A presidente eleita da Argentina, Cristina Kirchner, ainda não assumiu a Casa Rosada, mas já mexeu nas finanças. Seu trunfo atende pelo nome de Martín Lousteau. Aos 36 anos, é o mais jovem ministro da Economia que a Argentina já teve. Monetarista confesso, sua indicação ao cargo nasceu de uma conversa que travou com Cristina Kirchner na Espanha, há três meses, quando ela representava o presidente Néstor Kirchner em uma cerimônia e Lousteau negociava a venda de um fundo de pensão do Banco Provincia de Buenos Aires ao grupo holandês ING. Os dois encontraram afinidades, principalmente porque Lousteau não apresentou qualquer crítica ao modelo econômico implementado pelo casal Kirchner nos últimos quatro anos. ?A Argentina precisa apenas acertar alguns pontos?, disse Lousteau à DINHEIRO, pouco antes de embarcar de volta a Buenos Aires após uma visita relâmpago a Brasília, na segunda- feira 19. ?Os conceitos macroeconômicos são confiáveis e continuarão se fazendo valer.? São esses conceitos que receberam a confiança do casal K. Lousteau não se cansa de repetir o mantra que tomou conta do governo. E promete continuar a cantilena ao país: superávit comercial e fiscal, câmbio competitivo e taxas de juros baixos.

UM JOVEM NO PODER
HETERODOXO, LOUSTEAU AINDA CRÊ EM CONTROLE DE PREÇOS

No Brasil, a indicação de Martín Lousteau foi recebida com ressalvas. O empresariado ficou surpreso ao tomar conhecimento das idéias de Lousteau, um censor do modelo vigente do Mercosul. Em um livro escrito há dois anos, o argentino critica as assimetrias do bloco desde a sua criação, afirmando que ?ao contrário do que se previa, não representou uma fonte de desenvolvimento industrial para a Argentina?. O comércio bilateral comprova isso. Até 2002, a Argentina marcava vistosos saldos no intercâmbio com o Brasil. O processo virou a partir de 2004 e, desde então, os argentinos reclamam das tais ?assimetrias?

No mercado argentino, contudo, a indicação de Martín Lousteau foi encarada como uma grata surpresa. Mestre pela London School of Economics, Lousteau faz parte de um grupo influente de economistas argentinos. Ele forma com os expresidentes do Banco Central Javier González Fraga e Alfonso Prat-Gay o chamado ?Grupo Salamandra?, uma união informal que, ao todo, recebeu 85% dos votos emitidos na última eleição. Explicase. González Fraga era cotado para assumir a pasta da Economia caso Roberto Lavagna vencesse a disputa. Já Prat-Gay era o nome de Elisa Carrió. ?Ficou mais fácil ser ministro da Economia na Argentina hoje?, brinca Aldo Ferrer, ex-ministro no governo militar. ?Depois de tantas experiências, sobrou pouca coisa para errar.? Mas é justamente sobre os erros que o trabalho de Martín Lousteau deve começar. Analistas afirmam que as principais preocupações do novo ministro serão a negociação com o Clube de Paris e a crescente inflação. São temas que já vêm sendo tratados por Néstor Kirchner. Muito do bom humor do mercado, aliás, vem pela influência que o atual presidente deve exercer nos rumos da economia no governo. ?Ele gosta dos detalhes e não deixará nada escapar?, avalia Mario Brodersohn, ex-secretário de Fazenda no governo Ricardo Alfonsín. E é só com o tempo que se verá a autonomia de Lousteau. Até o momento, ninguém duvida que o verdadeiro ministro será Néstor Kirchner.