Aos 18 anos de idade, o brasileiro Marcelo Tosatti tem uma rotina de matar de inveja os incontáveis adoradores do sistema operacional Linux, concorrente direto do Windows. Todos os dias, ele troca cinco, dez, até vinte e-mails com o fundador e guru do sistema, o finlandês Linus Torvalds. Mas não é nada pessoal. As mensagens geralmente trazem termos de difícil compreensão para 99% dos mortais, como Xlib, xstep++ e strtok. Explica-se: Tosatti é um dos mais habilidosos desenvolvedores do Linux, que, ao contrário do Windows, pode ser modificado por qualquer um desde que este compartilhe as melhorias que obteve com os demais usuários. ?Já houve momentos em que eu disse que o Linus estava errado. Às vezes ele faz umas bobeirinhas. Mas um corrige o outro?, diz ele, sem qualquer sinal de vaidade. Na próxima semana Tosatti oferecerá mais um motivo para ser invejado. Ele foi escolhido pelo mesmo Linus Torvalds para ser o principal desenvolvedor de Linux no mundo. Irá tomar o lugar de outro guru, Alan Cox, que deverá ajudá-lo até o final deste mês. A partir daí, Tosatti, mesmo sem ter tirado a carteira de motorista, é quem vai dar a última palavra sobre o que deve entrar e o que deve ficar de fora dos 2 milhões de linhas de código do sistema, que roda em 27% dos servidores no mundo.

Será uma responsabilidade e tanto. Programadores da Indonésia, da República Tcheca e do Gabão poderão sugerir alterações no código. Será Tosatti quem avaliará se a mudança deve ou não ser feita. Para tanto, ele não freqüentou nenhuma aula de inglês fora da escola. Nem mesmo fez cursos de informática. Bastou começar a fuçar num micro 386 com o MS-DOS do irmão, aos 12 anos de idade. Atualmente, Tosatti divide seu tempo entre a Conectiva (a maior distribuidora de Linux no Brasil e onde começou a trabalhar com 14 anos), o futebol, a namorada e os amigos: ?Para eles, digo apenas que trabalho com computador. Fica muito complicado explicar.? No ano que vem, ele quer fazer matemática na universidade. Mas nem tocou nas apostilas. ?Nunca fui disso?, diz ele. ?O terror da minha vida é estudar coisas que não me interessam.? O futuro, contudo, pode revelar novos caminhos. ?Mesmo num momento de crise como o que estamos vivendo, ele arruma emprego em qualquer lugar do mundo. E com um salário significativo?, diz Daniel Dalarosso, presidente da Cyclades, na Califórnia. ?Ele vai ganhar um destaque internacional muito grande. Mantê-lo no Brasil vai ser bem difícil?, diz Marcos Morales, consultor da empresa de recrutamento Williamm Mercer. Para Tosatti, isso tudo ainda parece distante. ?Gosto de trabalhar aqui, mas não sei o que vai acontecer daqui para a frente.?