Antes de começar a ler, volte rapidamente para a página anterior e observe o sujeito da foto. Seu nome é Cleber Marques de Paiva, e ele já pesou mais de cem quilos, 103 para ser mais preciso. Pois é, nada a ver com o homem de silhueta saudável e disposta, sentado descontraidamente em frente a seu jato particular, um Citation II de US$ 4 milhões. Sessões diárias de musculação e uma cuidadosa reeducação alimentar queimaram as gorduras e o levaram aos atuais 74 quilos. Mas houve outro fator decisivo para a redução do peso. Paiva era uma pessoa ansiosa, e a quantidade de comida em seu prato se avolumava na mesma medida em que os problemas profissionais cresciam. E há sete anos, problemas não faltavam para ele. Paiva e seu irmão mais velho, Otávio, estavam pendurados em bancos com uma dívida de US$ 60 milhões. Para sair do enrosco, contavam apenas com uma exportadora de café, desativada há um ano. ?Precisávamos gerar receita para pagar a dívida, mas tínhamos que começar do zero?, recorda Paiva.

Desde então, a vida tornou-se mais leve para Paiva. As dívidas foram pagas e caíram para cerca de R$ 10 milhões. As vendas externas de café explodiram, e hoje a trading dos irmãos, a Exprinsul, é responsável por 12% de todo o café exportado pelo Brasil. Os Paiva aproveitaram a maré favorável e partiram para a expansão de seus negócios. Compraram duas fazendas, onde plantam dois milhões de pés de café. Também criaram a primeira estação alfandegada do País ? uma espécie de zona franca, onde as empresas guardam suas mercadorias até que possam importá-las ou exportá-las. A cada ano, circulam por ali cerca de US$ 2 bilhões em produtos. Com isso, o faturamento do grupo atingiu US$ 150 milhões em 2002. Assim, Cleber recuperou o título de barão do café. ?Temos excesso de liquidez?, comemora Cleber.

No caixa do Unecom, a holding dos Paiva, estão guardados em dinheiro vivo R$ 32 milhões para investimentos. A maior parte do dinheiro será direcionada para dois projetos. Um deles atende pelo nome pomposo de condomínio industrial alfandegado. Traduzindo: em uma área de 1,3 milhão de metros quadrados, colada ao aeroporto de Varginha, indústrias de diversos setores instalarão linhas de montagem. Elas poderão importar componentes e deixá-los guardados até o momento de utilizá-los. Enquanto isso, não precisam pagar o imposto de importação ? caso a produção tenha como destino o mercado externo, estarão isentas de arcar com esse tributo. Mais de 100 companhias devem erguer seus galpões no local. Somados, os investimentos devem atingir R$ 500 milhões.

O segundo projeto acaba de sair do forno. Junto com outros 17 produtores da região, os Paiva criaram o Consórcio Agrícola de Fazendas Especializadas (Cafe). O objetivo do grupo é exportar o melhor café do sul de Minas para os mais exigentes mercados consumidores do mundo, os EUA, a Europa Ocidental e o Japão. O preço desse produto pode atingir três vezes a cotação média, hoje na casa dos US$ 50 a saca. Para se ter uma idéia do potencial: recentemente, a Exprinsul fechou um contrato com a rede americana Dunkin Donuts para a venda de 640 sacas. Cada uma rendeu mais de US$ 150. ?Esses consumidores estão nas mãos dos produtores da Colômbia e da República Dominicana?, diz Vanúsia Nogueira, superintendente da Cafe. A montagem do Cafe consumiu dois anos de trabalho de Paiva. ?Cada detalhe foi discutido exaustivamente?, conta ele. O receio de precipitação é uma herança do período de dificuldades que marcou a história dos Paiva em anos recentes. Até o final de 1994, o clã vivia confortavelmente instalado no mundo do café ? trajetória iniciada pelo avô de Cleber, um trabalhador rural que comprou seu primeiro pedaço de terra ainda nos anos 50. Com o tempo, novos negócios foram sendo incorporados pela família, além das fazendas em Varginha e arredores: uma torrefação de café, Café Bom Dia, e uma exportadora. As coisas caminhavam tão bem que o pai de Cleber, Adauto, deixou tudo nas mãos dos filhos e foi viver em sua ilha no litoral do Rio de Janeiro.

