capa_02.jpg

O encontro era esperado há tempo. Finalmente, os banqueiros e investidores de Wall Street encontravam, olho no olho, o Partido dos Trabalhadores, tido e havido como o bicho-papão da emergente economia brasileira, temido como a grande ameaça aos investimentos globais por aqui. O bicho-papão tinha face suave, jeito didático de explicar seus planos, terno bem-cortado, fala pausada e disposição para ouvir e falar dos mais recôndidos medos de seus interlocutores. O bicho-papão era encarnado pelo presidente do PT, José Dirceu, em pessoa. Para não espantar, para não parecer insolente com atraso ou solícito chegando antecipadamente ao compromisso, o deputado apareceu pontualmente, às 9h30, na sede do Morgan Stanley Dean Witter, na Times Square, no centro de Manhattan. Dois meses antes, o Morgan havia recomendado a diminuição de investimentos no Brasil, num momento em que Lula subia nas pesquisas eleitorais. José Dirceu foi ao último andar do edifício-sede do Morgan, foi recebido pelo economista-chefe Stephen Cuningham e levado a uma sala, com uma enorme mesa de madeira oval, cercada por fileiras de cadeiras, e com uma grande janela com vista para o centro de Manhattan e para o rio Hudson, onde confrontou o ?inimigo?. Lá, se espalhavam 40 financistas, entre integrantes do departamento de pesquisa responsável pelas notas baixas ao devedor Brasil, clientes e operadores que negociam boa parte dos títulos da dívida brasileira. Representantes de administradoras de recursos, fundos de pensão, seguradoras e outros grandes investidores também assinavam presença. À disposição dos convidados, apenas café e biscoitinhos. ?O PT vai manter o Armínio Fraga na presidência do Banco Central??, quis saber o primeiro. ?O BC será independente??, emendou outro. ?Como o PT vai atender às promessas de investimentos sociais e criar superávit das contas públicas??, fuzilou um terceiro. O encontro do PT com Wall Street ocorreu num tom de voz baixa, ameno, educado mas incisivo. Como o PT vai governar ainda paira como a grande dúvida dessa turma. A desconfiança ainda é a tônica dos dois lados. ?Os investidores que especularam com o Brasil para recuperar as perdas que tiveram na Argentina, não vão querer fazer isso lá na frente??, repisou José Dirceu em entrevista à DINHEIRO, após o encontro. ?Ainda não sabemos qual é o PT que vai governar?, disse um participante após o convescote.

 

Houve algum entendimento, é bem verdade. ?Eles reconhecem que o maior risco para o País não é o PT, mas a situação da economia brasileira?, disse o representante de Lula. ?Ele apresentou um discurso de bom senso?, elogiou um investidor. A abertura de um canal de comunicação direto entre a cúpula do partido e o mercado financeiro foi o grande trunfo desse primeiro momento. Em cinco dias de viagem de José Dirceu aos EUA, a cena se repetiu várias vezes, num roteiro preparado para aproximar o partido líder das pesquisas eleitorais à base do poder financeiro e também político americano. Dirceu esteve com Larry Lindsey, economista-chefe da Casa Branca. Incluiu na agenda uma passada no escritório de Enrique Iglesias, presidente do BID, de Lorenzo Perez, do FMI e até de John Maesto, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, para lhe assegurar tranqüilidade política na transição. Da lista de banqueiros, alguns entre os mais robustos de Wall Street: Citigroup, J.P. Morgan, Morgan Stanley e Lehman Brothers. Entre aqueles aplicadores de notas de risco ao País, as agências Standard & Poor?s e Moody?s. Também falou com acadêmicos, sindicalistas, representantes de ONGs e com empresários. Enfim, era um PT revisado e reintegrado a globalização, como prega o próprio candidato Lula. Dos planos vendidos pelo partido lá fora, caso ganhe as eleições, havia de tudo: reformas da Previdência e Tributária de uma tacada, nos seis primeiros meses de governo; renegociação de dívida, crescimento acelerado e aumento do comércio exterior. Ante os insistentes pedidos para manter Armínio Fraga como presidente do Banco Central, disse ?não?. ?É não, está fora de questão e não vamos negociar?, reiterou Dirceu à DINHEIRO.

A visita do político revela não só a disposição do PT em preparar terreno para um futuro governo, mas também uma mudança na percepção dos investidores estrangeiros. Quando o conselheiro econômico de Lula, Guido Mantega, visitou investidores em Nova York, há um mês, ele ouviu muitas perguntas sobre a intenção do PT em honrar contratos e pagar a dívida pública. Um investidor mais exaltado pediu ?mais garantias? para não tirar seu dinheiro do País. Com José Dirceu, foi diferente. Os investidores continuam críticos ao PT, embora sempre com tratamento cordial. As críticas mudaram de tom e de foco. Em apenas uma única oportunidade, Dirceu ouviu perguntas sobre o risco do partido dar o calote. Foi logo no segundo encontro, no banco de investimentos Lehman Brothers. ?Porque o PT promoveu um plebiscito sobre o pagamento da dívida externa??, perguntou um banqueiro. O presidente do PT respondeu que o plebiscito era idéia da CNBB e que, desde então, o partido já havia mudado de opinião. Não se falou mais no assunto.

