Dez dias antes do Natal, durante um encontro com crianças, o presidente Lula pôs na cabeça um chapéu de Papai Noel e deixou-se fotografar alegremente. A imagem que resultou desse gesto, meio engraçada e meio terna, circulou intensamente na mídia e acabou dando uma espécie de fecho estético ao ano de 2005. Infelizmente para o presidente, o novo ano que se aproxima terá pouco em comum com a imagem feliz do Papai Noel. Embora não se prevejam sobressaltos na economia e tampouco situações dramáticas como o apagão de 2001, Lula e o Brasil têm pela frente em 2006 uma duríssima campanha eleitoral, equivalente, em termos emocionais, àquela que opôs Lula e Fernando Collor em 1989. Essa eleição tende a dividir o País, alterar os ânimos e afetar o andamento da economia ? sobretudo se o prefeito de São Paulo, José Serra, que tem um discurso desenvolvimentista, sair candidato e permanecer à frente na disputa. Vista com os números de agora, a situação é ruim para Lula. As pesquisas mostram que no segundo turno o presidente do Bolsa Família perderia para dois candidatos do PSDB ? Serra e Geraldo Alckmin, governador de São Paulo.

No terreno da economia a situação é mais confortável para o governo. Com a redução lenta, gradual (e insuficiente) dos juros, iniciada no final de 2005, a economia pode ter condições de respirar melhor em 2006. Os analistas esperam crescimento da ordem de 3,5%, embora o presidente Lula esteja falando de 5% de expansão do PIB. Se a experiência dos últimos anos sugere alguma coisa, o crescimento não será espetacular. A natureza do sistema de metas de inflação, tal como é operado por essa equipe econômica, implica em manter a economia no garrote. Especula-se que o presidente Lula, cansado das críticas e temeroso pela sua reeleição, possa mexer radicalmente nas diretrizes macroeconômica do governo. É improvável. Pelo grau de cautela que o presidente mostrou até agora, é difícil acreditar que ele se transforme de uma hora para outro em campeão do desenvolvimento. Aliás, seria quase um suicídio. De qualquer forma, espera-se crescimento em 2006 e com ele alguma expansão palpável do emprego, que pode ajudar o presidente. Espera-se também que o governo abra os cofres e ponha-se a fazer obras que estão sendo adiadas desde 2003. A infra-estrutura do País está abandonada há uma década e 2006, por conta da eleição, pode ser um momento fugaz daqueles em que o dinheiro aparece e tudo parece que vai mudar.

As incógnitas que cercam o próximo ano estão, em grande medida, ligadas ao cenário externo. A farra das exportações em 2005 dependeu muito da voracidade do mercado chinês. Ela vai continuar? Sim. Do mesmo tamanho? Não se sabe. Do mesmo modo, há dúvidas sobre a qualidade do crescimento global no ano que entra. Parece estar afastada a hipótese de derrapagem da economia americana, assim como de aumento de juros nos EUA. O motor deve seguir funcionando. Mas ele sozinho não dá conta de tudo. Quando se olha o resto do mundo, e as imensas mudanças que estão sendo operadas nos sistemas produtivos, ninguém pode prever com que intensidade a economia mundial vai se expandir. Sabe-se que a economia global tem vivido um longo período de tranqüilidade, e que isso nas últimas décadas foi incomum. A próxima crise, como ocorreu com a quebra das economias asiáticas em 1997, pode estar oculta em qualquer lugar.

Do crescimento mundial e da valorização da moeda brasileira depende algo que tem sido fundamental ao equilíbrio macroeconômico do Brasil: as exportações. Elas têm crescido espetacularmente nos últimos anos e teme-se que isso não vá continuar no mesmo ritmo em 2006. Muitos dos contratos de exportação que deveriam ter sido fechados no final de 2005 não o foram, sinalizando uma redução. Os especialistas estão dizendo que as exportações devem cair para US$ 120 bilhões, depois de terem atingido US$ 130 bilhões no final de 2005. A causa principal dessa mudança é o câmbio. O real está muito valorizado e torna os produtos industriais brasileiros menos competitivos. Para que o câmbio melhore é preciso que os juros caiam. O presidente Lula prometeu que eles vão cair, mas quanto?