27/10/2004 - 7:00
Uma nova expressão começou a circular entre engenheiros de montadoras de automóveis, diplomatas das grandes potências e operadores das bolsas de mercadorias de Londres e Nova York, onde são negociados todos os dias milhões de contratos de petróleo. É o ?etadólar?, palavra que mistura o etanol (álcool combustível) e a verdejante moeda americana. O termo causa alguma estranheza, mas evoca uma expressão que se tornou clássica nos anos 70: o petrodólar. Naquela época, o cartel de países árabes que domina a Opep provocou o primeiro grande choque nas cotações. Desta vez, com o petróleo batendo recordes históricos sucessivos ? o barril alcançou US$ 55 na quarta-feira 20 em Nova York ? os países ricos estão dispostos, cada vez mais, a buscar alternativas energéticas. E a escolha número um recai sobre uma solução tipicamente brasileira: a cana-de-açúcar. Daí o etadólar. ?O Brasil vem sendo apontado por muitos especialistas norte-americanos como a Arábia Saudita de amanhã?, disse à DINHEIRO Besaliel Botelho, vice-presidente da Bosch, empresa que desenvolveu os motores bicombustíveis ? rodam movidos a álcool ou gasolina. ?Estamos sentados em uma mina de ouro.? Além de autopeças, usineiros, indústrias de base e fabricantes de máquinas agrícolas já comemoram a virtual invasão de etadólares. ?Neste ano, a exportação de álcool vai adicionar US$ 800 milhões ao saldo comercial?, diz Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Unica ? União da Agroindústria Canavieira de São Paulo.
A retomada do álcool no mercado interno ocorre devido aos carros bicombustíveis, que nasceram há 18 meses e já representam 33% das vendas de zero km. Graças a isso, os usineiros prometem produção recorde de 13 bilhões de litros (contra 12,2 bilhões do anterior), dos quais 2 bilhões serão exportados. Exportar, neste caso, quer dizer também vender tecnologia. Que o diga a Bosch. ?Tenho feito uma viagem ao exterior por mês para expor nossa linha de peças com tratamento anticorrosivo para álcool?, diz Botelho. Que o diga também a Dedini,
que construiu 80% das usinas brasileiras e prevê dobrar o faturamento de R$ 400 milhões até 2007. ?Estamos participando de concorrências fora do Brasil?, diz Tarcísio Mascarim, presidente do grupo.
Esse ?porre de álcool? tende a crescer com novos acordos internacionais. Com o Protocolo de Kyoto, o mundo terá de reduzir em 25% as emissões de gás carbônico realizadas pelos motores a gasolina ? a adição de álcool soluciona a questão. Além disso, o petróleo em alta implica uma despesa extra de US$ 350 bilhões em dois anos para os países ocidentais. Por aqui, quem diria, as montadoras estão atentas. ?Toda a linha Volks terá motores flexíveis em 2006?, salienta Paulo Kakinoff, diretor de vendas. Até quem duvidava da tecnologia reviu conceitos. Há cerca de um ano, o presidente da Citroën no Brasil, Sérgio Habib, ridicularizou os bicombustíveis. ?É como o pato: não anda direito, não nada direito, não voa direito?, sintetizou. Hoje, eis o que Habib diz à DINHEIRO: ?Tive que engolir o pato. A Citroën lança
um carro flex em 2005?.
Nem o fantasma da crise de abastecimento, que engavetou o Proálcool nos anos 90, assusta os usineiros. Vinte novas usinas estão sendo erguidas em São Paulo. ?Vamos incentivar pecuaristas a criar confinamentos para abrir espaço ao plantio de cana?, diz Duarte Nogueira, secretário da Agricultura do Estado. Na falta de áreas que supram a demanda, os empresários procuram opções. ?Estamos construindo uma usina em Frutal (MG), com investimentos de R$ 127 milhões?, admite Maurílio Biagi, da paulista Crystalsev. Outras seis unidades estão sendo erguidas no Triângulo Mineiro. Segundo o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, as Parcerias Público-Privadas devem viabilizar a pavimentação de 250 km de estradas na região. Isto é: os etadólares já rendem investimentos em infra-estrutura.
