22/11/2006 - 8:00
Quinze dias depois do ?apagão aéreo?, o caos nos aeroportos ainda não tem data para ser resolvido. Ao longo da quinta-feira 16, a Infraero corrigia, de hora em hora, o percentual de vôos atrasados, sempre para cima. Até que, no final da tarde, um de cada cinco vôos estava fora do horário. A média da semana ficou na proporção de dois para cinco. E o governo, onde estava? Se estivesse voando, estaria atrasado ? e sem piloto. Em vez de unidade na crise, o que se viu foi uma guerra interna entre todos os setores que deveriam resolver o problema. Ministério da Defesa, Comando da Aeronáutica, Infraero e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) não se entendem. E até agora ninguém sabe quem efetivamente irá tratar dessa questão. O ministro da Defesa, Waldir Pires, está com os dias contados. Sua atuação foi considerada ruim durante a crise da Varig e ainda pior no episódio do desastre do vôo 1907, da Gol. Por isso, o presidente Lula já definiu que ele não fica num segundo mandato. Por sua vez, o comandante da Aeronáutica, Luiz Carlos Bueno, já caiu. Só espera a exoneração no Diário Oficial. Mas seu último gesto foi bizarro. Bueno decidiu ?aquartelar? os controladores e colocou os sargentos de plantão nas primeiras 24 horas, dormindo no Cindacta 1, em Brasília. Ao todo, 149 sargentos cumpriram escala e só saíram, na quarta-feira 15, porque Bueno acreditou que o tráfego estava normalizado. Como se viu, não estava.
Enquanto a Defesa e o Comando da Aeronáutica estão quase acéfalos, o presidente da Anac, Milton Zuanazzi, vive alheio à crise. Em meio ao caos, licitou novos slots em Congonhas, São Paulo, como se o aeroporto mais movimentado do País pudesse comportar mais tráfego aéreo. Zuanazzi decidiu vender 30 slots num aeroporto que só comporta 38 movimentos por hora e que, depois da venda, passou a ter 43 movimentos nos horários de pico. A operação ocorreu pouco antes de a agência ter de explicar por que usou 1,4 mil passagens grátis por mês ? é mais do que o dobro do que usava o antigo Departamento de Aviação Civil (DAC). O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, não quer se envolver em confusão, porque é candidato à vaga de Bueno. Mas Lula também está irritado com o chefe da Infraero, por ter emendado o feriado do dia 2 de novembro, desligado o celular e ainda dado folga para todos os servidores naquela sexta-feira fatídica. Ao que tudo indica, nenhuma das autoridades ligadas ao setor aéreo deles sobreviverá à reforma ministerial de dezembro.
Até agora, o apagão aéreo tem custado caro ao País. As companhias aéreas calculam prejuízos diários de R$ 4 milhões e serão ressarcidas. Mas, segundo a Infraero, o ?apagão? permitiu que surgisse um novo problema. Muitas empresas acabaram cancelando vôos não-rentáveis. Somente na quinta-feira cerca de 30 foram cancelados. O presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Proteção ao Vôo, Jorge Botelho, acusa as aéreas de cancelar vôos para fazer rotas mais econômicas. Além disso, há membros do governo que querem privatizar o sistema de controle aéreo. Fontes indicam que a multinacional francesa Thales International já estaria interessada. A empresa é responsável pelos radares e centros de controle de tráfego aéreo que operam na maior parte do território brasileiro. É a mesma Thales (ex-Thomson-CSF) que, em 1970, vendeu radares do Cindacta I para o Brasil, e em 2001 fechou um contrato de US$ 120 milhões para modernizar os radares de 30 anos atrás. Mas ninguém tem certeza de que isso resolverá a crise. ![]()