Em 1997, a Novartis, quinto maior laboratório do mundo, começou a perceber que o faturamento dos antiinflamatórios Cataflam e Voltaren, responsáveis pelo seu maior volume de vendas, vinha caindo. O movimento de queda continuou até em 2001. Ao calcular as perdas, a companhia somou uma baixa de 5% ao ano. Inicialmente, identificaram como responsáveis os similares (cópias não autorizadas de remédios patenteados) e, mais recentemente, há cerca de um ano e meio, os genéricos se revelaram os inimigos mais temíveis. Para responder ao ataque, decidiu entrar no campo do adversário. Deflagrou o plano com o lançamento de oito genéricos, mas quer estar distribuindo ao mercado, até o final de 2003, um total de 100 novos medicamentos. Serão três anos de fortes investimentos. Algo próximo a R$ 53 milhões gastos principalmente na montagem de uma linha de produção na fábrica localizada em Taboão da Serra (SP). De lá sairá uma parte da linha de remédios sem marca a partir de 2002. A maioria, porém, será importada de unidades como a austríaca Biochemie, indústria controlada pela empresa suíça. ?A tendência é um aumento firme na oferta de genéricos. Se não participarmos, perderemos espaço nesse mercado no Brasil?, afirma o diretor da divisão Novartis Genéricos, Paulo Muradian.

No mundo todo, a companhia tem posição de liderança em genéricos. Está presente em 120 países, é o quinto maior laboratório do setor nos Estados Unidos, fatura cerca de US$ 1,2 bilhão anuais e apresenta um ritmo de crescimento agressivo. A trajetória na área teve início na década de 60, quando a Sandoz (cuja fusão com a Ciba deu origem à atual Novartis) adquiriu o laboratório Biochemie, uma das maiores fornecedoras de matéria-prima para produção de antibióticos sem marca. Nos anos seguintes, expandiu sua atuação com várias aquisições na Europa, África do Sul, Índia e até na Argentina. Só entre janeiro e setembro deste ano, em relação ao mesmo período de 2000, o faturamento da Novartis Generics cresceu 20%. Quer dizer, a empresa está fartamente habilitada a conquistar fatias generosas do mercado no Brasil. A americana Medley e as brasileiras EMS, Biosintética e Eurofarma, além da indiana Ranbaxy, donas de mais de 80% das vendas desse tipo de medicamento por aqui, devem se preparar para a ofensiva. ?Queremos estar entre as três maiores, chegando a ter até 10% de participação?, prevê Muradian. Em quatro anos, o executivo acredita que a sua divisão representará 15% das vendas da Novartis Pharma, responsável por 85% da receita do grupo no País (cerca de R$ 900 milhões). Os outros 15% vêm das áreas de agricultura e nutrição.

Migração. A decisão da Novartis de avançar sobre esse mercado mostra que não se pode ignorar a força dos genéricos. Desde que começaram a ser comercializados no Brasil, esses medicamentos saltaram de uma participação de 0,3% em maio do ano passado para os 2,5% atuais. Dentro de doze meses, eles deverão representar 10% do faturamento do setor. O crescimento da fatia não se deveu, porém, à expansão do consumo de medicamentos no País. Pelo contrário. Constatou-se uma migração dos consumidores dos remédios tradicionais para os genéricos. ?Os brasileiros mais pobres não conseguirão comprar remédios nem que custem 40% menos e a classe média opta pelos remédios mais baratos?, avalia Muradian.

Apesar das boas perspectivas com os medicamentos sem marca, a Novartis escolheu não lançar no Brasil produtos com princípios ativos que concorram com seus próprios produtos convencionais. Os principais alvos serão os medicamentos de uso crônico. O consumo é contínuo, os pacientes crônicos são praticamente obrigados a comprometer boa parte do orçamento com o tratamento e a vantagem do preço costuma fortalecer uma relação de fidelidade com o laboratório. Apesar da perda de mercado, Cataflam e Voltaren ainda movimentam anualmente R$ 150 milhões, o equivalente a 20% da divisão farmacêutica. Por enquanto.