20/02/2008 - 7:00

NEELEMAN, DA JETBLUE: empresário sonda a Pantanal e TAF para iniciar seu império
Magnata do setor aéreo nos Estados Unidos, o empresário brasileiro David Neeleman sofre de um transtorno também chamado de “mal dos gênios”: o distúrbio de déficit de atenção, ou DDA, doença caracterizada por uma grande dificuldade de concentração. E, segundo a história, prodígios como Einstein e Da Vinci compartilhavam dessa mesma falta de foco. Mas, contrariando a ciência, Neeleman parece estar, nesse momento, muito concentrado. Filho de norte-americanos e nascido no Brasil, criou o maior case de sucesso do céu ianque, a empresa aérea JetBlue, pioneira em vôos que unem tarifas baixas e algum conforto. Afastado da presidência da empresa desde 2007, o empresário, que é mórmon, quer curar a ociosidade voltando às origens. Está no Brasil comprando 36 aeronaves da Embraer para lançar aqui uma nova companhia aérea. Terá chegado a hora de, finalmente, TAM e Gol apertarem os cintos?
A Embraer não confirma, mas também não nega. Neeleman coletou US$ 200 milhões com fundos de investimento no exterior e veio especialmente para arrematar os 36 aviões E-190, com capacidade para 100 lugares, além de mais 38 opções de compra. Antigo cliente, ele já adquiriu 101 aviões do mesmo modelo para a JetBlue desde que a companhia americana foi criada, em 1998. No entanto, isso não significa que a marca JetBlue venha para o Brasil. Como é brasileiro, Neeleman pode abrir uma empresa sem ter que se adequar à lei que reduz a 20% a participação estrangeira no segmento de aviação. E, para tornar esse processo ainda mais rápido, quer comprar uma pequena companhia aérea nacional somente para obter o Certificado de Homologação de Empresa de Transporte Aéreo, o Cheta. Se fosse criar uma nova, teria que esperar um ano para receber a certificação e poder voar. Fontes do setor ouvidas pela DINHEIRO apostam na Pantanal e na TAF, de Fortaleza, como alvos de Neeleman. BRA e Vasp foram descartadas por ter muitas dívidas.
Se seguir a mesma dinâmica da irmã “gringa”, a companhia brasileira do empresário oferecerá não só tarifas mais baixas que as concorrentes, mas também poltronas de couro, monitores individuais com TV a cabo e maior espaço para as pernas. A Gol, pioneira em baixo custo no Brasil, é o principal alvo de críticas de Neeleman. Quando esteve aqui em 2005, reclamou do alto lucro da empresa de Constantino, e afirmou que, enquanto a brasileira cobrava US$ 100 a cada 600 km voados, a JetBlue recebia o mesmo por 2.000 km. “É um setor competitivo e a chegada de uma empresa com o histórico da JetBlue não será bem-aceita pelas competidoras. Ninguém quer uma empresa com os resultados da JetBlue como concorrente”, analisa Gianfranco Beting, consultor de aviação comercial.
Assim como qualquer bom empreendedor, a trajetória de Neeleman não é convencional. Nasceu em São Paulo, em 1959, quando seu pai trabalhava como correspondente da agência de notícias United Press International (UPI). Aos cinco anos, voltou com a família para os Estados Unidos e só retornou ao Brasil aos 19, como missionário mórmon. Passou dois anos coletando fiéis no Nordeste. Nos Estados Unidos, é celebridade do mundo dos negócios e já foi personagem de cenas do seriado Os Simpsons. Foi afastado da presidência da JetBlue em maio de 2007, após uma crise ocorrida durante uma nevasca. Antes de sair, Neeleman, que até hoje representa a imagem da JetBlue e atua no conselho administrativo, postou em seu blog no site da empresa: “Pensar no próximo grande negócio para a JetBlue é a minha especialidade, e ela precisa de mim para concretizar isso”. Estaremos nós nos planos da nova grande jogada azul?