26/10/2005 - 8:00

O prefeito José Serra: No estilo centralizador, ele pode cair na tentação de virar o próprio ministro da Fazenda. Um erro
Três anos atrás, em novembro de 2002, o economista José Serra parecia, aos 60 anos, um produto cujo prazo de validade havia passado. Derrotado por Lula, o homem que fora líder estudantil nos anos 60, exilado nos 70, secretário de Estado nos anos 80 e ministro duas vezes nos anos 90 entrava no século 21 carregando uma rica biografia, mas deixando a sensação de que já havia cumprido seu papel e alcançado com 37 milhões de votos o ponto mais alto da sua carreira. Dali por diante, só haveria descida ou a ocupação de papéis menores. O tempo mostrou que não era o caso. Dias atrás, confirmando uma tendência que já ficara evidente na eleição municipal de 2004, quando bateu Marta Suplicy na disputa pela prefeitura de São Paulo, as pesquisas nacionais de opinião apontaram, mais uma vez, que Serra é o único capaz de vencer Lula nas eleições de 2006 ? com uma vantagem inédita de 9 pontos percentuais no segundo turno. Não se sabe ainda se isso reflete um eco da eleição passada, como acredita o veterano deputado Delfim Neto, ou se espelha a consistência intrínseca da marca do prefeito, como sustentam seus admiradores. O caso é que se fosse um produto, Serra teria voltado às graças do consumidor, renovado, simultaneamente, pelo mandato de prefeito da maior metrópole do Brasil e pelo intenso desgaste da popularidade de Lula na presidência. ?Como produto, Serra atrai os consumidores pelas suas qualidades de homem público e administrador?, afirma o consultor Jaime Troiano, especialista em marcas. ?Seu lado fraco é o emocional. Ele parece arrogante e as pessoas não têm empatia com ele.?
De olho no mercado do voto, a renovação do produto Serra tem sido feita com base em uma eficiente estratégia de comunicação pessoal. Ele renovou o time de assessores de comunicação da Prefeitura e tem hoje nessa área quase 50 profissionais. Com apoio dessa estrutura, está conseguindo se colocar freqüentemente na imprensa popular, sobretudo no rádio, com a qual alcança os eleitores tradicionais do PT. No dia a dia do trabalho, Serra reserva as manhãs para o contato corpo a corpo com a população. Visita obras, dá aulas de matemática nas escolas municipais, e inspeciona postos de saúde. Tomou gosto por cortar fitas de inauguração e tomar cafezinho em botecos da periferia. Nesses momentos não olha para o relógio. Meio ao estilo Jânio Quadros, escuta reclamações e tem se feito presente instantaneamente nos locais de confusão. Semanas atrás, saiu de casa na tarde de domingo para visitar um restaurante no bairro do Morumbi cujo teto havia desabado, ferindo uma dezena de pessoas. Ele deu entrevista no local garantindo que a prefeitura estava fiscalizando para evitar coisas como aquela. Não tem fugido nem dos riscos desse contato com a população. Na quarta-feira 19, quase levou uma ovada ao inaugurar um posto de saúde no bairro periférico de São Miguel. Em lugar de explodir, o prefeito respingado limpou-se calmamente com o lenço, entrou no carro e seguiu viagem. Nem se preocupou com o agressor. ?Ele anda num bom humor à toda prova?, garante um dos seus mais frequentes interlocutores, o secretário municipal Walter Feldman.

