06/11/2002 - 8:00
Aviso aos futuros ministros do governo Lula: estejam de malas prontas. Assim que nomear o seu ministério, em dezembro, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva vai embarcar com a equipe em um avião e partir para alguns dos principais bolsões de miséria do Brasil. Uma aeronave da FAB já foi até oferecida pelo atual presidente, Fernando Henrique, mas falta fechar o roteiro. Lula já adiantou, no entanto, que o semi-árido do Nordeste, o Vale do Jequitinhonha e a região ribeirinha da Amazônia estarão no trajeto. Para entender a decisão do presidente eleito em fazer dessa a sua primeira viagem oficial é preciso relembrar as Caravanas da Cidadania, série de viagens que Lula, um pequeno grupo do PT, além de acadêmicos e especialistas nas mais diversas áreas, fizeram pelo País entre 1993 e 1994. De ônibus, de barco, de avião, eles visitaram 350 cidades de 26 Estados. A partir do retrato do Brasil levantado pelas caravanas surgiram quase todos os projetos que deram origem ao atual plano de governo do PT. Lula aprendeu muito com elas. E quer que os seus auxiliares aprendam também.
Cada programa ? seja na área de habitação, alimentação, saúde, educação, agricultura, energia etc. ? que será implementado a partir de 1o de janeiro de 2003, terá como origem a experiência que Lula obteve nas caravanas. Idealizador da série de viagens, o jornalista Ricardo Kotscho, coordenador de imprensa da campanha presidencial, lembra, por exemplo, que um dos momentos mais emocionantes da Caravana pelo rio São Francisco, em 1994, está na gênese de um dos projetos do presidente eleito para a área da saúde. Ao percorrerem o Velho Chico, Lula e sua comitiva se impressionaram com as populações ribeirinhas que desciam pelos barrancos até a margem e acenavam para que o barco do grupo parasse. Mais de uma vez Lula mandou parar. Numa delas, ouviu dos pescadores queixas, principalmente sobre a ausência de médicos e remédios ? o posto de saúde mais próximo ficava a oito horas de distância do vilarejo. Ao definir sua política de saúde, o presidente eleito não esqueceu do que viu ali. Por isso, uma das prioridades será a atuação e formação de agentes comunitários e médicos da própria comunidade.
Outro bom exemplo de como as Caravanas da Cidadania estarão presentes no governo Lula é o projeto Fome Zero, bandeira do primeiro ano de mandato. O programa prevê, entre outras coisas, o incentivo da agricultura familiar e de um sistema de abastecimento que faça com que o alimento chegue a todos os pontos do País. As duas questões foram ponto pacífico para Lula. Nas suas andanças, ele sentiu na pele a irônica sensação de ter recursos e não ter o que comprar. ?Várias vezes chegamos em cidades em que a miséria era tamanha que não adiantava ter dinheiro. A ausência de feijão, arroz, farinha nas prateleiras das vendas era total?, conta Kotscho.
As Caravanas da Cidadania foram um manancial de idéias
obtidas através da vivência diária nas regiões mais carentes do Brasil. Ao ver que a prática secular do clientelismo, que faz
com que os habitantes dos grotões do sertão nordestino ainda estejam à mercê da boa vontade dos coronéis para obter água dos caminhões-pipa e cesta básica, continuava de vento em popa, Lula deu ênfase total ao orçamento participativo em seu plano de governo. A idéia é que a população opine sobre a forma como os governantes vão gastar os recursos, através de reuniões abertas a todos. Assim, poderão conhecer, na prática, uma palavra que, até hoje, muitos só viram nas camisetas que Lula usava em suas andanças pelo País: cidadania.