16/08/2006 - 7:00
O professor Yoskiaki Nakano, diretor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, é um homem discreto instalado no centro de uma polêmica. Ex-secretário da Fazenda de São Paulo, acadêmico consagrado, ele tem defendido um projeto para a economia brasileira que nada tem a ver com aquilo que o governo pratica e o mercado defende. É o chamado Plano Nakano, pensado para fazer o Brasil crescer ?pelo menos? 5% ao ano. Com ele, o tímido professor de economia converteu-se, aos 59 anos, em improvável iconoclasta. E objeto de discussão eleitoral. Já circula entre banqueiros a expressão ?risco Nakano?, associando seu plano à candidatura de Geraldo Alckmin, do PSDB. Nakano diz a quem quiser ouvir que não fala pelo candidato, mas o candidato, vira e mexe, o cita como fonte de suas idéias econômicas. E se Alckmin não decolar nas pesquisas? Nesse caso, restará Guido Mantega. O ministro da Fazenda foi colega de Nakano na GV e tem simpatias declaradas pela aceleração do crescimento. Um é tucano e o outro petista, mas falam a mesma língua. Nakano evita dar entrevistas, mas conversa abundantemente com amigos e colegas de profissão – inclusive para queixar-se de que está sendo ?queimado?. Quando tenta resumir o espírito de seu projeto, diz mais ou menos o seguinte: o País precisa de políticas capazes de criar consenso. Elas têm de atender, simultaneamente, as demandas do setor financeiro, que exige estabilidade monetária e redução da dívida pública, e as necessidades do setor produtivo, que precisam de crescimento, emprego e renda. Isso é possível? ?Claro?, diz o professor. ?Todo mundo faz isso, menos nós.?
O câmbio é a variável essencial do Plano Nakano. O professor diz que ele determina a capacidade de competição global da economia brasileira. Nakano preocupa-se com a ?devastação? que a China está fazendo na indústria brasileira e no Mercosul. Diz que o País está importando feijão, em prova evidente de ?desequilíbrio?. Lamenta que o câmbio esteja sendo usado para manter a ?inflação artificialmente baixa?. Para levar o real a patamares mais adequados, propõe duas coisas: ?equilibrar o fluxo de capitais? e implantar a ?flutuação administrada da moeda?. A primeira idéia é polêmica. Trata-se, diz Nakano, de impedir as entradas e saídas explosivas de capital, que arrebentam a economia. O mercado não quer ouvir falar nisso, mas o próprio Fundo Monetário Internacional admite que os controles de capital funcionam em determinadas situações. A outra idéia para o câmbio é a chamada flutuação suja. Diante da lembrança de que o governo tem tentado intervir no câmbio sem sucesso, os interlocutores de Nakano são lembrados de outro aspecto essencial da sua equação: a taxa de juro.
O juro alto atrai capitais especulativos que valorizam o real, acredita o professor. Se a taxa de juro cair, o real se desvaloriza. Mas como derrubar a taxa? Com uma política dura de controle de gastos públicos. Hoje, apesar do ?enorme desperdício?, o déficit do governo é de ?apenas? 3% do PIB. Se o governo produzir superávits nominais, mata dois coelhos: arruma dinheiro para investimentos e derruba drasticamente a relação entre dívida pública e PIB. Hoje, essa relação é de 50%. Os amigos de Nakano dizem que ela pode chegar a 30%. Em que prazo? Depende da disposição do presidente da República. Se uma lei obrigar o governo a produzir superávits em conta corrente, o mercado reagirá derrubando os juros. O professor da FGV sustenta que as taxas reais no Brasil podem ser iguais às dos Estados Unidos, mais um adicional de risco. O fiel dessa balança, claro, é a capacidade do governo de cortar gastos. Isso é raro no Brasil, mas ocorreu nas duas gestões de Covas em São Paulo, quando o ?japonês? era secretário da Fazenda. Em seis anos, o custeio caiu 30% em termos reais, com ampliação de serviços. Logo, parece possível. Se vai ser tentado, depende do sucesso do Nakano em vender seu plano. E da vontade do próximo presidente de fazer o País crescer.