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Discreto, tímido e quase calado, o carioca Antônio Carlos Valente, 54 anos, desembarcou na presidência da Telefônica em janeiro deste ano, em meio a um intenso fogo cruzado. No front interno, os dois principais executivos, Fernando Xavier e Manoel Amorim, brigavam pelo comando da empresa ? e ambos saíram chamuscados. Xavier parou no conselho e Amorim foi para o Ponto Frio. Do lado de fora, a Telefônica, cuja área de concessão é São Paulo, vivia sua primeira disputa aguda com o governo, desde a privatização. Alguns dirigentes da empresa batiam boca abertamente com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, sobre a entrada no mercado de TV por assinatura, após a compra de uma participação acionária na TVA. Valente foi então chamado do Peru, onde comandava a subsidiária da Telefônica, e, jeitoso, deu fim aos conflitos. ?Tudo está calmo e a nossa tradição é e sempre foi de respeito para com as autoridades?, disse Valente, numa de suas primeiras entrevistas, concedida à DINHEIRO na noite da quarta-feira 28 (leia à página seguinte). Aos poucos, esse executivo, que vive e respira telecomunicações há 32 anos, conseguiu apagar os incêndios e fez com que a Telefônica voltasse a canalizar suas energias para a competição. Nessa disputa, Valente tem hoje nas mãos um porta-aviões. Dias atrás, ele anunciou um lucro de R$ 2,8 bilhões. Os investimentos previstos até 2010 são de R$ 15 bilhões. E, na TV por assinatura, a Telefônica colocou na praça uma política comercial do tipo arrasa-quarteirão. ?Queremos democratizar o entretenimento e vamos conseguir porque sabemos vender para as classes C e D?, garante Valente.

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Centro de controle em SP: pequena queda da base fixa e alta exponencial dos serviços Speedy

 

No manual de guerra da Telefônica, a palavra de ordem é convergência. Valente já não define sua empresa como uma simples prestadora de telefonia. ?O que nós oferecemos é uma oferta integrada de serviços?, diz ele. E, cada vez mais, a idéia é vender pacotes completos. Onde chega o telefone, vão juntos a banda larga do Speedy, a TV por assinatura e outros serviços digitais, como o Detecta. A inspiração comercial veio de um lugar inusitado: o fast-food. ?Nossa lógica é a do Combo?, diz Valente. ?Vendidos separados, o refrigerante, a batatinha e o sanduíche são caros; juntos, fica tudo mais em conta?. Depois da parceria comercial com a TVA, a Telefônica tem oferecido pacotes de TV por assinatura com Speedy por R$ 40,00 mensais ? valor bem abaixo da concorrência. Além disso, Valente buscou um outro conceito para motivar seus vendedores. Trata-se de one-stop shopping. Em outras palavras, isso significa convencer o cliente a comprar tudo numa mesma loja ? a da Telefônica, é claro. ?Além de economia, as pessoas querem conveniência e, quanto menos contas a pagar, melhor?.

Os resultados desse novo estilo da Telefônica têm aparecido nos balanços da empresa. No ano passado, assim como ocorreu com todas as empresas de telefonia fixa no mundo, o número de assinantes diminui. A base de clientes fixos da companhia foi reduzida de 12,4 milhões para 12,3 milhões ? uma perda modesta. No entanto, o crescimento dos serviços de banda larga vem sendo exponencial. Foi de 33% em 2006 e já há mais de 1,6 milhão de clientes Speedy, o que representa cerca de um terço do total nacional. ?A densidade da banda larga no Brasil é de 10% das residências e deve crescer muito em 2007?, aponta Pedro Ritter, presidente filial brasileira da Cisco que, na semana passada, divulgou um barômetro da internet de alta velocidade no País. No caso da Telefônica, esse segmento receberá grande parte dos investimentos de R$ 15 bilhões que foram anunciados para o Brasil até 2010, pelo presidente mundial César Alierta.

De Madri, sede mundial da companhia, Alierta também vem movendo peças que podem ajudar a definir o futuro das telecomunicações no Brasil. Hoje, duas grandes alternativas estão sendo estudadas pela Telefônica. Uma delas é a Vivo, onde os espanhóis já têm 50% do capital, dividindo o controle com a Portugal Telecom (PT).
A outra é a TIM, cujos ativos no Brasil, segundo se especula, podem ser vendidos.
No plano Vivo, o dia D é a sexta-feira 9, quando se realiza em Lisboa uma assembléia de acionistas da PT. Se eles aceitarem uma oferta de compra feita pelo grupo Sonae, os 50% que os portugueses detêm na operadora de celulares serão vendidos ? neste caso, Telefônica é a compradora natural. Caso isso não dê certo, Alierta tem um plano B. Ele estuda comprar uma participação minoritária da holding Olimpia, que controla a Telecom Italia, desde que ganhe, com isso, direito de preferência na disputa pela compra da TIM. ?Todas as alternativas estão sendo estudadas?, admite Valente.

