Um pacote para aumentar as exportações brasileiras chega ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima quarta-feira 31. Será entregue em mãos pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan. Nele vai embalada uma meta ambiciosa, a de crescimento de 10% sobre a marca de US$ 60 bilhões alcançada em 2002 pelas vendas externas brasileiras. Simplificações na legislação tributária ou reduções de impostos não estão entre os seus itens. Em compensação, envolverá um completo cruzamento de informações entre a pauta de importações dos países que compram produtos brasileiros com o mapa das vendas nacionais para o exterior. O sistema foi batizado de ?radar comercial?, cuja intenção é descobrir exatamente onde se pode vender mais e o quê. ?Mesmo se houver deterioração no quadro internacional, estou convencido de que temos todas as oportunidades para alcançar a meta de vender mais 6 bilhões de dólares em produtos este ano?, afirmou Furlan à DINHEIRO na terça 21. ?Com inteligência comercial, nenhum empresário irá oferecer produtos para mercados saturados ou deixar de explorar regiões em que há forte demanda para o que ele tem a oferecer.? Dentro do ministério, onde o pacote vai sendo montado sob sigilo por técnicos escolhidos a dedo pelo ministro, os primeiros cruzamentos de informações já começam a surgir. É neste ponto que a teoria da inteligência comercial se transforma em instrumento para a prática da exportação. E ganha sentido. Furlan já sabe, por exemplo, que o Japão gastou US$ 223,7 milhões com a compra de aviões e veículos aéreos em 2001, ano em que não houve nenhuma venda brasileira neste setor. No mesmo ano, mais US$ 1,2 bilhão foi gasto pelo país com a importação de soja, um dos principais produtos da pauta brasileira de exportações. Desse bolo, porém, o Brasil ficou com uma fatia de apenas US$ 137 milhões em vendas. A maior parte dessas exportações foi feita pelo Grupo Maggi, pertencente ao atual governador de Mato Grosso, Blairo Maggi. Ele não tem dúvidas de que o radar está bem sintonizado. ?Os japoneses são difíceis de fazer a primeira compra, mas uma vez feita eles adquirem confiança e abrem gradativamente seu mercado?, afirma Maggi. ?É briga, temos de morder a fatia que hoje pertence aos americanos, mas é possível. Furlan está atuando no rumo certo.? Para a Rússia, que comprou de todo o mundo em 2001 US$ 9,9 milhões em suco de laranja, o Brasil exportou apenas US$ 13 mil. Se aí existe campo para ampliação das vendas, o mesmo não se pode afirmar sobre o mercado de frangos. Os russos importaram US$ 47,9 milhões dos quais US$ 44,7 milhões foram comprados do Brasil. ?Temos praticamente todo o mercado, não há muito para onde crescer ali?, diz o auxiliar do ministro.

Outro ponto central do pacote é a dinamização da Apex ? Agência de Promoção de Exportações. Para lá, o ministro indicou um de seus homens de confiança, o empresário Juan Quiros. Ambos foram colegas de diretoria na Federação das Indústrias de São Paulo, e agora voltaram a se reunir. Desde a sua fundação, em abril de 1998, a Apex já encaminhou quase 400 projetos de exportações de produtos brasileiros. Patrocinou, só em feiras no exterior, mais de 169 eventos. Um movimento no qual fez girar cerca de US$ 800 milhões, dos quais US$ 370 milhões saídos diretamente de seus cofres. Por determinação do ministro, Quiros tem de guardar silêncio antes de todo o plano pousar sobre a mesa do presidente Lula. Sabe-se, porém, que ele fará uma aposta radical no incremento de missões comerciais brasileiras ao exterior. ?O ministro e sua equipe conhecem o caminho das pedras?, diz o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro. ?Se ele está falando que é possível aumentar as exportações é porque está seguro disso.?

Vista no detalhe, a meta de aumento de US$ 6 bilhões nas exportações não parece um sonho impossível. ?Vou dobrar minhas vendas externas este ano?, garante a empresária Sonia Hess, presidente da companhia Dudalina, maior exportadora de camisas do País. Com foco nos mercados europeu e americano, a empresa vendeu no ano passado US$ 1,5 milhão. ?Se a palavra de ordem no ministério é inteligência comercial, vamos seguir por aí. Confio inteiramente que o ministro fará um belíssimo trabalho.?

No campo político de sua nova atividade, ao menos, o ex-presidente da Sadia está mostrando que aprende rápido. Atento ao exemplo do ex-ministro Alcides Tápias, que se desgastou no cargo pedindo aos quatro ventos uma reforma tributária sempre boicotada pelo Ministério da Fazenda e a Receita Federal, Furlan está agindo noutra direção. Ninguém o verá trombando com o ministro Antônio Palocci, da Fazenda, ou com o secretário da Receita, Jorge Rachid. ?Não seremos os primeiros a desfraldar a bandeira da reforma?, avisa um dos interlocutores mais freqüentes do ministro. O próprio Furlan parece saber bem qual é o seu instrumento na orquestra do governo. ?Estou aqui para buscar convergências, não diferenças?, assinala, deixando para Palocci o lugar de solista. Por isso, em lugar de soltar torpedos contra a área econômica, ele tem privilegiado contatos diretos com os ministros da Agricultura, Roberto Rodrigues, e das Relações Exteriores, Celso Amorim. Noutra ponta, reforça seus laços diretamente com o Palácio do Planalto. Na terça 21, na dúvida entre esperar o dia seguinte para mandar um documento para o secretário de Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, ou passar um fax, determinou que seu motorista levasse os papéis na mesma hora. ?Isso impressiona mais?, confidenciou.

A política de não criar atritos desenvolvida por Furlan não significa que ele não venha a ter um papel central quando o assunto reforma tributária entrar na pauta do governo. O ministro é adversário da cobrança de impostos em cascata e a favor da desoneração das exportações. Espera, apenas, que a discussão se inicie para dar suas opiniões. É assunto, porém, para o ano que vem. ?O momento agora é o de ser mascate?, resume Furlan.