O Brasil, mais uma vez, surpreendeu. Diz a teoria econômica que, quando uma moeda se valoriza, as exportações devem automaticamente cair e as importações devem crescer. No Brasil de 2003 aconteceu o contrário. O dólar começou o ano a R$ 3,50 e hoje está na casa de R$ 2,90. O real, portanto, se valorizou cerca de 20% e a gestão do câmbio, conduzida pelo Banco Central, deu vazão às tradicionais reclamações dos exportadores, clamando por uma moeda mais fraca. Pois bem: apesar do choro, o Brasil terá em 2003 o maior saldo comercial de sua história. Até a primeira semana de novembro, as exportações superam importações em US$ 20,7 bilhões. O saldo previsto pelos empresários para este ano será próximo a US$ 24 bilhões, o que representa mais do dobro do ano passado. Por trás desse show da balança comercial, houve uma verdadeira revolução nas empresas, que ganharam produtividade, driblaram subsídios internacionais, investiram em novos mercados, agregaram valor aos seus produtos e fizeram do Brasil uma grande plataforma de exportação.

A Usiminas, uma das maiores siderúrgicas do País, é uma dessas empresas. A companhia havia exportado US$ 225 milhões no ano passado, dos quais 25% para os Estados Unidos. Com as sobretaxas de 30% impostas pelo governo George W. Bush no início do ano, julgadas ilegais pela Organização Mundial do Comércio apenas na última segunda-feira 10, as exportações para o mercado americano praticamente evaporaram. Em vez de sentar e aguardar o veredito da OMC, a Usiminas se mexeu. Substitui os Estados Unidos pela China e fechará 2003 com exportações de US$ 335 milhões. Ou seja: um resultado 50% acima do realizado no ano passado. ?Conquistamos um novo mercado, com preços até melhores do que os dos Estados Unidos?, disse à DINHEIRO Rinaldo Campos Soares, presidente da empresa. ?E a condenação dos subsídios americanos agora abre
novas oportunidades para o Brasil.?

Veículos. Assim como na Usiminas, a busca incessante de mercados externos é algo que hoje faz parte da estratégia central de muitas empresas ? e não apenas em momentos de retração do mercado interno. Neste ano, as exportações brasileiras de veículos estão crescendo 40%. A Scania fez do Brasil sua base para a América Latina e já exportou 3,3 mil caminhões para a região nos nove primeiros meses do ano. Na indústria de alimentos, o saldo é ainda melhor. A Perdigão, por exemplo, ampliou suas vendas internacionais em 61,5%, que somam R$ 1,3 bilhão. A receita foi agregar valor às exportações. ?Em vez de entregarmos apenas o peito de frango aos compradores, estamos vendendo cada vez mais produtos industrializados?, explica o diretor Ricardo Menezes. É uma estratégia que também vem sendo adotada pelo grupo Cacique, maior exportador de café torrado e moído do País. Hoje, a empresa vende o produto acabado, com a marca Pelé, e compete diretamente com gigantes como a Nestlé. ?Já estamos em 77 países?, comemora o gerente Haroldo Bonfá.

Um outro fator que alavancou as vendas internacionais foram os ganhos de eficiência. Na Klabin, uma das maiores empresas nacionais do setor de papel e celulose, a produtividade dos funcionários cresceu 15% em 2003. Isso ajudou a empresa a exportar 53% a mais nos nove primeiros meses do ano, atingindo uma receita de R$ 381 milhões. ?Como não controlamos os preços, temos que sempre reduzir custos para manter o nosso compromisso com os clientes internacionais?, diz Miguel Sampol, diretor-geral da empresa. O desempenho da balança comercial vem sendo tão avassalador que até mesmo negócios antes impensáveis vêm sendo fechados. Pela primeira vez na história, o Brasil, tradicional importador de trigo, estará exportando a mercadoria. Duas cooperativas do Paraná fecharam contratos de 100 mil toneladas. É um sinal de que o ajuste externo veio para ficar. E os US$ 24 bilhões de saldo positivo em 2003 praticamente zeram todos os déficits gerados no Plano Real, que, entre 1994 e 2000, somaram US$ 29 bilhões.