De passeios de metrô a vistorias em obras: Serra mescla sua imagem de intelectual com pendor popular
O estilo centralizador do prefeito fornece pistas de como ele poderia atuar na Presidência. Serra preocupa-se com os detalhes, decide sozinho e passa como um trator sobre a oposição. Preocupado com as pichações que emporcalham São Paulo, saiu-se com duas idéias. Primeiro, mandou comprar 200 mil mudas de plantas trepadeiras para cobrir os muros da cidade. Chamou a isso de Cortina Verde. Em seguida anunciou que a Prefeitura vai mandar pintar as paredes pichadas e enviar a conta ao proprietário. Na gestão financeira, segue a tradição tucana de apertar nos impostos e segurar nas realizações. ?Não esperem grandes obras deste governo?, avisa Andréa Matarazzo, secretário especial da Prefeitura. Quando se gasta, é de olho na aceitação popular. Quase um quarto do orçamento de R$ 2 bilhões de 2006 será gasto na zona leste da cidade, tradicional reduto petista. Para cumprir uma promessa de campanha, o prefeito eliminou a taxa de lixo a partir de 2006, mas com a outra mão mudou o cálculo do Imposto de Transmissão Intervivos, ITBI, cuja arrecadação está subindo. Na mesma direção, ampliou a fiscalização no trânsito, multiplicou o número de radares e está enchendo os cofres da Companhia de Engenharia de Tráfego. Por outro lado, o orçamento social da Prefeitura, engordado por Marta Suplicy, encolheu na gestão Serra. A oposição petista o acusa de ter reduzido o número de famílias atendidas pelo programa de renda mínima. O prefeito também andou mexendo com os albergues da prefeitura e tentando expulsar os mendigos dos viadutos das áreas nobres da cidade, atraindo a ira dos ativistas sociais. Na relação com o setor privado, a decisão mais polêmica de Serra foi a transferência, por licitação, das contas-salário da prefeitura do banco Santander para o Itaú. Com isso arrecadou-se R$ 500 milhões. ?Ele fez isso ao arrepio da lei?, garante Roberto Requião, governador do Paraná. Não resta dúvida de que Serra é o secretário de Finanças de São Paulo. O titular do cargo, Mauro Ricardo da Costa, está orientado a não dar entrevistas e nem aparecer em público.
A quem Serra escuta? ?Ao próprio José Serra?, ironiza o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, velho amigo do prefeito. Embora poucos, os interlocutores existem. Uma das pessoas com quem Serra se aconselha é o economista Pérsio Arida, um dos elaboradores do Plano Real. Inteligência brilhante, o ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique tem um temperamento dócil que não faz sombra ao estilo imperial do ex-ministro da Saúde. Os dois se afinam. Comenta-se que Arida e Edmar Bacha já estariam preparando o Plano Econômico de Serra para as eleições de 2006. Se isso for verdade, ele também deve estar pensando nos nomes que poderiam cercá-lo em Brasília. O empresário Paulo Cunha, do Grupo Ultra, entende muito de política industrial e tem sido um crítico ácido das políticas de baixo crescimento implementadas no Brasil nos últimos anos. Clóvis Carvalho, que dirigiu a Casa Civil com FHC e hoje dirige a agência de Desenvolvimento de São Paulo, é outro da lista pessoal do prefeito. Serra também não esconde a sua admiração por Armínio Fraga, que deixou o BC para tocar a administradora de recursos Gávea. Um plano econômico para tocar na presidência certamente incluiria o antigo projeto de um ministério de comércio exterior e teria como eixo-central a preocupação de reverter a relação entre câmbio e juros ? subindo um e descendo o outro. Mesmo entre alguns banqueiros existe simpatia pela teses centrais que Serra defende: a de que os juros são estupidamente exagerados, que a meta de inflação está sendo usada grosseiramente e que o ajuste fiscal tem de ser mantido, mas em sintonia com um ajuste de impostos que reduza a carga tributária. É o que dizem as cabeças econômicas mais próximas do atual prefeito.

Levado pelas circunstâncias a ser o principal concorrente do presidente, Serra é um produto que cabe naturalmente nesse papel. Por formação e temperamento, ele é o oposto de Lula, e ambos apelam a públicos e percepções diferentes. Lula é um produto emocional, enquanto Serra toca diretamente no racional. Mas é no mercado das idéias que o filho do feirante da Móoca apresenta-se como principal alternativa ao presidente. Ele é desenvolvimentista, enquanto Lula já não sabe mais o que é. O ex-ministro do Planejamento parece acreditar que o Brasil pode crescer mais, chegando perto de países como Rússia, Índia e China, que avançam ao ritmo médio de 8% ao ano. ?Num país em que todo mundo parece concordar com a atual política econômica, Serra é o único que encarna a possibilidade de mudança?, afirma Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Como produto, ele aparece sozinho na prateleira, para o bem e para o mal. ![]()
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