A indústria de base também comemora. É o caso da Dedini, que atua desde os anos 20 no setor. ?Nossa receita com álcool e açúcar é de R$ 200 milhões por ano, mas será de R$ 380 milhões em 2007?, ressalta Mascarim. Além dos pedidos em carteira de novas usinas, a empresa desenvolveu um sistema que dobra a produtividade de plantas já em operação. A DHR, sigla que identifica Dedini Hidrólise Rápida, extrai do bagaço da cana alguns açúcares não fermentados no processo natural. E isso vira… mais álcool. ?É como se déssemos a última espremidinha na laranja para ganhar mais suco?, diverte-se um usineiro. Outra fornecedora de insumos, a Zanini, enxerga à frente. ?O risco é desnacionalização das usinas, uma vez que o álcool é visto como grande alternativa energética para o mundo?, alerta Luiz Lacerda Biagi, um dos sócios da empresa.
Estima-se que a produção atual de 13 bilhões de litros saltará a 23 bilhões em 2010. ?Só o mercado interno vai absorver 20 bilhões?, aposta Pereira de Carvalho, ressaltando que os 3 bilhões restantes seguirão para o exterior. Cerca de 300 mil novos empregos somariam-se aos atuais um milhão de postos. Há cálculos ainda mais otimistas. Caso o Protocolo de Kyoto aponte a adição de 5% de álcool à gasolina, a demanda seria de 34 bilhões de litros. Isso exigiria a construção de 189 usinas, segundo a Dedini. Claro que nem toda a produção mundial de álcool vai sair do Brasil. Boa parte, sim. ?Não há outra matriz, como milho e beterraba, que seja tão eficiente?, explica o presidente da Unica. E o álcool foi o motivo da vinda ao Brasil do primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi há algumas semanas. ?O Japão pode estar prestes a abrir um mercado bilionário?, aposta Clayton Miranda, presidente da trading Coimex, maior exportadora deste combustível do mundo. Além disso, o mercado interno já garante ótimas notícias, como a que vem do setor de máquinas agrícolas. ?Dobramos as vendas de colheitadeiras de cana em 2004?, diz Persio Pastre, diretor da CNH, detentora da New Holland.
O momento é tão bom que até os ambientalistas estão mais simpáticos à cultura da cana. Isso porque a planta tem imensa capacidade de executar fotossíntese. A plantação de um hectare de cana gera no ciclo de um ano o excedente de oxigênio de 220 toneladas, mesmo considerando os poluentes gerados pelas queimadas. E, em alguns países, a demanda é crescente. ?Algumas regiões da China já adicionam 10% de álcool à gasolina?, revela Botelho, da Bosch, que exporta aos chineses as autopeças necessárias à degustação do álcool. A autopeça admite que o faturamento deve saltar de R$ 2,5 bilhões em 2003 para R$ 3 bilhões neste ano. As exportações também crescerão de 42% para 44%. Conseqüência direta das peças ?alcoólicas?? A Bosch não confirma. Nem desmente. Já a líder no Brasil de equipamentos ?flex?, a Magneti Marelli (69% das vendas de kits flexíveis) ainda não exporta, mas tem sido consultada. ?A adição de até 5% de álcool não requer peças com tratamento especial. Temos de torcer para que o mundo opte por um percentual maior, na casa de 10% a 15%?, explica o diretor Gino Montanari. Após a safra recorde de cana, a única ressalva em todo esse ciclo de riqueza vem sendo feita, oportunamente, pelos próprios criadores da tecnologia: os engenheiros brasileiros. Para Marco Saltini, diretor técnico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, o Brasil ganhará muitos etadólares. ?Mas há um prazo para isso. Dentro de vinte anos os carros serão movidos a pilha de combustível, que converte hidrogênio em energia elétrica?, explica. Traduzindo: a longo prazo, os motores a combustão interna estão com os dias contados. O Brasil, de fato, vai ganhar dinheiro. Mas é bom que comece logo. ![]()
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