11/04/2001 - 7:00
O futuro da Caixa Econômica Federal, o segundo maior banco da América Latina, já foi traçado. Na semana passada, DINHEIRO obteve com exclusividade as linhas principais do plano de reestruturação patrimonial da intituição, que vem sendo discutido sigilosamente dentro do governo. O banco está diante de duas alternativas. Uma delas é a cisão, com a transferência de R$ 50 bilhões para uma nova empresa, referentes a contratos de habitação fechados até 1994 e créditos de difícil recuperação. A outra solução é a segregação contábil desse passivo, que só acontecerá caso a assessoria jurídica do governo conceda um parecer desfavorável à hipótese de cisão. ?A segregação não é uma solução, nem um paliativo. É um outro caminho?, disse o presidente da Caixa Econômica Federal, Emílio Carazzai a DINHEIRO. A estratégia vai reduzir os ativos da Caixa de R$ 126 bilhões para R$ 72 bilhões. A queda, no entanto, terá duas compensações: o equilíbrio dos números do banco e o alívio nas contas do governo, principal acionista da instituição. ?A Caixa continuará comprometida com a sua missão (de executar políticas públicas), porém, tendo como norte absoluto o equilíbrio financeiro?, afirmou o presidente da CEF, há três semanas, durante encontro reservado com superintendentes, onde, pela primeira vez, abriu os novos planos do banco em uma apresentação, intitulada ?Trazendo o futuro a valor presente?. ?A massa velha se constitui um estorvo e deve ser segregada para posteriormente ser cindida?, acrescentou durante o mesmo encontro.
A cisão da massa velha seria, segundo Carazzai, a alternativa mais efetiva para o banco. Por esta hipótese, os R$ 30 bilhões relativos ao Fundo de Compensação das Variações Salariais, FCVS, e R$ 20 bilhões de outros contratos firmados pela Caixa seriam transferidos para uma nova empresa. Com a separação da massa velha e novas estratégias comerciais, a Caixa deixaria de lado uma montanha que gera um prejuízo anual de R$ 1 bilhão. A idéia, segundo o documento, é reverter o prejuízo de R$ 3,5 bilhões registrado com o carregamento de créditos problemáticos em 2000 para um lucro de R$ 1 bilhão com operações da ?Nova Caixa? em 2002.
A opção, no entanto, ainda esbarra em questões jurídicas. Na noite do último dia 10, Carazzai e seus diretores se reuniram mais uma vez com procuradores da Fazenda com o objetivo de encontrar alternativas para o assunto. Regras à parte, a questão tem a simpatia do próprio Carazzai, do Tesouro Nacional e do Ministério da Fazenda. Há justificativas para isso. Segundo a apresentação de Carazzai aos superintendentes, a massa velha, ou créditos problemáticos, ?não permite gerenciar facilmente o presente nem ver com clareza o futuro?. Isto porque ?consome a atenção gerencial da alta direção? e seu impacto na conta de resultados do banco ?desestimula a busca de eficiência no restante?.
Com a massa velha separada, ficarão três áreas dentro da ?Nova Caixa?: desenvolvimento urbano e saneamento, transferência de benefícios e serviços financeiros. Cada uma das áreas tem seus devidos problemas. Segundo documento obtido por DINHEIRO, a área de serviços financeiros, por exemplo, tem um baixo índice de venda cruzada, usa alternativas de alto custo para segmentos de baixo lucro e tem experiência incipiente com crédito comercial. A área de desenvolvimento urbano, por sua vez, tem ?alto custo, alta inadimplência e manutenção complexa?, além de ter novos empréstimos ?deficitários?. Por isso, a Caixa estuda alternativas para melhorar a lucratividade. Entre as estratégias comerciais está a criação de uma centralizadora de crédito. Seria uma divisão dentro da Caixa de administração de contratos imobiliários. Além de gerir contratos da própria Caixa, a divisão vai oferecer, pela primeira vez, esses serviços para outras instituições financeiras. É um projeto que seria feito em 18 meses e envolveria um equipe de 40 pessoas.
Esta semana, o presidente da Caixa deve entregar um documento contendo uma agenda com o futuro do banco, traçado em 14 pontos para membros do Conselho de Administração. O conselho é presidido pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, e tem como um dos membros o secretário do Tesouro, Fábio Barbosa. Depois da discussão do documento pelo conselho, o documento será encaminhado para o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e posteriormente para o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. A agenda que será discutida esta semana é resultado de um processo que começou em 1999. Naquele ano, o Banco Central fez uma fiscalização exaustiva na instituição e o conselho da Caixa pediu que um banco fizesse um diagnóstico da própria situação. Esse raio X foi finalizado em junho do ano passado e entregue ao conselho, Ministério da Fazenda e Banco Central. A partir daí, foi elaborada a agenda que será discutida esta semana. Agora, é esperar as mudanças.