14/05/2003 - 7:00
O argentino Nestor Kirchner tem tudo para ser o próximo presidente da Argentina. Às vésperas das eleições de 18 de maio, ele lidera as pesquisas com 60% das intenções de voto. Na quinta-feira 8, Kirchner esteve em Brasília reunido com o presidente Lula. Seu adversário, o ex-presidente Carlos Menem, viu a visita com maus olhos e acusou o governo brasileiro de favorecer seu rival. O BNDES, por ordem de Lula, anunciou uma linha de crédito para as exportações argentinas. Nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO, Kirchner, de 53 anos, elogiou Lula e disse que seu projeto para reconstrução da economia argentina passa por um plano de obras populares, pela redução das taxas de juros e pela renegociação da dívida extrerna. ?Não vamos pagar juros
com a fome do povo argentino?.
DINHEIRO ? Caso vença a eleição, qual será o maior desafio
à frente da Argentina?
Kirchner ? Meu maior desafio será terminar com a injusta distribuição de renda e consolidar um modelo de produção e trabalho que permita diminuir a enorme diferença entre ricos e pobres.
DINHEIRO ? Como pretender fazer isso?
Kirchner ? Vamos revisar o sistema tributário e combater sem trégua a sonegação. O Estado será mais presente. E nós não inventamos isso. Já na década de 30 a adoção destas políticas permitiu aos EUA sair da recessão e criar milhares de postos de trabalho. É de empregos que precisamos. Para isso, vamos colocar em marcha um plano de construção de três milhões de casas populares. Só assim começaremos a gerar um aquecimento econômico que fará a sociedade voltar a se mover.
DINHEIRO ? O que o sr. fará para recuperar o poder aquisitivo do povo argentino?
Kirchner ? A única solução é gerar empregos, mas sem cair na tentação de fazer isso na base da canetada. Para equilibrar a distribuição de renda é preciso fazer uma grande reforma tributária. Quem ganha mais deve pagar mais. Isto tem que vir acompanhado da criação de tribunais tributários que persigam e julguem os que não sonegam. Deixamos de arrecadar 40 bilhões de pesos por causa da sonegação. No meu governo, quem não pagar impostos vai para a cadeia.
DINHEIRO ? Qual o futuro do Mercosul?
Kirchner ? Quero um Mercosul integrado e igualitário. Em termos filosóficos, a integração sempre foi uma aspecto do qual nunca abrimos mão. O Mercosul ainda é jovem, mas com perspectivas de crescimento ilimitadas. Há quem queira uma integração meramente econômica. Há também aqueles que desejam ir além disso e buscam salientar o aspecto político-social, como acontece hoje na União Européia. Eu me incluo neste segundo grupo.
DINHEIRO ? O que é mais importante para a Argentina:
a Alca ou o Mercosul?
Kirchner ? O Mercosul é o melhor caminho. Assim teremos mais força na hora de negociar com os outros blocos.
DINHEIRO ? Como o senhor avalia o governo Lula?
Kirchner ? Ele gerou uma enorme expectativa não só para o Brasil mas para toda a região pela importância que tem a maior economia do continente. Creio que com Lula, Lagos e com todos os outros presidentes da região poderemos construir uma aliança política para que os latino-americanos voltem a ter força no cenário mundial. A força do governo Lula na Argentina vai estar ligada a seu desejo de impulsionar o Mercosul.
DINHEIRO ? Como o sr. pretende restaurar a confiança
dos investidores?
Kirchner ? Para reconquistar a confiança externa, a economia argentina precisa ter rumos definidos. Não dá mais para improvisar. Num dia decidimos dolarizar a economia e no outro que manteremos um dólar flutuante. Mesmo que eu erre e receba críticas, quero que os argentinos tenham certeza de uma coisa: acabou a improvisação. Temos de criar um contrato social equitativo. Só isso trará confiança aos argentinos e àqueles que queiram investir aqui.
DINHEIRO ? Como se renegociará a dívida?
Kirchner ? Não defendo a moratória nem pagar a dívida com a miséria do povo. A melhor política é aquela que permita manter um modelo de crescimento. Para isso, vamos alongar os títulos da dívida. Um governo legítimo deve seguir os princípios de negociação e mostrar seriamente que a economia, em seus primeiros anos, tem pouca ou nenhuma possibilidade de pagar a quantia desejada pelo FMI.
DINHEIRO ? Como ficarão as relações com o FMI?
Kirchner ? Eu pergunto: podemos cumprir nossos compromissos no exterior sem nos destruirmos? O senso comum diz que o credor só receberá seu pagamento se quem deve não morrer. Não podemos mais pagar a dívida à custa da fome e da exclusão dos argentinos. Jamais pagaria a dívida externa sem dar antes sustentabilidade à Nação.
DINHEIRO ? Existe risco de volta da hiperinflação?
Kirchner ? Não. Garanto que haverá uma admnistração pública racional. Em Santa Cruz, durante os 12 anos de meu governo sempre houve superávit fiscal sem penalizar o sistema produtivo.