As contas públicas de um governo são muito parecidas com a rotina financeira das famílias. Imagine que você administra uma casa onde, mês a mês, seus gastos são maiores do que suas receitas. Para cobrir o buraco, a solução é recorrer ao cheque especial. No começo, funciona, mas com o tempo os juros sobem tanto que você começa a trabalhar apenas para pagar o juro da dívida, sem conseguir tocar o dia a dia da casa.

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Guardadas as devidas proporções, é exatamente esse o drama que o Brasil vive hoje em suas contas públicas. Os números mais recentes mostram que a corda segue esticando – e se esse já é (e será) um dos grandes desafios do atual e próximo governo federal, independentemente de quem vença o pleito eleitoral de outubro de 2026.

Como o governo central é um dos maiores compradores e investidores da economia, seus passos afetam todo o cenário de juros e inflação.

O dado mais recente do Banco Central evidencia que entre janeiro e novembro de 2025 o governo central já gastou R$ 80,3 bilhões a mais daquilo que conseguiu arrecadar no mesmo período. Chamado de déficit primário, esse valor ainda não contabiliza os juros dos tais empréstimos contratados ao longo dos anos, que precisam ser pagos. Logo, o buraco é maior.

Apesar do rombo no acumulado do ano, contudo, o governo deve fechar 2025 dentro da meta fiscal definida, acreditam especialistas. Em 2024 e 2025, os primeiros anos após a aprovação do arcabouço fiscal, a meta foi de equilíbrio das contas (resultado primário com déficit zero) com margem de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB) para cima ou para baixo, o equivalente à cerca de R$ 31 bilhões.

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-Secretário da Fazenda de São Paulo, acredita na entrega do resultado dentro da meta, embora no limite inferior da banda. Para isso, contudo, algumas despesas deverão ser desconsideradas, no âmbito do que é permitido por legislação.

“Em nossa projeção, o déficit primário vai ser 0,6% do PIB. Isso vai permitir que a meta seja cumprida usando a banda inferior dela, retirando os precatórios que podem ser descontados”, disse o economista à IstoÉ Dinheiro. É uma estimativa em linha com a do Itaú, de acordo com o relatório mais recente do banco.

O economista-chefe da Warren Investimentos e ex-Secretário da Fazenda de São Paulo Felipe Salto

O que esperar para 2026

No ano à frente, contudo, o cenário é distinto. É que para 2026 o governo precisará buscar superávit conforme estabelece a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). “A expectativa é um déficit, em 2026, de 0,7% do PIB, o equivalente a R$ 92,4 bilhões, mas quando a meta é de um superávit de R$ 34,3 bilhões, com a banda inferior em zero”, continua Salto.

Outra projeção, desta vez feita por Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, vai em linha similar aproximada: é calculado um déficit primário de R$ 96 bilhões (0,7% do PIB), mesmo considerando o piso dela e os pagamentos não inclusos, de R$ 57 bilhões. Essa última cifra equivale às despesas que o governo pode retirar da conta do resultado primário porque há autorização legal – é o que o mercado financeiro muitas vezes classifica como “contabilidade criativa”.

A meta fiscal de 2026, na visão de Salto, precisará ser alterada e o tema deverá estar presente no primeiro relatório bimestral do Ministério da Fazenda. Já Rafaela, por ora, vê diferente.

“Não acreditamos em revisão da meta. A diferença pode ser em parte contingenciada, em parte com alguma despesa sendo excluída do cálculo, ou novamente com a busca de receitas extraordinárias, ainda não estimadas no orçamento”, escreveu a economista em nota enviada à IstoÉ Dinheiro. O Itaú projeta resultado primário negativo em 0,8% do PIB em 2026 no relatório mais recente.

Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter

Vale reiterar que o cenário de rombo nas contas públicas não é um resultado entregue apenas pela atual gestão. Ao longo da última década, o Brasil registra consecutivos déficits primários, ora maiores, ora menores, afetando seguidamente o ambiente econômico brasileiro. É que quando o governo gasta mal ou gasta mais do que arrecada, ele precisa pegar mais dinheiro emprestado no mercado. Como a dívida aumenta, o risco de não pagamento segue, e os investidores exigem juros maiores. Um governo “gastão”, ademais, afeta a política de juros do Banco Central.

