30/12/2009 - 8:00

2009 não foi um ano fácil para Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve, banco central americano. Mas foi um ano bom. Ele comandou a economia americana na sua pior crise desde os anos 30 e evitou que o desastre da Grande Depressão se repetisse. Bernanke colocou trilhões de dólares no mercado, zerou a taxa de juros, ignorou a disparada do déficit orçamentário e foi escolhido pela revista Time como Personalidade do Ano, por ser “o ator mais importante guiando a economia mais importante do mundo”.
Mas agora que a economia americana saiu da recessão, o presidente do Fed precisa pagar as contas. Terá de reduzir os estímulos fiscais, cuidar da inflação e, em algum momento, elevar a taxa de juros. Sem dúvida, a coisa certa a se fazer. O problema é que, ao arrumar a casa, Bernanke pode ser obrigado a fazer um movimento no estilo do realizado por Paul Volcker nos anos 80, quando elevou os juros, mas quebrou o resto do mundo, endividado em dólar.
Uma mudança na política econômica americana, com atenção maior ao déficit público, pode vir num mau momento para o Brasil. Embora o fluxo de dólares ainda continue intenso, a cotação da moeda americana subiu de R$ 1,70 para R$ 1,78 na última semana.
A Bovespa, que passou dos 69 mil pontos no dia 15, operava no início da semana com menos de 66 mil pontos. O Banco Central, apesar das reservas de quase US$ 240 bilhões, prevê uma piora nas contas externas, com um déficit de transações correntes estimado em US$ 40 bilhões em 2010.
Será o maior desde 1947 e quase o dobro da projeção de US$ 22 bilhões para este ano. Por outro lado, o BC espera que o país receberá investimentos de US$ 45 bilhões. Valor, segundo o chefe do Departamento Econômico, Altamir Lopes, “mais do que suficiente” para financiar o déficit.
Analistas ouvidos pela DINHEIRO consideram pequenas as chances de uma mudança drástica na economia americana agora. Mas admitem que há riscos na mudança de uma política de emergência para uma política sustentável para o futuro. “Há dois riscos: ou aumentar os juros muito cedo e matar a recuperação ou elevar os juros muito tarde e permitir outro boom insustentável”, disse o economista Edwin Truman, que foi secretário do Tesouro e hoje é associado do Instituto de Economia Internacional, em Washington.
“Se o Fed cometer um dos dois erros, será problemático para o Brasil: ou a economia americana não se recupera totalmente ou o mundo será inundado pela liquidez”, afirmou. O economista americano Bill Fleckenstein, autor do best-seller Greenspan’s Bubbles, The Age of Ignorance at the Federal Reserve (As bolhas de Greenspan, a era da ignorância no Fed), criticando o incentivo do Fed ao mercado de ações ao manter os juros baixos em toda a década de 90, diz que o Fed e o governo americano estão “fora de controle”.
“Eles se comportaram de forma tão irresponsável nos últimos anos que não têm opções boas. A única política será imprimir dinheiro e continuar com imensos déficits, que serão monetizados”, afirmou. Ele defende o fim do Fed e a volta ao outro padrão. Mas não acha que o Brasil será prejudicado quando o banco central americano elevar os juros. “Eles não vão elevar as taxas agora. E, quando o fizerem, isso não vai mudar o desejo de se investir no Brasil”, avalia.