MVNO. A sigla, desconhecida da maioria dos mortais, é a que mais tem sido pronunciada nos corredores da RBS, o maior grupo de mídia da Região Sul do País, ligado à Rede Globo. Foi assim na segunda-feira 11, na última reunião do conselho de administração, comandada por Nelson Sirotsky, o presidente da RBS, e Pedro Parente, o seu diretor-executivo, que foi chefe da Casa Civil no governo FHC. Na prática, significa Mobile Virtual Network Operator e, como o próprio nome indica, trata-se de um operador virtual de telefonia móvel. O plano MVNO da RBS, que vinha sendo mantido em absoluto sigilo, foi obtido com exclusividade pela DINHEIRO e prevê a entrada do grupo num novo nicho de atuação: o de telefonia celular. Nos três Estados do Sul, esse mercado já é muito disputado e atendido pelas gigantes Vivo, TIM e Claro. A diferença, agora, é que a RBS não seria apenas mais uma operadora, no sentido tradicional. Seria uma ?operadora virtual?, que compraria pacotes de minutos das telefônicas e revenderia, com uma marca própria, aos seus clientes. Procurados pela DINHEIRO, Sirotsky e Parente preferiram não comentar nada sobre o projeto, mas não negaram a informação. ?O plano faz todo o sentido para uma empresa como a RBS?, avalia Virgílio Freire, que é um dos principais consultores do País na área de telecomunicações. ?Tem grande chance de dar certo.?

Elaborado sob medida pela consultoria McKinsey para a RBS, o documento confidencial obtido pela DINHEIRO foi um dos últimos esboços do projeto, impresso exatamente às 17h48 do dia 3 de agosto. O documento diferencia uma operadora tradicional de uma MVNO. Enquanto a primeira tem de investir fortunas em operação de rede e infra-estrutura, como as antenas e as estações rádio-base, a segunda cuida apenas da interface com o cliente, fazendo o marketing do produto e também agregando novos conteúdos. Para uma empresa de mídia como a RBS, dona de 55 veículos de comunicação, entre jornais, rádios e emissoras de televisão, há duas vantagens óbvias. A primeira é a possibilidade de reduzir drasticamente o custo de divulgação com propaganda. A segunda é a capacidade de oferecer conteúdos exclusivos, como um pacote de notícias locais e os lances de um Grêmio e Internacional para torcedores fanáticos. Segundo a Mckinsey, ao firmar uma parceria com as operadoras móveis tradicionais para revender os minutos, a RBS conseguiria alavancar o valor dos seus ativos, como as marcas e o conteúdo jornalístico. Além disso, de acordo com os consultores, fortaleceria a sua ligação com públicos jovens, o que é estratégico para editoras de jornais que, a cada ano, vêem seu público envelhecer ? e essa é uma das questões que mais preocupam Sirotsky, o presidente da Associação Nacional de Jornais.

O modelo MVNO já foi testado em várias partes do mundo, mas o grande exemplo de sucesso é o da Virgin Mobile, criada em 1999 pelo bilionário inglês Richard Branson. Hoje, a empresa tem cinco milhões de clientes no Reino Unido, nos Estados Unidos, na Austrália e na África do Sul e já foi apontada várias vezes nesses países como a marca mais admirada no mercado de telefonia celular, mesmo sem jamais ter investido uma única libra em infra-estrutura de rede. Além disso, como a Virgin é também uma gravadora, ela tem facilidade para disponibilizar, em primeira mão, uma série de ringtones musicais aos seus clientes. Um outro sinal de que o valor da telefonia celular hoje está mais ligado ao conteúdo do que à engenharia foi a decisão anunciada pela Telecom Italia de se dividir em duas empresas: uma de banda larga e mídia e outra de infra-estrutura de telecomunicações (leia reportagem à página 24). ?É a prova de que a RBS caminha na direção correta?, diz Virgílio Freire. ?Há excesso de oferta de infra-estrutura e escassez de conteúdo de qualidade no celular.?

Na prática, o plano MVNO da RBS representa a volta do grupo gaúcho à área de telefonia. Em junho de 1998, quando a Companhia Rio-Grandense de Telecomunicações (CRT) foi privatizada, a RBS uniu-se à Telefônica e participou do consórcio vencedor. Meses depois, quando veio a privatização do Sistema Telebrás, a RBS pretendia oferecer um lance pela Brasil Telecom, mas foi traída pela decisão da Telefônica de adquirir a Telesp, o que fez com que a própria participação na CRT acabasse sendo vendida. Todos esses movimentos eram decorrentes da intuição da família Sirotsky de que haveria uma forte convergência entre mídia e telefonia celular. Pedro Parente, que conduziu algumas privatizações no governo FHC e chegou à RBS em 2003, também tem sido um entusiasta da idéia. Agora, depois de um forte crescimento do grupo, que viu o faturamento saltar de R$ 538 milhões para R$ 860 milhões entre 2002 e 2005, o projeto de entrar com tudo na telefonia finalmente amadureceu.