Fischer, do Citigroup: exigiu a permanência de Arminio Fraga no BC
A grande preocupação manifestada em todas as reuniões, na realidade, foi com a capacidade de o PT governar o País. E aí, os banqueiros pegaram pesado com o presidente do PT. ?Vocês prometem muito em questões sociais, como vão cumprir as metas fiscais e manter a dívida sobre controle??, questionou um banqueiro, na reunião do Morgan Stanley. ?Como pretendem fazer o País crescer rapidamente??, emendou outro investidor. ?Governamos 50 milhões de pessoas, entre municípios e Estados administrados pelo PT?, respondeu Dirceu. ?E nossos governos são os mais responsáveis na parte fiscal, são premiados internacionalmente por sua competência.? A cobrança mais dura veio na conversa reservada com Stanley Fischer, vice-presidente do Citigroup e ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional. ?Vocês deveriam manter o Armínio Fraga como presidente do Banco Central?, insistiu Fischer. E quis mais: a independência do BC. O máximo que Dirceu concedeu foi declarar que se existe um partido capaz de dar maior independência à instituição, esse é o PT. ?No Reino Unido, foi assim. Foi o partido mais à esquerda, o Trabalhista, de Tony Blair, que deu a independência ao BC?, disse Dirceu. Para quem esperava um revolucionário de esquerda, Dirceu apresentou uma face amena do Partido dos Trabalhadores. ?Não vamos fazer um governo de esquerda porque isso não é possível. Vamos fazer um governo de centro-esquerda?, anunciou Dirceu, para alguns investidores espantados, que fizeram questão de anotar a frase do presidente do PT. Ele até detalhou planos que, nas palavras irônicas de um dos presentes, seriam os projetos de um ?governo FHC turbinado?. Segundo esse investidor, Dirceu prometeu mais do mesmo. Ou
seja, anunciou que um governo petista faria em seis meses as reformas que Fernando Henrique não realizou em oito anos.
?Com a reforma tributária já há quase um consenso?, disse Dirceu. Na reforma previdenciária, ele apresentou um surpreendente plano para quem considera o PT um partido corporativista. Propôs
igualar o tratamento do funcionalismo ao recebido pelos trabalhadores da iniciativa privada, ou seja, acabar com as
pensões mais altas dos servidores. Mas fez três ressalvas: não mexeria em direitos adquiridos, negociaria um acordo de transição e pouparia as Forças Armadas. ?Com os militares, a questão é mais delicada?, disse o petista.

Cena Inédita: Dirceu, acompanhado de Rubens Barbosa, foi o primeiro petista a entrar na Casa Branca
Se em Wall Street, Dirceu tratou de economia, em Washington falou de política e entrou num território impensável até pouco tempo atrás. Em 1969, o embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, foi seqüestrado. Para soltá-lo, os seqüestradores exigiram — e conseguiram — a liberação de 15 presos políticos, entre eles, José Dirceu, que acabou morando em Cuba. Na quinta-feira da semana passada, Dirceu foi o primeiro petista a entrar na Casa Branca. Acompanhado pelo embaixador brasileiro, Rubens Barbosa, Dirceu se encontrou com o assessor econômico do presidente George W. Bush, Lawrence Lindsay. Era aniversário de Lindsay, sua mesa estava coberta por cartões de congratulações e havia uma faixa com escritos ?Happy Birthday? pregada na parede, ao lado de um diploma de Harvard. A conversa foi protocolar, mas deu um sinal para importante, a abertura de um canal de comunicação direto entre o PT e a Casa Branca. ?Vamos trabalhar e procurar estreitar relações com qualquer candidato que ganhar as eleições?, disse Lindsay. ?Estamos à disposição?. Em sua maratona, Dirceu se encontrou também com o presidente mundial da Alcoa, Alan Belda, com o economista José Alexandre Scheinkman, sindicalistas e representantes de ONGs. Para Dirceu, os encontros foram positivos, embora saiba que existe uma distância entre um bom contato e a volta de investimentos ao Brasil com Lula à frente nas pesquisas. ?Tentei mostrar que eles têm, na verdade, dois riscos: o de não ver as oportunidades de investimentos a curto prazo e o risco de não mudar a política econômica do governo?. A campanha junto aos investidores só começou. O próximo passo é uma visita de parlamentares petistas a Washington e uma viagem do assessor Guido Mantega a investidores em Londres e Frankfurt.

O RECADO DE DIRCEU

ESQUERDA
?Não vamos fazer um governo
de esquerda porque isso não é
possível. Vamos fazer um governo
de centro-esquerda.?

REFORMAS
?Se ganharmos, vamos começar a negociar as reformas antes de tomar posse. Em seis meses, vamos aprovar as reformas Tributária e da Previdência. A reforma trabalhista é mais difícil e deve demorar um pouco mais.?

PREVIDÊNCIA
?Vamos igualar a previdência pública e a privada. Mas vamos respeitar os direitos adquiridos dos servidores públicos, negociar uma transição e tratar a questão militar à parte.?

RISCOS
?É um erro não ver as oportunidades de investimento no Brasil a curto prazo. O maior risco do País é não mudar a política econômica e a crise se agravar.?

CRESCIMENTO
?O recado é claro: com o PT o País vai crescer. Tem que correr o risco de crescer. Nossa política é o crescimento, não é o monetarismo.?

DÍVIDA
?É uma questão matemática: se o Brasil não crescer, teremos problemas com a dívida. Vamos correr o risco de crescer, as chances de resolver o problema são 70% maiores.?