03/04/2002 - 7:00

Abraham Kasinski: “O Brasil é um país de criadores e eu sempre inventei coisas novas”
Em novembro do ano passado, durante o Salão das Duas Rodas, em São Paulo, o empresário Abraham Kasinski recebeu uma visita inesperada em seu estande. Era Koichi Kondo, presidente da Honda do Brasil. O executivo da gigante das motocicletas queria conhecer o novato do setor, a Companhia Fabricadora de Veículos (Cofave). ?Posso chamar algumas pessoas da minha equipe para conhecer seu trabalho??, perguntou ao empresário brasileiro. ?Claro.? O estande foi então invadido por técnicos e fotógrafos da Honda, que examinavam e registravam os oito modelos fabricados pela nova marca. O ex-dono da Cofap se diverte com a história. Vaidoso, ele gosta de mostrar que está incomodando a concorrência. E promete incomodar muito mais. Os alvos agora serão GM, Ford, Fiat, Peugeot, Renault. Depois de três anos fazendo motos, Kasinski quer produzir carros populares. O empresário que começou na década de 40 fabricando autopeças vai construir automóveis que custem no máximo R$ 10 mil. Dentro de 12 meses o projeto deve ganhar as ruas. ?Será um veículo completamente diferente. Não dá para comparar com o que existe hoje?, diz ele. Em seu escritório em São Paulo, em meio a documentos, fotos e folders da nova marca, ?Seu Abraão? (como é conhecido entre os funcionários) sonha com a expansão do recentíssimo grupo Cofave, a nova legenda sob a qual Kasinski desenvolve seus projetos. O plano desse empreendedor insaciável de 84 anos admite até novos sócios na empresa. Para quem construiu um império, o gosto do recomeço parece duas vezes melhor. ?O Brasil é um país de criadores e eu sempre inventei coisas novas.? Atenção: Kasinski está naquela idade na qual boa parte das pessoas já vem desfrutando a aposentadoria há pelo menos 20 anos. José Mindlin, 87 anos, que junto com Kasinski dominou o setor de autopeças por décadas, reconhece a vitalidade do ex-concorrente. ?Essa energia é uma coisa fora do comum?, diz o ex-presidente da antiga Metal Leve.

Triciclo picape: modelo de inspiração indiana já está à venda
Kasinski tem o dom de antecipar. Foi assim com a Cofap, em 1942, quando mal existiam carros e estradas no Brasil. O pioneirismo do filho de imigrantes russos ergueu uma empresa que faturava
US$ 1 bilhão e exportava para 97 países, antes de ser vendida para os italianos da Magnett Marelli. Com as motos não foi diferente. O empresário decidiu investir exatamente quando se prenunciava uma explosão no consumo de motos. Em 1999, foram fabricados
473 mil no País. A previsão da Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas é que neste ano cerca de 860 mil unidades ganhem as ruas. Se for levado em conta o desempenho do setor na última década, houve um crescimento de quase 800% da produção. ?É um mercado em evolução. A estabilidade econômica ajudou a impulsionar as vendas de motos?, diz Franklin de Mello, diretor-executivo da Abraciclo. Nenhum setor da economia brasileira passou por tal transformação nos últimos anos. Para Kasinski, existe um número mágico que move o setor. ?Todos os anos, 1% da população brasileira atinge a maioridade. E a primeira coisa que os jovens querem é a independência do transporte.? Hoje, a Cofave tem
2% de participação de um mercado dominado pela Honda, com quase 90% das vendas. Um feito e tanto se for levado em conta que a multinacional japonesa está no País desde os anos 70.