No capítulo das fusões, o olhar de Valente faz diferença. Ele trabalhou ao lado do ex-ministro Sérgio Motta, no desenho da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), e chegou à Anatel, a agência reguladora do setor, ainda em 1997, ano de sua criação. Ficou até 2004, tendo presidido a agência, durante um curto período, no governo Lula. Quando a LGT foi desenhada, foram criadas várias salvaguardas para impedir a concentração de mercado. Mas hoje há uma tendência irreversível nessa direção. ?Nosso setor é intensivo em capital?, diz o presidente da Telefônica. Discretamente, ele vem tentando influir no desenho de um novo marco legal para o setor. E esse estilo suave ajudou a superar a polêmica em torno da TV por assinatura. Antes de Valente, a Telefônica confrontava as autoridades e tentava, a qualquer custo, assumir a gestão da TVA. Depois da sua chegada, optou-se por uma parceria comercial até que a legislação fique mais clara. ?A tecnologia anda na frente da lei?, diz um assessor do ministro Hélio Costa. ?E a entrada da Telefônica nesse setor foi importante porque acabou obrigando o governo a se mexer?. Espera-se, para as próximas semanas, uma nova lei que regule a questão da convergência. E isso se deve, em grande parte, ao carioca Valente.

 
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Pacotes flexíveis e baratos: Valente prega oferta de canais de acordo com o bolso do cliente

 
 
R$ 15 bilhões é o volume de investimentos até 2010
 
 
 
 
1,6 milhão é a base de clientes do Speedy
 
 
 
 
33% foi a expansão do serviço de banda larga da empresa no último ano
 
 
 
 
R$ 2,8 bilhões foi o lucro anunciado em 2006
 
 
 
 
 
 
?LAZER NÃO É SÓ PARA A ELITE?
Valente promete democratizar a TV por assinatura 
 

DINHEIRO ? Por que houve tanta polêmica
quando a Telefônica entrou no mercado de
TV por assinatura?
ANTÔNIO CARLOS VALENTE ? Não há mais conflito Hoje, nós temos uma parceria comercial com a TVA e acreditamos que a concorrência é positiva. O Brasil, depois da privatização, passou a ter 100 milhões de celulares e 40 milhões de linhas fixas. No entanto, o número de clientes de TV por assinatura é de 4 milhões de pessoas. A restrição ainda é o preço.

DINHEIRO ? Como mudar esse quadro?
VALENTE ? Nós temos muita capacidade de distribuição. Chegamos a praticamente todos os lares de São Paulo. Sabemos vender para as classes C e D e queremos democratizar esse serviço. TV por assinatura não deve ser algo exclusivo da elite. E nós oferecemos pacotes flexíveis. O consumidor escolhe o que quer e paga de acordo com a sua capacidade. Além disso, combinamos esse serviço com o Speedy.

DINHEIRO ? Há impedimentos legais ?
VALENTE ? Não. O que existe, no nosso caso, é uma parceria. E o concorrente, que é a NET, tem a Telmex como acionista e vende o serviço junto com o Virtua.

DINHEIRO ? Muitas empresas reclamam da dificuldade para distribuir conteúdo da Globosat, como o SporTV. Isso procede?
VALENTE ? Quem tem conteúdo deve valorizar seu produto. Mas é também importante ampliar a distribuição.

DINHEIRO ? A Telefônica perdeu assinantes fixos. Por que isso ocorreu?
VALENTE ? Isso aconteceu com todas as empresa do setor em função da mudança tecnológica e da competição com os celulares. Mas essa queda foi mais do que compensada pela expansão do Speedy. O futuro, não distante, nos trará velocidades muito maiores. Outro dia, fui à casa de um amigo, que controlou toda a música ambiente pelo computador. Da próxima vez, é possível que ele faça a mesma coisa com vídeos. A banda larga está mudando a relação das pessoas com a televisão. É hoje a forma de conexão dos jovens com o mundo e com a informação.

DINHEIRO ? A Telefônica estuda comprar Vivo ou TIM. Como isso
mudará o setor?
VALENTE ? Todas as alternativas que estão na mesa vêm sendo estudadas. E hoje há uma tendência clara de consolidação do setor, que é intensivo em capital. Nos Estados Unidos, por exemplo, aquela AT&T que foi fragmentada lá atrás voltou a ser a maior empresa de telecom do mundo. E a Verizon, que nasceu da AT&T, é também uma das maiores.

DINHEIRO ? Durante muitos anos, o sr. atuou como regulador do mercado. Qual é hoje, estando do outro lado do balcão, sua visão sobre a Anatel?
VALENTE ? A Anatel sempre tentou criar as condições para que os investimentos privados acontecessem e os resultados estão aí. Em relação a hoje, eu diria que é preciso que exista harmonia entre a agência e o Ministério das Comunicações. E acho que o governo trabalha para que isso aconteça.