Deveria ser uma data festiva: 100 anos de Brasil. Mas às vésperas de apagar as velinhas de um século de existência ? a ser completado no início de 2003 ?, a Souza Cruz também terá de apagar um incêndio que vem queimando suas vendas no setor de cigarros. Os fabricantes ilegais já representam um terço do mercado brasileiro. Para dar a dimensão do problema, Flávio de Andrade, presidente da empresa, revela um fato que poucos conhecem. Há algumas semanas, a paraguaia Boqueron Tabacaria conseguiu na Justiça daquele país a patente do cigarro Derby ? marca que detém 39% das vendas no Brasil. A Boqueron já produziu milhares de maços em português. Andrade não tem dúvidas: o Derby paraguaio vai ser vendido no Brasil e sem pagar impostos.

Para enfrentar a indústria do contrabando, a Souza Cruz montou uma equipe que se dedica a tentar barrar na Justiça de lá o avanço dos competidores ilegais por aqui. A empresa também chegou a abrir mão temporariamente da lucratividade do Derby (entre dezembro de 2000 e setembro do ano passado). Baixou o preço do cigarro de
R$ 1,10 para R$ 1,00. ?Trabalhamos no limite com o Derby, o mínimo para não termos prejuízo?, conta Andrade. Estudos da empresa mostram que em 2001, cerca de 50 bilhões de cigarros vendidos no Brasil vieram do mercado informal, o que significou evasão de
R$ 1,5 bilhão em impostos. Segundo o executivo, o maior desafio da Souza Cruz hoje não vem da nova e rígida legislação de fumo brasileira, que além das fotos nos maços obrigou a redução dos níveis de alcatrão e nicotina. ?O contrabando é o meu maior concorrente.?

Com a proibição de publicidade de cigarros, a empresa busca alternativas. Andrade montou um grupo que chama de ?laboratório de idéias?. A empresa pretende usar o marketing direto, seja através de cartas ou telefone. ?Nosso objetivo é falar direto com cada um dos 33 milhões de fumantes do País?, explica Andrade. A idéia do executivo é usar o marketing direto para divulgar o lançamento de produtos e, entre outras coisas, mostrar ao consumidor como diferenciar os produtos legais dos piratas.

Para comemorar os 100 anos, a Souza Cruz vai inaugurar, em abril de 2003, uma nova fábrica de cigarros em Cachoeirinha (RS). Com investimentos de R$ 400 milhões será a quinta planta da empresa no País. Andrade prevê que em 2002 as receitas empatem com as do ano passado. Em 2001, foram vendidos 87 bilhões de cigarros, crescimento de 6% em relação ao ano anterior. O lucro líquido atingiu R$ 634,4 milhões, alta de 28% em comparação com o resultado de 2000. A empresa ainda é disparada a líder do mercado nacional, com 79,6% das vendas que pagam imposto. No geral, a liderança cai para 57% , com as marcas ilegais em segundo, com 35%.