esportivo Anápolis, o Matsubara e o Corinthians de Alagoas. “Esses clubes servem como canal para a negociação de jogadores iniciantes que pertencem a empresários”, diz Barros, um dos sócios da 2B.

Outra surpreendente revelação encontra-se na outra ponta desse comércio, a dos clubes que adquirem os jogadores brasileiros. Lá estão, na liderança, a Associação Naval 1o de Maio, de Portugal, e o Sportivo 2 de Mayo, do Paraguai. “São agremiações que existem principalmente para servir de porta de entrada de atletas em outros mercados”, diz Romani. Essas fragilidades, porém, abrem um mundo de oportunidades, completa Romani. “Os europeus principalmente anseiam por fornecedores profissionais que ofereçam jogadores que foram acompanhados ao longo de seu desenvolvimento”, diz ele. O estudo da 2B ajuda a identificar os mercados com mais potencial para os boleiros daqui. Por exemplo: na Holanda, onde Romário e Ronaldo foram apresentados para o mundo, os brasileiros representam apenas 1% dos jogadores nas três principais divisões do futebol local. “A participação de nossos atletas é muito pequena”, diz Barros. Já em Portugal, eles ocupam 22,6% dos postos de trabalho.

Para aproveitar essas brechas, a 2B desenhou um minucioso plano de negócios. Em parceria com três clubes paulistas, o Taboão, o Sumaré e o Mogi-Mirim, criou o Projeto 2B Talentos. Cerca de 250 garotos de até 17 anos de idade são acompanhados por uma equipe de médicos, técnicos e psicólogos. Mensalmente, um sistema desenvolvido pela 2B gera relatórios com indicadores objetivos sobre o desempenho técnico e físico e o comportamento da meninada dentro e fora do campo. Segundo os planos da 2B, o objetivo é que, em quatro anos, 41 desses jovens se tornem profissionais, mas apenas 16 apresentarão potencial de atuar no Exterior. Juntos, eles representarão uma receita superior a R$ 18,2 milhões para a empresa comandada por Sampaio. A experiência do ex-jogador, aliás, acendeu um sinal amarelo na sede da 2B, localizada num escritório na região da avenida Luiz Carlos Berrini, em São Paulo: qual será o destino dos garotos, caso não sejam aproveitados por um time profissional? Por isso, o próximo passo do trio de sócios é montar um programa de assistência social para a garotada. “Assim que são selecionados, esses meninos jogam toda a expectativa de suas vidas no futebol”, lembra Sampaio. “Só que apenas uma minoria terá essa expectativa confirmada. E os outros? O que farão a partir do momento em que não forem aproveitados?” A resposta virá na forma de cursos profissionalizantes que a 2B oferecerá em parceria com o Senai. “De uma forma ou outra, todos serão craques”, diz Sampaio.