07/08/2008 - 7:00
SATISFEITO COM A GESTÃO DO PAC, carro-chefe do governo na infra-estrutura, o presidente Lula procura um gerentão para os programas sociais. Se a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, é a ?mãe do PAC?, o presidente pensa em nomear um ?pai da agenda social?. A justificativa oficial é desafogar o trabalho da Casa Civil. Mas, na prática, o presidente vai acabar criando um ?superministro?, que será responsável pela supervisão de projetos em 14 ministérios, além da liberação de recursos na Fazenda. Lula ainda não decidiu, mas o mais cotado para a função é o ministro da Educação, Fernando Haddad, um técnico que ganhou respeito político no governo com suas propostas para a educação, aliada à boa articulação política no Congresso. Em vez de ministro pidão, ganhou fama de resolvedor de problemas. O senador Cristovam Buarque, ex-ministro no início do governo e um dos mais atuantes na bancada da educação, diz que o ministro não só consegue o aval dos parlamentares como também dá apoio a iniciativas originadas no Legislativo, como o piso salarial para os professores. ?Ele tem uma boa relação com todos os parlamentares ligados à educação?, disse ele à DINHEIRO.
Professor da Universidade de São Paulo, Haddad chegou a Brasília no início do governo Lula como assessor do Ministério do Planejamento. Vem daquela época o esboço do ProUni, implantado pelo governo federal quando Haddad ainda era secretárioexecutivo da Educação na gestão de Tarso Genro. Titular do posto desde 2005, ele é elogiado em público pelo presidente Lula com freqüência. O próprio ProUni, que hoje paga bolsas de estudo em faculdades particulares para 310 mil alunos, é uma das bandeiras do governo na área social. O Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado no ano passado, é outra. Nos próximos meses, quando estará proibido de lançar novos projetos, por causa das eleições municipais, o presidente deve cortar o País inaugurando 11 escolas técnicas. Como Lula viajará ao lado de Haddad, será inevitável, pelo menos na bolsa de apostas, a ascensão do ministro ao posto de candidato a presidenciável. Por ora, a posição é de Dilma Rousseff, pelo menos publicamente. Na sesemana passada, em viagem a Salvador, Lula pediu: ?Tratem bem da minha candidata.? Mas o presidente também sabe que a ministra ainda está distante do perfil de candidato ideal. Por isso, já prepara um plano B.
Na última reunião da agenda social, no dia 21, o presidente Lula disse que precisava de um coordenador para os programas sociais. Ele avalia que falta ao governo uma visão do conjunto, alguém que monitore todas as ações na área social, e seja capaz de solucionar os problemas e pendências sem que elas precisem chegar à sua mesa. É o mesmo modelo adotado no PAC, em que a avaliação do andamento das obras, com selos vermelho, amarelo e verde, facilita a visão do conjunto e cria uma espécie de competição saudável entre os ministérios. A idéia é fazer o mesmo na área social. Por dois motivos: aumentar a velocidade de projetos e ao mesmo divulgá-los a um público diferente, que não é beneficiário dessas ações e, quando pensa em programas sociais, só consegue se lembrar do Bolsa Família.
A agenda social é também muito ampla: além dos ministérios do Desenvolvimento Social, Esportes, Saúde e Educação, por exemplo, inclui outros como Justiça, Cultura, Direitos Humanos e até Pesca. Os programas vão desde o Projovem, de estímulo ao primeiro emprego, até o registro civil de nascimento e documentação civil básica, além da inclusão social dos povos indígenas e de crianças e adolescentes e quilombolas. Por outro lado, as dificuldades de gerenciamento ficam patentes quando se pergunta o volume total de recursos envolvidos na agenda social: nem a Casa Civil, atualmente responsável pelo assunto, nem o Ministério do Desenvolvimento Social sabem responder.
Além de Haddad, o nome óbvio para coordenar essas ações seria o do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, que já cuida dos programas mais diretamente ligados à transferência de renda, como o Bolsa Família. O problema de Patrus é que ele, apesar de considerado eficiente em sua área, não é visto ? nem mesmo pelos colegas ? como uma pessoa com personalidade adequada ao perfil de gerentão desejado pelo presidente. Já Haddad, além da fama de competente, se enquadra no discurso político do governo Lula. Depois do sucesso do Bolsa Família, que garantiu a reeleição, o presidente pode usar os programas mais ligados à educação para responder às críticas de assistencialismo e dizer que não está apenas dando o peixe, mas também ensinando a pescar. Na última reunião com os ministros da área social, o presidente lembrou que a função significa muito trabalho extra. Disse que o coordenador da agenda social ?vai trabalhar mais, sem ganhar mais?. Mas pode ser que o prêmio seja mais valioso: uma candidatura, com aval de Lula, em 2010.