Cerveja demais. Veio o Plano Real e, com ele, uma tremenda oportunidade. As alíquotas de importação de cerveja caíram para 2%. Melhor, faltava produto nos bares e supermercados. A família importou 2,2 mil contêineres de cerveja dinamarquesa Fax. Antes de colocar uma lata sequer dentro do País, o governo mudou de idéia, e a alíquota foi elevada para 70%. Nos galpões e pátios de suas empresas, os Paiva estocaram o equivalente a US$ 70 milhões de louras. ?Não dava para beber tudo?, brinca Otávio. ?Fomos obrigados a vender por preços baixíssimos.? Sem dinheiro, foram buscar socorro nos bancos. Fim da linha: em um ano, o grupo entrou em concordata, sufocado por dívidas de US$ 100 milhões. Adauto, o pai, interrompeu o retiro na ilha e retornou. Enquanto tentavam superar as dificuldades, a família decidiu dividir o grupo. Cleber e um dos irmãos, Otávio, ficaram com a exportadora e o maior pedaço da dívida,
US$ 60 milhões. Começou, então, a operação salvamento. Uma transportadora, com 243 veículos, foi passada adiante. O mesmo destino estava reservado a cinco fazendas de gado. Um dos aviões de Cleber também foi vendido.

Mesmo assim, faltava dinheiro. Foi quando apareceu José Geraldo Gurgel. Veterano executivo da área financeira, Gurgel, hoje com 56 anos, trabalhara durante 25 anos no BFB, o braço brasileiro do francês Crédit Lyonnais. Depois de quatro anos em Paris, ele chegou à presidência da filial brasileira, onde estava quando o banco foi vendido ao Itaú. Com essa experiência debaixo do braço, Gurgel sentou-se com cada banco credor da Unecom e renegociou prazos e valores da dívida. De um deles, o Unibanco, arrancou US$ 10 milhões para capital de giro. A situação estava quase sob controle, mas os irmãos Paiva contaram com uma ajuda com a qual não esperavam ? uma ajuda e tanto. O preço da saca de café no mercado internacional bateu em inacreditáveis US$ 300. A desvalorização do real, em 1999, terminou o trabalho de recuperação do grupo. Hoje, as dívidas somam R$ 10 milhões.

Gurgel foi bem recompensado. No redesenho dos negócios, levou 15% de participação acionária. O restante é dividido entre Otávio e Cleber. Gurgel também foi responsável pela mudança no estilo de vida dos dois irmãos. No primeiro dia de trabalho, ao meio-dia, ele levantou-se e disse: ?Vamos almoçar?. Cleber sugeriu que eles pedissem sanduíches e continuassem trabalhando. ?Esses dias na empresa acabaram?, disse Gurgel. Desde então, o ambiente na empresa se transformou. As luzes nos escritórios da Unecom apagam-se às 18 horas, religiosamente. Uma sala de ginástica, pequena mas bem aparelhada, foi instalada ao lado das salas de Cleber e Otávio. Todos os dias, antes de dar início à jornada, os dois malham durante uma hora. Os funcionários não podem vender suas férias, devem aproveitá-las. O exemplo, nesse caso, vem de cima. Todos os anos, em julho, Cleber, a mulher e o trio de filhos embarcam no Citation II e vão esquiar no Chile. Cleber aproveita essas ocasiões para praticar seu passatempo predileto: pilotar aviões. Além do Citation, ele possui mais duas aeronaves. Empresário, vai transformar a pequena frota no embrião de uma escola de pilotagem.

Otávio é mais pé no chão ? chão selvagem, diga-se. Campeão brasileiro de enduro eqüestre, mantém uma fazenda onde cria
cavalos próprios para essa competição. ?Em certas provas, já conquistei os três prêmios possíveis: melhor cavaleiro, melhor
criador e proprietário do cavalo campeão?, gaba-se ele. Mesmo
assim, os dois irmãos não gostam de falar em boa fase. ?Com o café a US$ 50??, queixa-se Cleber, só para confirmar a origem mineira e reafirmar o título de barão do café.