O novo carro de Kasinski, a ser lançado, será uma evolução do produto que ele acabou de inventar: o Motokar. Esse Motokar, que já está nas ruas do Brasil, é um triciclo com tecnologia indiana, que dispõe das versões táxi, picape e furgão, cujo preço varia de R$ 7 mil a R$ 11 mil. O projeto levou um ano e meio para sair do papel e precisou de muito lobby em Brasília. ?Tive o apoio de oito ministros. O ex-ministro Alcides Tápias, do Desenvolvimento, me ajudou muito?, conta. Há menos de dois meses à disposição do consumidor, o Motokar já roda no Tocantins, Paraíba e Rio Grande do Norte. Para a versão quatro rodas, Kasinski promete um veículo mais potente do que o triciclo, cuja velocidade média atinge 50 quilômetros por hora. O motor deverá ter uma potência equivalente aos populares 1.0, que dominam 70% do mercado nacional. Esse segmento é a menina dos olhos das tradicionais montadoras instaladas no País, conscientes dos limites da minguada renda brasileira. Não é para menos que Kasinski foca seus projetos nas classes menos abastadas. O empresário também revela que irá buscar fornecedores no Brasil inteiro e não descarta a possibilidade de trazer peças de fora. ?Conheço empresas de autopeças do mundo inteiro. Sei onde buscar o melhor e mais barato.? Por isso mesmo, Seu Abraão não teme cair nas mesmas armadilhas que afundaram outro pioneiro: Amaral Gurgel. Para ele, o único erro de Gurgel, que fez o primeiro carro 100% brasileiro, foi ter inovado demais. ?Para ser honesto, estou copiando uma série de projetos bem-sucedidos que vi no mundo todo.? A idéia de fazer o Motokar nasceu de uma viagem à Itália, onde Kasinski viu e fotografou exaustivamente um modelo parecido de triciclo. Mas o empresário ainda faz muito segredo em torno do projeto do carro popular, sobretudo porque não quer aguçar o apetite da concorrência. Não conta, por exemplo, quem são os engenheiros, designers e técnicos que fazem parte do novo time que acabou de contratar. Faz um mês e meio que Kasinski demitiu a equipe anterior, acusando-a de incompetência. É o jeito linha dura, de quem antes das 9 horas já dá expediente no escritório e não termina o dia antes das 10 da noite. Mais um detalhe: na rotina semanal cabem seis horas de ginástica com a personal trainer. E nunca é demais lembrar: o homem tem 84 anos.
O Seu Abraão sabe que essa energia e determinação fazem dele uma pessoa difícil de lidar. Ainda hoje o relacionamento com os filhos Renato e Roberto continua estremecido, remontando à época em que deixou contrariado a Cofap, que, posteriormente, foi vendida. Ele não esconde a mágoa em relação aos filhos. ?Eles estão completamente fora, cada um com sua vida. Um mora nos EUA e outro é fazendeiro. Não gostam de ser empresários?, diz ele, com os olhos mareados. Por isso mesmo, Kasinski nem pensa em rever os filhos novamente ao seu lado nos negócios. Mas o empresário cabeça-dura sabe que no futuro precisará de um sócio para dar continuidade à fábrica de motos: ?Não posso sair com um sininho na mão propondo sociedade, mas se aparecer alguém, quem sabe.? Até agora muita gente já bateu a sua porta. Um grande fabricante alemão de veículos já propôs a criação de um novo negócio juntos. Aparentemente, a proposta não agradou o empresário que, por enquanto, só pensa em tirar a companhia do vermelho ? sim, Kasinski está no prejuízo ? aumentando o volume de vendas. Em 2005, planeja fabricar 5 mil motos por mês, multiplicando sua produção por cinco. Parece improvável? Não para o velho Seu Abraão, o homem que quer construir o novo carro brasileiro e que cultiva 18 mil orquídeas nas horas vagas. O empresário que sempre tem uma boa definição para a própria obstinação: ?O Brasil é um País para quem tem vontade de realizar. E eu realizo?. Aos 84 anos…
| ?Sou o gerente do circo? | ||
Definição. ?Não consigo ficar parado. Sou considerado louco, burro, idiota, pernóstico. Podia estar descansando em qualquer lugar do mundo, sem fazer nada. Depois de vender a Cofap fiquei seis meses em casa. Foi desesperador. Eu lia quatro jornais por dia e no meio da tarde não tinha o que fazer. Lia até classificados do tipo ?homem procura mulher?.? Cofap. ?Não foi fácil vender, mas tinha que acontecer. O circo tem que continuar. Eu sou o gerente do circo que fica com o paletó de paetê, cartola e apito na boca. Quando meu palhaço não faz o público dar risada, eu não fecho o circo. Troco o palhaço. Tem outro jeito? A vida é assim.? Filhos. ?A relação é boa, mais ou menos assim: ?Oi, pai. Oi, filho. Puxa, quanto tempo que não te vejo. Vamos sair para jantar? Ah pai, assim que eu tiver um tempo?.? Sucessão. ?Tenho 84. Não tenho medo de morrer, mas quero preparar a empresa para o futuro?. |