Como o governo central é o motor da economia, ou seja, um dos maiores compradores e investidores do país, os seus movimentos também afetam a inflação, controlada pelo BC por meio da alta da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano, o que por fim castiga o consumo e o investimento no país todo. A expectativa é de início do ciclo de baixa de juros ainda no primeiro trimestre, já que a inflação está cedendo. O mais recente boletim Focus, publicado pelo BC a partir do recolhimento das expectativas dos agentes econômicos, indica inflação de 4,06% ao final deste ano. A meta é 3%.

Tentativa de controlar as contas

Para tentar conter essa sangria e se comprometer junto ao mercado financeiro, em 2023, a atual gestão propôs o arcabouço fiscal, aprovado pelo Congresso Nacional e roteiro de regras estabelecido na Lei Complementar 200. De forma resumida, a regra determina que o governo só pode gastar 70% daquilo que é arrecadado.

Caso não seja cumprida, o percentual de gastos no ano seguinte cai para 50% da receita. Mas nem todo gasto do governo entra nessa contabilidade. Existem exceções como gastos com desastres, despesas das universidades públicas, execução direta de obras e serviços de engenharia, entre outras. O problema é que essa lista de exceções tem crescido.

Um relatório divulgado em dezembro pela Instituição Fiscal Independente (IFI), o órgão técnico ligado ao Senado que funciona como um vigia das contas públicas, trouxe esse alerta. Nos primeiros anos de vigência do arcabouço fiscal, o governo gastou R$ 170 bilhões por fora das regras fiscais vigentes, mas que, ao mesmo tempo, são exceções que a própria lei já pressupunha.

“Estamos vivenciando uma fragilização do arcabouço por conta das excepcionalizações. Gasto é gasto, despesa é despesa. Do ponto de vista macroeconômico, o que importa é se está gerando déficit e dívida ou não. É aí que você tem um esvaziamento da credibilidade do arcabouço”, disse em entrevista à IstoÉ Dinheiro Marcus Pestana, diretor-executivo do IFI.

Marcus Pestana, diretor-executivo do IFI (Crédito:Carlos Moura/Agência Senado)

Na prática, esses gastos excepcionais funcionam como se houvesse uma contabilidade paralela, onde despesas com precatórios, aportes em estatais e gastos militares e com segurança, além de compensações para o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não entram no limite principal de gastos estabelecido pelo arcabouço fiscal. Mesmo assim, são gastos do governo.

No mercado financeiro e para muitos economistas já há clareza que a regra criada para segurar os gastos perdeu credibilidade. E mesmo diante do quadro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem demonstrado desconforto com a pressão dos agentes mercadológicos. Ele afirma que há falta de reconhecimento sobre os esforços feitos para organizar as contas.

“O arcabouço fiscal foi inspirado no sistema de metas inflacionárias, com as bandas pensadas para absorver choques externos, eventualidades não planejáveis e não para gastos. Precatório é totalmente planejável e não tem motivo para ser excepcionalizado. Com o orçamento cada vez mais engessado, criam-se essas válvulas, essas gambiarras e o arcabouço perde as suas funções básicas”, afirma Pestana, do IFI.

Para Felipe Salto, economista da Warren, fica cada vez mais clara a necessidade de discutir uma agenda estruturante para 2027, a ser definida ainda em 2026, sob pena de se perder mais tempo. “Independentemente de quem ganhe a eleição, essa agenda vai se impor. Vamos estar com uma taxa de juros ainda muito alta, a dívida vai continuar aumentando e, também, um déficit muito grande. A realidade vai se impor e algum ajuste fiscal no primeiro ano vai ter que ser feito”, disse Salto.

Haddad reconhece essa necessidade. Em um café com jornalistas, o ministro disse que o governo precisará promover novas reformas econômicas a partir de 2027 para garantir a sustentabilidade das contas públicas, e que o atual arcabouço fiscal pode passar por “aprimoramentos”. Mas ele reforça que não há razão para alterar sua estrutura central.“Vamos fixar uma meta exigente, demandante, mas possível de cumprir. É assim que estamos reconstruindo as contas públicas”, reforçou.

A conclusão de especialistas em contas públicas é que não há mais espaço para “puxadinhos” contábeis ou aumento de impostos, já que o brasileiro paga uma das maiores cargas tributárias do mundo entre países em desenvolvimento. O ajuste fiscal tornou-se inevitável. Mais cedo ou mais tarde, o governo terá que encarar a realidade de que não se pode gastar o que não tem.

Se o dever de casa não for feito agora, de forma planejada, ele virá depois, de maneira muito mais dolorosa para o bolso da população – por meio de maior inflação e menos oportunidades. O relógio está correndo, e a conta, como sempre, acaba chegando na mesa do consumidor.