N a última edição da Eletronic Entertainment Expo (E3), a maior feira de games do mundo realizada nos EUA dias atrás, um estande chamava a atenção pela quantidade de espectadores reunidos à espera de novidades. A expectativa para a apresentação da empresa japonesa Nintendo girava em torno do novo console da marca: o Wii. Mas o show particular de uma famosa figura roubaria a atenção dos aficionados por videogames. Logo que as cortinas se abriram, Shigeru Miyamoto, o designer de games que mostrou à Nintendo o caminho do sucesso, protagonizou uma entrada triunfal. Em punho, o joystick do Wii, que tem um avançado sensor de movimentos, fazia as vezes de uma batuta enquanto Miyamoto, vivendo um dia de maestro, regia a trilha sonora orquestrada de um de seus maiores sucessos, o The Legend of Zelda, que teve mais de um milhão de cópias vendidas nos EUA de sua primeira versão lançada em 1987. Foi essa irreverência e a genialidade que transformaram Dr. Miyamoto, como é conhecido entre os fãs, em um dos maiores ícones de uma indústria que movimentou US$ 27 bilhões em 2005. No currículo, inúmeros prêmios e até mesmo um título de cavaleiro francês concedido pelo Ministério da Cultura da França em reconhecimento ao seu apoio às artes. “Ele é, sem dúvida alguma, a grande inspiração dos desenvolvedores e um guia do setor”, diz Marcelo Carvalho, presidente da Associação Brasileira de Games, a Abragames. “É um mix de criatividade e experiência”. Sua imaginação é fértil e voa como a de uma criança. Com personagens cativantes e cenários coloridos, Miyamoto despertou idolatria entre os fanáticos por vídeogames ao inaugurar o estilo de jogos baseados em enredo. De suas mãos, saíram, além de Zelda, nada menos que o baixinho bigodudo Mario Bros, considerada a maior de suas invenções, Donkey Kong e Pokemón. “Shigeru é tão importante para os games como Salvador Dali para a arte. Ele é um precursor do que conhecemos hoje”, acredita Ivan Cordón, consultor na área.

Nascido no interior do Japão e formado em Desenho Industrial, Miyamoto começou sua carreira na Nintendo em 1977, aos 24 anos, convidado por Hiroshi Yamauchi, um amigo de seu pai que logo soube reconhecer seu talento. Fã de música – entre seus ritmos favoritos o brasileiro se destaca – esse japonês de 53 anos, casado e pai de dois filhos, coleciona instrumentos musicais e ocupa seu tempo livre tocando guitarra, cuidando do jardim e fazendo pequenos consertos em sua casa. Contrariando o óbvio, Miyamoto não joga vídeogame nas horas vagas. O máximo a que se dispõe é passar vinte minutos – de vez em quando – testando os consoles e jogos da concorrência. E foi num desses testes que acabou se rendendo à concorrente Sony. “O PlayStation é uma das maiores inovações do mundo dos games”, revelou certa vez. “Depois dos gráficos em 3D lançados com o Nintendo 64”, tratando de fazer seu lobby na seqüência. Seu grande sonho atual é que os jogadores não tenham mais que se prender à televisão para desfrutar da diversão dos vídeogames. Para Miyamoto, a alegria estará completa quando os jogos forem refletidos em uma parede inteira, por todos os cantos. “Meu negócio é criar tendências, não segui-las”, repete sempre. Os fãs acreditam e estão sempre atentos às próximas traquinagens.